Fui ao teatro. Vi Vânia, de Tchekov, numa adaptação de Isabel Medina.

 

Quarta-feira passada, dia 30 de Maio, a Cooperativa Alves Redol organizou mais uma ida ao teatro. Desta vez fomos ao Trindade, ver Vânia, uma adaptação de O Tio Vânia, de Anton Tchekov. A tradução, adaptação e encenação são de Isabel Medina. A produção do espectáculo foi feita através de uma parceria entre o INATEL, o Teatro da Trindade e a Escola de Mulheres – Oficina de Teatro. Camioneta de 39 lugares, emprestada pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, com a lotação esgotada. Ficou gente em terra.


 

Auscultadas as opiniões, ficou-se a saber que a opinião favorável entre os participantes na ida ao teatro foi geral. Esta conclusão não foi de modo nenhum excessiva. Há que dar relevo em em primeiro lugar ao trabalho de adaptação da Isabel Medina que, muito bem, optou por imprimir à representação da peça um tom mais próximo da comédia, sem a tornar de modo nenhum um espectáculo ligeiro, tornou-a bastante mais acessível. Também a tornou mais universal e mais intemporal, sem se desviar da ideia do drama que é a vida, como Tchekov tão bem mostrava no enredo. E procurou ir ao encontro da ideia que o autor terá manifestado dizendo que desejava que as pessoas se rissem ao assistirem às suas peças, e de que utilizou a comédia e a farsa, tanto para negar a inevitabilidade da tragédia, como para chegar a uma abordagem objectiva dos personagens, que assim se tornam responsáveis pelas suas próprias vidas.


Tecnicamente, toda a apresentação da peça está muito bem. Nas interpretações, destaque para João Lagarto (Vânia), mas José Wallenstein e todo o resto do grupo também estão muito bem. Ficámos na plateia, onde pudemos ter uma boa visão do palco.


 

Isabel Medina, no texto de apoio que foi distribuído, explica ainda porque retirou o tio ao título da peça. Diz: Vânia interessa-me não pela relação familiar, daí ter-lhe retirado o tio nesta adaptação, mas porque apresenta uma paleta de personagens com quem nos podemos identificar facilmente, agora e sempre. São universais e espantosamente actuais. Porque a Tchekov lhe interessava o futuro do Homem, ele projecta-se para além do seu tempo, recorrendo muitas vezes, através do médico Astrov, ao leitmotiv: “Daqui a cem, duzentos, mil anos, o Homem será feliz?”


Tchekov, nas suas obras, pôs de parte a estrutura do teatro convencional, em que se definia claramente o enredo e os antagonismos entre os personagens, para focar sobretudo os conflitos íntimos, os medos e os desejos de cada personagem. Talvez devido à influência da sua profissão (ele era médico), procura mostrar os personagens como são na realidade, sem os julgar. Procurava fazer uma rigorosa selecção das situações e das emoções a mostrar ao leitor ou ao público, em vez de construir um argumento muito linear.


Sobre a obra de Tchekov há ainda a salientar o facto de que, para além de dramaturgo, construtor de microcosmos familiares, onde cada um de nós se poderá facilmente reconhecer aqui estou a citar novamente Isabel Medina), foi um contista enorme, faceta que talvez tenha aperfeiçoado ainda mais. A enorme influência que exerceu, e continua a exercer, reconhece-se por todo o lado.  É importante também recordar a época histórica em que viveu. O Tio Vânia foi apresentado em 1900. Entretanto a servidão na Rússia só tinha sido abolida em 1861. Se o avô não tivesse comprado a liberdade, Anton Tchekov teria nascido servo. O czar Alexandre II deu a liberdade aos camponeses, para eles não se revoltarem. Foi assassinado em 1881. Seguiu-se uma enorme vaga de repressão, sob a orientação directa do seu sucessor, Alexandre III, e de Pobedonostzev, seu tutor e representante da Igreja Ortodoxa, que visava anular as reformas introduzidas anteriormente. O anti-semitismo tornou-se uma arma do governo, para tornar os judeus o bode expiatório dos problemas que afectavam a Rússia, incluindo as grandes fomes que ocorreram na altura. Ocorreram os primeiros progroms no país cerca da época da vida em que Tchekov viveu.

 

Vão ver Vânia. Não perdem o vosso tempo. Vale a pena.

  

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