A MENTIRA É UMA VERDADE QUE NÃO QUIS ACONTECER – por Sérgio Madeira

Quem me conhece, sabe que prezo  a verdade e que, para além das barreiras morais que oponho à mentira, sou um mau mentiroso. Porém, também canto mal e esse pormenor não me impede de admirar Josep Carreras ou Placido Domingo. A mentira é a forma mais cómoda de navegar a vida. Problemas morais? Afinal, a mentira não é mais do que uma verdade que não quis ou se esqueceu de acontecer.

Entre os trabalhos que penso vir a escrever, está um a que chamarei talvez  Pequena dissertação sobre a aldrabice. Para esse trabalho, tenho feito uma recolha de aforismos sobre os mentirosos. O mais usado é “mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo”. É um disparate, pois se o aldrabão viajar de TGV e o coxo de trotineta,  sempre quero ver quem é que se apanha primeiro. A superioridade moral da verdade sobre a mentira, também tem o seu quê de fantasiosa – se o mentiroso for um político influente, as suas mentiras passam a ser verdade. As verdades que venham da massa amorfa são fruto da ignorância, da iliteracia – passam à condição de mentiras, demagogia, populismo…

Há também numerosas frases de escritores sobre os mentirosos: o Stephen King disse que “O infiel é tão perigoso como o mentiroso” – Ó Stephen, depende – se estivermos a falar de uma pequena infidelidade conjugal, comparada com o perigo de um mentiroso chegar a primeiro-ministro ou mesmo a vice … Um rabi disse coisa parecida – “O indivíduo infiel é tão perigoso como o mentiroso. Ambos são fracos, ingratos e constroem castelos sem alicerces». Esta por acaso é verdade – conheço um mestre de obras aldrabão e que usa aquele método de não meter armadura nos pilares. Umas pontas de ferro que vai puxando enquanto o cimento está fresco e que dão a quem vê (fiscais, engenheiros civis, etc) a ilusão de que os pilares vão ficar sólidos – não constrói castelos, mas moradias. Uma desabou e o engenheiro que assinou o projecto é que se tramou.

“As mentiras mais detestáveis são as que mais se aproximam da verdade”, disse o André Gide. Eu não acho – uma boa mentira tem de parecer mais verdadeira do que a verdade. Uma boa mentira, a bem dizer, é uma obra de arte. Sobre o assunto, a reflexão do Vergílio Ferreira dá que pensar – “Quando se apanha um mentiroso, ele pode perguntar-nos – e o que é verdade? E o mais provável é termos de o deixar seguir”. De facto, o que é a verdade? Luigi Pirandello explica tudo no título de uma famosa peça – “Para cada um sua verdade” – o que remete a fronteira entre a verdade e mentira para uma região crepuscular. E Almeida Garrett acrescenta mais uma possibilidade – “Falar verdade a mentir”, o que, de certo modo, é o inverso do aforismo “com a verdade me enganas”, que é como quem diz “mentir dizendo a verdade”.

Depois vêm os moralistas, como Sófocles – “A mentira nunca sobrevive até chegar a uma idade avançada”, O mentiroso é sempre pródigo de juramentos. ( Pierre Corneille ). Também alguém disse que “a mentira mais não é do que uma forma sofisticada da verdade” (retorcido, mas interessante). E as sem graça – “A mentira é como a bola de neve; quanto mais rola, tanto mais aumenta”. ( Martinho Lutero ) , Uma garrafa de vinho meio vazia também está meio cheia, mas uma meia mentira não será nunca uma meia verdade. ( Jean Cocteau ou outra ainda pior – “Nenhum mentiroso tem uma memória suficientemente boa para ser um mentiroso de êxito”, disse o Abraham Lincoln, o que é um rematado disparate – o que seria dos Estados Unidos sem a aldrabice? E depois há a afirmação do Joseph Goebbels: “Uma mentira muitas vezes repetida, torna-se verdade”. E esta alquimia verbal, transformando em ouro uma liga bastarda, foi a pedra angular de holocaustos e de inomináveis atentados contra a humanidade é mais inteligente do que a de Lincoln, mas também não tem graça. As mentiras dos políticos nunca têm graça. Mas quem pode vencer na política não sendo mentiroso?

Uma quase tão profunda como a do Vergílio Ferreira é a de Robert Louis Stevenson:As mentiras mais cruéis são ditas em silêncio. Graça tem a do Mark Twain – “Uma das notáveis diferenças entre o gato e a mentira é ter o gato apenas nove vidas” Enfim, podíamos estar aqui horas a desfiar frases sobre a mentira. Mas vou parar.

É uma decisão irrevogável.

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