O saudoso tempo do fascismo – 20 – por ´Hélder Costa

 

Guerra colonial III

 

No dia 1 de Abril de 1974 sou chamado à polícia para prestar declarações. Era a terceira vez, já tinha alguma experiência, e a malra dizia que não havia problema porque a polícia Francesa não colaborava com a Pide, era democrática, era outra coisa, era o que faltava …

 

Na noite anterior, tinha chegado um camarada particularmente activo, tão activo que tinha conquistado o título de Che, e que, como bom companheiro me acom-panhou à polícia, esperando no café em frente. Primeira pergunta: você conhece o Che?

 

– Conheço, Revolução Cubana, assassinado na Bolívia, fumava charutos …

 

Claro que a conversa foi perdendo o carácter afável do início, e o outro foi fazen-do papel de mau, com ameaças, indicando outros nomes que eu poderia conhecer, etc.

 

 Ao meio dia disseram para eu voltar depois de almoço. Em casa, à pressa, eu e o Che limpámos mais uma papelada.

 

Da parte da tarde, um senhor muito bem posto informou-me que havia muitos oposicionistas que trabalhavam secretamente para ele, que gostava que eu per-tencesse a esse clube, lá lhe respondi humildemente que eu também gostaria imen-so, mas como não tinha nada a ver com política … só gostava de teatro … o homem insistiu que era bom para mim, nunca mais tinha nenhum problema, depois per¬guntou-me se podia ir jantar a minha casa, respondi-lhe que jantava sempre fora mas que reria muito gosto com a sua companhia, acabou por perder a fleuma de Sherlok Holmes e exigiu-me que eu pedisse asilo político para eu estar sob controle. (E eu que tinha sempre desconfiado de tanta afectividade em relação aos fugitivos do fascismo português!).

 

Depois do 25 de Abril, abrindo a enorme pilha do meu processo na Pide, a primeira folha era um ofício da polícia Francesa relatando o meu interrogatório e garantindo que tinham a certeza que eu era dirigente do Comité dos Desertores, que a Pide podia ficar descansada que eles continuariam a trabalhar para me “tratar da saúde”.

 

Afinal, ó amarga desilusão, afinal a democrática polícia Francesa colaborava com a repugnante Pide! Mais uma machadada nas minhas democráticas convicções! É preciso dizer que essa acção de apoio ao desertor não se limitava a uma acrivi-dade solidária e assistencial. É evidente que esse trabalho fazia parte de uma acção mais vasta que consistia em recrutar e mobilizar novas forças para a luta contra o regime fascista.

 

E foram muitos os camaradas que voltaram para Portugal, com novos nomes e novas profissões, integrados na luta geral do povo português. Depois veio o 25 de Abril feito pelas forças armadas, o que não deixa de corrobo-rar a nossa convicção da impossibilidade de o fascismo cair sem luta armada. E se não houve lura armada, se foi suficiente a espingarda desarmada com um cravo a enfeitar o cano, é porque a luta ideológica e organizativa contra a guerra e contra o fascismo tinha criado o isolamento e o apodrecimento do regime.

 

 À semelhança dos velhos camaradas das Repúblicas de Coimbra oriundos das Colónias, também nós tínhamos cumprido o destino honroso da nossa geração, assumindo o carácter universal da independência dos povos, lutando contra a guer¬ra e auxiliando a derrubar o fascismo.

 

Quanto às armas que fomos juntando, felizmente nunca chegaram a ser utilizadas. Foi melhor assim, muito melhor para todos nós.

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