O ROMANTISMO SOCIAL PORTUGUÊS – VI – Antero de Quental. Por Sílvio Castro.

A exaltação da utopia enquanto fator de existência informa praticamente toda a vida de Antero de Quental. Com uma conclusão aparentemente contraditória, o suicídio, a procurada solitária morte no banco do jardim público de Ponte Delgada, em 11 de Setembro de 1891. O mesmo suicídio que aterrorizou o religioso João de Deus, mas que não o impediu de dedicar ao mais jovem amigo o belíssimo epitáfio, “No túmulo de Antero”:

“Aqui jaz pó: eu não; eu sou quem fui,

– Raio animado dessa Luz celeste,

À qual a morte as almas restitue,

Restituindo à terra o pó que as veste.”

João de Deus constituiu para Antero uma referência primordial. Ainda que aparentemente entre os dois poetas as distinções sejam claramente visíveis, assim aconteceu. O mesmo Antero capaz da mais profunda participação com o lirismo condicionado preferencialmente pela reflexão filosófica, o mesmo Antero que diante da complexidade dos fenômentos sociais procurava através da experiência direta e prática as possíveis soluções para os mesmos, percorrendo o mundo a procura de novas possibilidades do agir coerente, esse mesmo Antero é aquele que admira irrestritamente o poeta de Flores de Campo e que dele partira seja para a conquista lírica, seja para uma visão específica da mensagem do liberalismo.

O Antero que elege João de Deus como fator de modernidade é o jovem estudante, mas já poeta consagrado, que desecadeia a rebelião contra a anti-modernidade predominante em Portugal, rebelião sintetisada na chamada Questão Coimbrã, de 1865. Já então Antero de Quental se apresenta como exemplo de uma síntese rara de união entre poesia e política. Já desde então faz-se ver como verdadeiro lider social, condicionando toda uma geração de grandes intelectuais.

Os arrebates dos tons usados contra a hegemonia cultural de António Feliciano de Castilho está o mesmo Antero que mais adiante saberá conduzir mentes como as de Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Jaime Batalha Reis, Eça de Queirós e outras na participação civil com a difícil realidade portuguesa da segunda metade do século XIX.

A partir de então Antero de Quental como que se desdobra em dois: aquele que se debruça inteiro na complexidade da condição humana e aquele outro que procura soluções políticas de equilíbrio sob o difícil regime monárquico que apesar de tudo continua a guiar o país. Essa luta de equilíbrios aparentemente contraditórios fará com que os fundadores da ação organizada do socialismo em Portugal cheguem até mesmo a participar da política oficial do governo monárquico. Antero então se prodigaliza em manter a serenidade ativa dos seus companheiros, entre os quais surgiam as mais profundas discussões. A capacidade de levar a visão utópica de suas convicções às maiores consequências faz com que Antero possa mediar entre a praticidade comportamental civil de um Oliveira Martins e a irreverente, incontida ação de um Teófilo Braga, inimigo crônico do poder da monarquia e acertor infatigável dos ideais republicanos.

Antero de Quental então é a voz capaz do maior, quase inconcebível equilíbrio. O mesmo poeta que traduz os mais altos problemas da existencialidade individual sabe atingir o polo oposto da absoluta participação, quando a traduz liricamente em poemas como o “A um poeta”:

Surge et ambula!

Tu que dormes, espírito sereno,

Posto à sombra dos cedros seculares,

Como um levitã à sombra dos altares

Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,

Afugentou as larvas tumulares…

Para surgir do seio desses mares,

Um mundo novo espera só um aceno…

Escuta! é a grande voz das multidões!

São seus irmãos, que se erguem! são canções…

Mas de guerra… e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,

E dos raios de luz do sonho puro,

Sonhador, faze espada de combate!

Tudo isso como que tem um fim na tragicidade daquele 11 de Setembro de 1891. Um dia fatal para toda uma geração que praticamente encontra seu ponto conclusivo no episódio solitário banco de um jardim público de Ponta Delgada.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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