RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção, tradução e adaptação por Júlio Marques Mota

François Hollande, um caçador furtivo  contra o salário mínimo, por Laurent Maudit

 François Hollande

François Mitterrand tinha levado três anos para ser capaz de o negar. Em 1981 ela nacionalizava  e em 1984 regressava todo entusiasmado com a viagem que tinha feito aos Estados Unidos, à região de Sillicon Valley.

Isto foi antes  da aceleração do movimento das sociedades. Hollande,  injustamente apelidado de mole, levou apenas um pouco menos de  10 meses para refazer todo o longo percurso de Mitterrand: tendo partido  de “o meu inimigo é as finanças !”, rapidamente passou ao ataque ao salário mínimo .

É o título de um artigo publicado por Mediapart hoje: “o salário mínimo em perigo de morte!”.

Este longo trabalho de Laurent Maudit (acesso pago), muito bem documentado, mostra que na  comitiva de Hollande  há muitos   economistas que defendem  uma  pulverização  do salário mínimo. O salário mínimo poderia ser adaptado por idade ou por região.

Esta orientação é contradita por uma recente publicação do OFCE, que indica que o nível do salário mínimo tem muito pouca ligação com o  desemprego.

Hollande é extremamente rápido a levar à prática  uma política sado-masoquista. Como no campo europeu, ou mesmo noutros outros, Hollande trabalha de uma forma  inteligente, de viés, por pequenos passos – um tipo de caça furtiva, o famoso Stealth. A prova  é apresentada em dez meses em que muitos saltos  para o lado  acabam, possivelmente, por o levarem  suficientemente  longe.

Só há uma desculpa  possível para   Hollande , em matéria de  salário mínimo, é que ele não faz mais do que aplicar as  directrizes europeias. De acordo com o relatório publicado por Laurent Mauduit:

“A Comissão Europeia tem recordado desde Abril de 2012 que os mínimos  salariais  diferenciados de acordo com os grupos de população ou regiões, já em vigor em  vários Estados-Membros, poderiam  ser uma forma eficaz de preservar a procura de  trabalho.” (que piada, aliás!)

A Comissão ainda se atribuiu a si-mesma  a possibilidade  de controlar os salários dos países membros:

“Em 2012 entrou em vigor um novo procedimento europeu  de supervisão macroeconómica, visando identificar a montante a formação de desequilíbrios macroeconómicos nos Estados-membros (procedimento de desequilíbrios macroeconómicos).” Este procedimento baseia-se numa  matriz de monitorização que compreende dez indicadores macroeconómicos fundamentais, incluindo os custos salariais unitários  nominais do  trabalho que relacionam o custo horário nominal do trabalho à produtividade horária para o conjunto de toda a economia. Este indicador  é considerado equilibrado se a evolução nos últimos três anos for  menor que + 9% (para os países da zona euro enquanto que para os países da UE que estão fora da zona euro, o limiar é + 12%). A análise do painel de indicadores , acompanhado de uma análise económica, pode levar a dois tipos de procedimentos (“preventivos” ou “correctivos”), conforme a gravidade dos desequilíbrios.”

Não vamos aqui entrar  nos detalhes dos argumentos propriamente  económicos . Os especialistas de Hollande  negligenciam no entanto um ponto: a ausência de crescimento actual é um mecanismo endógeno, ligado ao euro. Compensar a incapacidade de desvalorizar a moeda francesa por uma baixa dos  salários, como eles na verdade defendem, é uma espiral suicida. Não se deve, portanto, conferir  qualquer credibilidade aos peritos “económicos” que não dão prioridade ao problema do euro na análise da situação actual.

A propósito do papel dos especialistas, Paul Krugman comparou a previsão de crescimento de 2009-2011 dos países europeus com a previsão que tinha sido  feita pela OCDE.

 Krugman - 5

Excepto para a Alemanha os “peritos”   enganaram-se e de forma bem espectacular  sobre o crescimento dos países europeus, por superestimação. Quando, portanto,  os especialistas, da mesma orientação neoclássica, dita neoliberal, da mais puríssima  como são os redactores do relatório analisado pelos jornalistas de Mediapart,  nos explicam a todos nós   que hoje o  caminho da cura passa pela  luta contra o salário mínimo, temamos …

Último ponto: tecnicamente, os especialistas solicitados por Hollande  estão certos, se aceitarmos a ideia de que o euro é inevitável [e nestas mesmas condições ] .

Num  sistema de taxas de câmbio fixas, como é a situação no euro, todos os Estados com uma inflação superior à da  economia dominante, aqui a Alemanha, estão condenados a perder irredutivelmente a sua competitividade (eles já não podem desvalorizar). A  única solução é, portanto,  uma descida dos salários.

Com o enorme risco que a economia global comece a antecipar a descida correspondente do poder de compra entrando  assim numa espiral deflacionista  que irá piorar o problema em vez de o  resolver (a solução Frente de  Gauche de  Larrouturou consiste em imaginar que os países ganhadores no sistema de taxas de câmbio fixas, a Alemanha em especial, aceitará ad vitam aeternam compensar a perda de receitas e o dinamismo dos países de inflação mais elevada. É absolutamente ilusório e o preço político a pagar seria um cenário de colocação destes países sob tutela humilhante e inaceitável). O euro é, portanto, um impasse que necessariamente leva a orientações políticas altamente recessivas.

Se o euro se pereniza   este será  então construído sobre uma política cínica de que Hollande mostra todos os dias que está à sua  altura: ele não  perde de vista o  seu objectivo final, que parece ser a integração da França num Estado europeu centralizado. Ao mesmo tempo trabalha  no maior dos silêncios  quanto aos  custos, aos riscos, aos objectivos, desta orientação socialmente onerosa. Perfeitamente em uníssono com  todos os nacionalistas europeus.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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