RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Europa: depois das eleições italianas,  será que já se acabou com a “germanofobia ” ?

Texto disponibilizado por Philippe Murer, Membre du bureau du Forum Démocratique

Président de l’association Manifeste pour un Débat sur le libre échange  – 2 Março de  2013 – Título original : Europe: après les élections italiennes, en a-t-on fini avec « la germanophobie » 

sem nomeDepois da Grécia, parece que chegou agora a vez da Itália experimentar os horrores da instabilidade política, depois de já estar a sofrer aos horrores da austeridade. À saída das eleições que acabam de ter lugar, não se sabe se será possível, no actual estado das forças em presença,   governar o país. Especialmente, o pálido Mario Monti, incarnação  semi-viva da   ortodoxia orçamental e da depressão invernosa , acaba de  sofrer  o que parece estar a ser considerado como uma perda monumental (apenas 10% dos votos).

No entanto, a decepção do “ professor”   muito compatível com Berlim  ” no final de uma campanha fortemente matizada  “de campanha anti-Merkel “, não arrastou os altos gritos que se esperavam  quanto ao anti-germanismo  suposto do povo   italiano. No máximo são os media franceses que se comoveram pelo apetite “populista” dos  vizinhos transalpinos.

Mas no que é que se transforma a “germanofobia” ?

Quando se trata de escamotear uma dificuldade utiliza-se prontamente o  “ponto Godwin[1]”  e as suas mil declinações. Entre as múltiplas variantes do ‘Godwin’ e a longa lista de palavras terminadas em “fobia” à sua disposição, aqueles que desejam a todo o custo evitar o debate sobre a decadência actual da construção europeia justificam os resultados pelo clima de germanofobia instalado.

Assim, até muito  recentemente, os incautos que se atreviam  a questionar um alinhamento sistemático sobre a política económica  imposta por Angela Merkel e pela coligação conservadora no poder em Berlim,  eram  condecorados com a Grande Cruz da Ordem Nacional da Germanofobia. Tão certo ser assim como os adversários dos tratados de Maastricht e de Lisboa terem sido apelidados de “nacionalistas”.

Lembremo-nos, por exemplo, da controvérsia que havia abalado estas paragens  em Dezembro de 2011, depois de Arnaud Montebourg    ter  comparado a Chanceler alemã  a  Bismarck. Por uma estranha série de equações que levaram, contra toda a lógica, a suspeitar de sub-nazi  qualquer pessoa que tenha a ideia  maluca de  criticar Berlim, o actual ministro era então suspeito de impulsos “dignos da extrema-direita”.

Seguiu-se depois uma bateria de acusações assustadoras sobre ‘ os sentimentos’ e a ‘febre anti-germânica’  instalada na classe política, supostamente a dizerem-nos que isso não era nada bom. Sem que ninguém consinta a simples objecção de que a crítica feita a  Angela Merkel era a crítica de uma política  e não   contra  um país ou contra um povo.  Criticar Sarkozy que, na época governava a França, era então apelidado de  “francofobia”?

No entanto, se quisermos considerar como  normal que Berlim conduza   uma política coerente com as suas próprias necessidades, deve-se obrigatoriamente deduzir  que o que é bom para a Alemanha é bom  para toda a Europa? Porque, se é legítimo que ela defenda, porque assim o exige a sua economia, uma moeda forte e uma rigorosa ortodoxia orçamental, não é necessariamente saudável, por outro lado, que os seus vizinhos e parceiros renunciem pela sua parte a defender o que quer que seja  que assim entendam defender …

Esta ideia  faz agora o seu caminho, e o debate parece desbloquear-se pouco a pouco. Terá sido necessário alguns avanços “ditos populistas”, do muito à esquerda  Syriza na Grécia ao movimento 5 Estrelas s na Itália, para que os comentadores  autorizados mudem os seus  arrogantes  processos em “germanofobia”  contra uma análise mais sóbria  da  ” cólera anti-rigor”.  O próprio jornal Le Monde, geralmente pouco suspeito de eurocepticismo, publicava  hoje mesmo uma crónica  toda ela cheia de dúvidas intitulada  ” sonho alemão,  pesadelo europeu”.

O “diário de referência”  autoriza-se a si-mesmo em ter dúvidas e, assim, pode-se pois   esperar que a partir de agora  seja   permitido observar que as economias europeias divergem   cada vez mais entre si ? Que a Alemanha e a França, a Itália e a Holanda, a Espanha e o Luxemburgo não são os  mesmos países?  Que as suas estruturas económicas não são idênticas  e que as suas  necessidades não são elas as  mesmas?

Será que se pode, finalmente, pôr-se em dúvida  a regra de ouro orçamental  ou do euro sobre-avaliado  o que é muito querido à direita sem arriscar mais do que uma vaga acusação  “de austerifobia “?

Título original – Europe : après les élections italiennes, en a-t-on fini avec « la germanophobie » ?

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[1] A lei de Godwin  provém de uma declaração feita em 1990 por Mike Godwin e relativa à  rede Usenet e popularizada depois  na Internet: ” quanto mais tempo dura uma discussão online, mais  a probabilidade de se encontrar uma comparação envolvendo os nazis ou  Adolf Hitler se  aproxima do valor 1.” Num debate, atingir o ponto de Godwin significa ao  interlocutor de que este acaba de se desacreditar, verificando-se a lei de Godwin.

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