RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

mapa itália

Itália: o Dragão e o grilo

Marc Chandler

Parte II

(continuação)

Grillo lidera um movimento, e estará provavelmente tão surpreendido  como qualquer outro cidadão com o resultado eleitoral. Assim como a natureza abomina o vácuo, assim é também em  política, e como o movimento M5S  se mudou  para a situação de vácuo criado por quatro separados desenvolvimentos, sabendo-se mesmo que estes podem estar entre si  relacionados. Em primeiro lugar, a nível europeu, parece haver uma falta de liderança daqueles dirigentes como o presidente francês, François Hollande,   para articular uma visão prática da UEM que  não seja dominada pelos interesses [imediatos] dos credores  . Em segundo lugar, no interior da Itália, a coligação  de centro-esquerda (PD) não oferece nenhuma  alternativa ao programa de austeridade que tem sido aplicado por  Monti. Terceiro, nenhum grupo fala do elevado nível de desemprego entre os jovens de formação universitária. Quarto, não há localmente nenhuma expressão política do tipo do Movimento Ocupar, do Partido Pirata na Alemanha  ou mesmo de um movimento não-marxista virados para as questões da ecologia.

A questão chave é se Grillo pode formar um partido fora do movimento.  Apesar dos sucessos iniciais, o partido pirata Alemão parece estar a implodir  com os membros a querem poupar  as suas mais vis  recriminações para as atirarem uns aos outros  em vez de o fazerem para com os seus   adversários.   O movimento Ocupar não se cristalizou  num Partido.  O Tea Party tem sido um dos  mais bem sucedidos, talvez até porque seja essencialmente uma facção dentro de um Partido  e a sua história ainda há-de ter outros mais desenvolvimentos , embora deva ser reconhecido que o seu pico de importância já foi alcançado e isto  em termos de influenciar o curso dos acontecimentos, em termos da agenda política.

Berlusconi parecia estar a fazer   campanha contra a Alemanha e Merkel, quem ele acusava de o terem posto fora do Governo, no final de 2011.  Grillo, por outro lado, parecia mais estar a fazer uma campanha contra a Europa.  Enquanto os dois podem parecer semelhantes, a linha de ataque de Grillo é mais ampla e mais profunda.  A retórica de Grillo deu expressão a um antagonismo poderoso contra as elites  italianas.  Apesar de Berlusconi não ser nada apreciado pelas elites italianas, ele  faz parte delas.  Estas são o alvo de escárnio dos Grillinis.

O programa M5S baralha e desfoca o espectro político.  Embora Grillo tenha  64 anos, ele articula com êxito a angústia das   gentes cultas e jovens  mas subempregadas ou desempregadas, ou seja os jovens licenciados.  Um estudo sobre os Grillinis  diz-nos que  46% vêm da esquerda e 39% da direita.  Eles estão a herdar  uma economia que apresenta um  crescimento insuficiente, mesmo no melhor dos seus  tempos, um fardo de dívida pública  elevado e uma cultura política de corrupção, mesmo depois do  movimentação As  mãos limpas e da eliminação de alguma da anterior elite política .

Podemos reconhecer Abenomics como um  estímulo monetário e fiscal sobre os  esteróides, mas Grillonomics é um caleidoscópio de ideias que deve ser visto  mais como um conjunto de slogans em movimento do que como  as bases de um programa em que assenta a existência  de um  partido. Na verdade, como o M5S se está a  transformar  e se está a tornar   mais programático e específico,  à medida que o está a fazer estará igualmente a ficar  menos coeso. Para sua própria surpresa, os M5S também poderão  achar que a política  permite que se venham a ter  estranhos companheiros de cama.

Em nome da  anti-burocracia e para reduzir a arena de corrupção pública  Grillo apelou para a máxima  desregulação e para que se promovam   as privatizações em larga escala  e adicionalmente que se reduza  massivamente o  número de funcionários públicos. Grillo  quer acabar com o monopólio estatal sobre os caminhos de ferro. Isto mostra que há muito em comum com a direita pura e dura. A tensão xenófoba  e  as duras posições   contra  os migrantes na Itália mostram evidentemente que também aqui se está no  terreno da direita pura e dura.

Noutros  aspectos, Grillo está mais  à esquerda do que o PD. Ele quer que o Estado  passe a dar  1000 € por mês a cada cidadão.  Grillo tem defendido que os salários dos gestores de topo estejam indexados ao salário médio  pago aos trabalhadores  e que se deixem  os bancos e os monopólios industriais cair ou então que sejam nacionalizados. O M5S fala mais para aqueles que estão a trabalhar do que para aqueles que já trabalharam.

As propostas de Grillo incluem o desejo de se ter  uma  ligação mais estreita das  universidades  aos negócios e o de querer  aumentar  os encargos com a  saúde, mas também  um desejo de reescrever o contrato social. O perigo é que as mudanças que ele pretende   podem  enfraquecer a sua própria base  eleitoral. Por exemplo, a renegociação da dívida da Itália aparece como uma ideia que soa bem ao ouvido, a de  querer aliviar o peso para a próxima geração ou para mesmo para aquela, jovem,  que já existe. No entanto, 60% da dívida da Itália é de propriedade nacional. A reestruturação da dívida iria prejudicar muitos pensionistas italianos, iria atingir a poupança das famílias e iria provocar uma crise financeira, não apenas na Itália, mas em toda a Europa. As consequências económicas seriam graves.

Não está claro como é que o M5S e os seus apoiantes constituintes beneficiariam  em sair da União Monetária, o que é uma  ameaça de Grillo.  O resultado seria fazer com que a actual recessão venha a parecer comparativamente como desejável.  Qualquer ganho em termos de competitividade  conseguido através de uma nova  e desvalorizada lira  iria ser  neutralizado  com o que provavelmente seria um aumento acentuado nas taxas de juros e com os resultados de uma crise financeira.  Além disso e muito importante, fora da UEM, a  necessidade de reformas estruturais torna-se  ainda mesmo mais urgente.

Na verdade, segundo a mais recente sondagem  ISOP    cerca de  74% dos  italianos são a  favor da manutenção do euro  com apenas 16%  a quererem regressar à  lira.  Também mais de  dois terços dos italianos não são a  favor de um referendo sobre o referendo sobre a EMU, ou seja, ficam apenas cerca de um terço de italianos, na verdade um pouco menos, a  querer um  referendo.

O Banco Mundial classifica a Itália  a meio do ranking mundial nas  suas avaliações   feitas  no quadro do programa Doing Business evaluations,   o  que é um valor  bastante pobre para um país de altos rendimentos.  De notar que  a Itália, atinge o valor 160 na classificação   sobre a  execução de contratos, 131 no pagamento de impostos, 107 quanto a custos de  electricidade e 103 em tratar  com as licenças de construção.

Na  recente reunião do BCE, Draghi não mostrou nenhuma urgência para tomar medidas adicionais de modo a  tornar mais fácil o  suportar  da recessão económica ou apontar no sentido de um aperto  nas condições financeiras, que seriam vistas na contracção de empréstimos para o sector privado e na redução do crescimento da oferta de moeda.  Enquanto dispostos  a contrariar as ameaças  contra a própria  MEU  o BCE  tem sido  bastante tolerante com as forças de mercado que pressionem   os governos a fazer a “coisa certa”.

O programa Outright Market Transaction do BCE não tem nenhuma relevância, nas circunstâncias actuais, para a Itália. Lembremo-nos de que as condições prévias exigem um acordo programático com a UE.  A Itália está longe disso. Há porém muitos que reconhecem que  a Espanha   está  ainda bem mais perto , embora os títulos espanhóis   tenham  beneficiado com a incerteza política na Itália.

(continua)

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