PORQUE É QUE CHÁVEZ PÕE TODA A GENTE LOUCA, de GAËL BRUSTIER

Selecção, tradução e nota de introdução por Júlio Marques Mota

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Porque é que Chávez põe toda a gente louca

Gaël Brustier

http://blogs.rue89.com/chez-gael-brustier/2013/03/25/pourquoi-chavez-rend-tout-le-monde-hysterique-229950

PARTE III
(CONCLUSÃO)

……

“Vermelho no vermelho”

Em Caracas, a polarização geográfica e política é extrema. Para o leste, na parte alta da cidade, detesta-se Chávez, mobilizam-se massivamente contra ele durante as manifestações, praça de Altamira ou nas ruas de Chacao e Baruta. Para o oeste, nos “barrios”, o apoio está em crescendo. Sobre estas colinas, povoadas pelos mais pobres, de um urbanismo totalmente anárquico, Chávez acaba por ser adulado.

Escolas e clínicas, super-mercados “Mercal” irão surgir ao longo dos anos e para oferecer a esta população, outrora abandonada, o que nunca lhe tinha sido oferecido.

Entrado em conflito com uma grande parte das administrações colonizadas pelos partidos Copei ou AD, Chávez desenvolve políticas extra-estatais: as “missões”.

Entre 2003 e 2004, as consultas médicas são multiplicados por cinco. Em 2007, cerca de 7.000 dispensários foram construídos em todo o país. O número de médicos passa de 1 300 no país para cerca de 15.000. Em 2005, 17 milhões de pessoas têm acesso à medicina contra 3,5 milhões anteriormente.

Chávez mobiliza multidões. O seu estilo desarma muitos observadores estrangeiros. Desde os “barrios”, os “chavistas” desfraldam e fazem grandes manifestações. Francamente, nada disto se parece com uma reunião do MoDem em Rambouillet … Na Venezuela, naqueles dias tudo é “rojo rojito”, “vermelho no vermelho.” Isto é devido a uma muito forte polarização.

Chávez fala ao ‘povo’ ao mesmo tempo que ele critica duramente os oligarcas e os «escualidos», estes filhos de papá que foram para as barricadas no Inverno de 2003, armados com tacos de golfe. Os «escualidos» odeiam Chavez, este ‘macaco’, que incarna tudo o que eles nunca quiseram ver no país: a mestiçagem, a pobreza, o seu radicalismo político…

Discurso sincrético

Chávez tem um discurso sincrético. Ele invoca, obviamente, Bolívar, ressuscita as lutas dos federalistas de Zamora contra os conservadores durante a guerra civil de 1859-1863. Uma canção, o hino dos chavistas, ‘oligarcas tremam!’ é herdada directamente desta história e lembra a luta de Zamora contra os grandes proprietários.

Chávez transporta do socialismo autogestionário venezuelano um grande número de referências. Ele rodeia-se de defensores e advogados de direitos humanos que lutaram contra o antigo regime, entre os quais e na primeira fila está José Vicente Rangel, durante um certo tempo seu vice-presidente.

Chávez  captou a retórica da teologia da libertação, num país onde a crença  é generalizada, mas onde o clero católico não brilha (como durante o putsch de 2002) pelo seu progressismo. Mas a sua invocação de Jesus (clássico na América latina ) pode ser acompanhada da de Popol Vuh, o livro sagrado dos Maias. Um pouco como na França da Terceira República onde Vercingetorix e o bom rei Dagobert foram referências…

Chávez  defende o fim da luta armada na América Latina. O poder deve estar no boletim de voto. Chavez compreende isso e compreende que o dinheiro do petróleo venezuelano pode ser valioso para outros movimentos de esquerda na América do Sul.

Um sistema eleitoral eficaz

O que também é verdade é que Chávez aumentou significativamente a participação cívica. Em 1993, a Venezuela contava cerca de 21 milhões de pessoas. Caldeira foi então eleito Presidente com 1,7 milhões de votos. Em 2012, a Venezuela tinha 29 milhões de habitantes. Chávez foi reeleito com 8,2 milhões de votos. Em 1998, a participação para a sua primeira eleição não excedeu 54%. Em 2012, é 80%. A Fundação Carter considera o sistema eleitoral venezuelano como um das mais eficientes do mundo.

Os chavistas compreenderam desde muito cedo que toda a flutuação na organização das eleições iria ser explorada. Eles estabelecem um sistema que é inquestionável até mesmo para os olhos da oposição.

Como o sublinha Jonathan Eastwood num livro que é uma obra de referência sobre a Venezuela de Chavez, há uma “tensão entre a redução das desigualdades, da pobreza, do desenvolvimento sustentável e uma economia baseada no petróleo”.

Além disso, e para além da tensão anterior há também uma tensão entre “participação (cívica) e clientelismo”. A Venezuela não rompeu num só dia com práticas comuns desde há décadas.

E, por fim, existe uma tensão entre a democracia participativa e um centralismo autoritário. Chavez, pelo poder carismático que exerceu, tem sido muitas vezes uma instância de recurso num país onde, se existe,  a democracia participativa, ainda não está “rotinada”. A figura de Chavez, o seu carisma, cresceu, é verdade, até uma “personalização” do poder…

Uma batalha em torno da identidade da esquerda

No final desta pequena viagem na história de um país e no mundo das representações que animam a França a seu respeito, torna-se óbvio que nada é realmente tão simples quanto as representações que podem ser feitas o possam fazer crer.

Desde então, porque é que toda a gente em França se tornou histérica sobre este tema? Certamente porque a experiência de Chávez foi a primeira experiência governamental, que se reclamava de esquerda (radical) na era da globalização.

A leitura política sobre Chávez , ainda mais do que a que pode ser feita em torno de fóruns como o de Porto Alegre, é que esta se tornou uma das principais questões políticas. Trata-se de uma batalha em torno da identidade da esquerda…

Além disso, Chávez, mestiço, porta-voz dos mais pobres no seu país, terá certamente perturbado muito e muita gente pela sua capacidade de falar ao mundo. Não terá sido tanto a sua diplomacia que terá então incomodado mas sim o facto de que ele tinha uma …

Ele recebeu Mugabe ou Lukashenko como Sarkozy recebeu Kadhafi, como todos os nossos presidentes receberam Omar Bongo, como tantos e tantos Presidentes do Norte receberam ditadores ou autocratas. Será necessário desculpar esta política? Não. Mas ela não se resume a isso.

Sobretudo denunciá-la não deve servir de meio e de defesa para outros fins, obviamente menos dignos. Há onze anos atrás, muito pouca gente denunciou o golpe de Carmona, como também o mundo pouco fez há já um quarto de século, que pouco ligou ao caso de Caracazo.

GAËL BRUSTIER, Analyse politique et combat culturel. Pourquoi Chavez rend tout le monde fou, texto disponível em Mediapart entre outros sites e cujo endereço é:

http://blogs.rue89.com/chez-gael-brustier/2013/03/25/pourquoi-chavez-rend-tout-le-monde-hysterique-229950

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