José Estaline (Иосиф Виссарионович Сталин) – 6 – – por Carlos Loures

(Conclusão)

A “guerra” com Trotsky

Imagem1Em paralelo com a guerra civil, Estaline travava a sua primeira grande guerra no interior do partido – duas maneiras diferentes de conceber a luta pelo socialismo e também uma quesília pessoal – quem iria ser o herdeiro, o sucessor de Lenine? Em Janeiro de 1921, Estaline opôs-se ao projecto de Trotsky de tansferir a metodologia, a estrutura, a disciplina militar para os sindicatos e para a classe operária. Ganhou este primeiro round e, no X Congresso dos Sovietes, foi eleito secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética.

Em Janeiro de de 1923, Lenine que havia sofrido já um primeiro ataque de apoplexia, acrescentou algumas notas ao seu testamento político. Os médicos proibiram-no de estar presente no XII Congresso. Nessas notas recomendava a destituição de Estaline, preocupado com a previsível divisão no interior do partido: «O camarada Estaline, ao transformar-se em secretário-geral, concentrou nas suas mãos um poder enorme e não tenho a certeza de que consiga utilizar sempre esse poder com a prudência suficiente…». E dizia noutra nota: «Estaline é demasiado grosseiro e este defeito, perfeitamente tolerável entre nós e nas nossas relações como comunistas, é inaceitável no lugar de secretário-geral. Assim, proponho aos camaradas que encontrem maneira de afastar Estaline do seu cargo e de nomear outro homem que seja em todos os sentidos o oposto de Estaline; isto é, mais tolerante, mais leal, mais educado e mais respeitoso para com os camaradas…». A causa próxima para esta nota terá sido a maneira brusca como Estaline, alguns dias antes, terá repreendido publicamente Krupskaia, esposa de Lenine. Lenine enviara um memorando a Estaline exigindo-lhe que apresente desculpas também públicas a Krupskaia – o que Estaline se apressou a fazer.

Assim, quando em 21 de Janeiro de 1924, Lenine morreu, as relações entre ambos eram praticamente de ruptura. No dia 24, Estaline jurou cumprir as determinações do «testamento» político de Lenine, mas desconhecia o seu conteúdo. Quando, perante o plenário do Comité Central o documento foi lido, Estaline, surpreendido, anunciou a sua demissão. Mas os delegados pediram-lhe que permanecesse no seu posto. As recomendções de Lenine foram sendo esquecidas e em Dezembro desse ano, depois de ter rebatido a concepção de Trotsky da “Revolução permanente”, defendeu a tese da possibilidade da vitória do socialismo num só país. Foi aprovada a nova constituição que cria a URSS, o tal texto que Louis Aragon, com exceso de fervor revolucionário, considerou obra literariamente superior à de Shakespeare, Rimbaud…

Em 1925 Trotsky demitiu-se de todos os seus cargos. Estaline aliou-se a Bukarine e a Tomsky contra a facção trotquista que, com razão, se reivindicava como herdeira da herança leninista. Porém, Estaline refazia a verdade e combatia os adversários com determinação e vigor -no seu texto Fundamentos do Leninismo denunciou publicamente a oposição criada por Zinoniev e, sobretudo, por Trotsky. Perante o plenário do Comité executivo do Komintern, combateu-a colocando-a sob o estigma da traição, como um germe de um novo partido que iria sabotar a unidade existente no seio do PCUS. Sem dar tempo aos adversários para respirar, denunciou logo depois a plataforma constituída pela oposição. Trotsky e Zinoniev foram expulsos do Partido e em Janeiro de 1928 Trotsky foi deportado para Alma-Alta.

Leon Trotsky

No entanto, até ao extermínio total dos opositores, Estaline não iria parar. Em Dezembro abriu a caça ao grupo de Bukarine. E, Novembro de 1929, Bukarine, Rykov e Trotsky reconhecem publicamente as suas “opiniões erradas. Trotsky foi expulso da União Soviética.

Por esta altura, Yacob, um filho de que Estaline nunca gostou, fez uma tentative frustrada de suicídio. O pai terá comentado: “Ora! Bem podia ter disparado com melhor pontaria!”.

Em Outubro de 1932, Estaline exigiu a condenação e a execução de um opositor – Ryutin.

Em Novembro desse ano, durante o banquete comemorativo do 15º aniversário da Revolução, perante dignitários do Partido, Estaline dirigiu-se com tal rudeza a Nadja que ela, envergonhada, humilhada e deprimida, saiu da sala. Nessa noite, pôs fim à vida com um tiro de revólver. Na análise que Estaline fez a este suicídio, fixou bem patente a sua peculiar (e patológica) maneira de encarar a realidade – nunca estabeleceu uma relação de causa-efeito entre o enxovalho a que submeteu Nadja. Considerava-a a sua “amiga mais íntima e leal” – o que significava que teria de aceitar todas as ofensas como manifestações de interesse – afirmou-o: aquele suicídio afigurava-se-lhe uma traição. Ninguém podia abandonar a cena sem sua autorização. E, agastado, nem sequer foi ao funeral da esposa. Contudo, durante muito tempo iria falar obsessivamente de Nadja, acusando-a sempre de o ter abandonado.

Em Abril de 1933, começou uma das mais violentas purgas do período estalinista – a depuração levada a cabo nas altas instãncias do Partido e dos sindicatos. Em Dezembro, Serguei Kirov foi assassinado e desencadeiam-se as purgas de Leninegrado e de Moscovo. Em 1935 desenrolou-se o processo contra Zinoniev, Kamenev e mais 17 “cumplices”. Em 1936, nova vaga na depuração, baseada no controlo e “renovação” dos documentos do Partido . Em Agosto, o terror prosseguiu com o “primeiro processo de Moscovo”: Zinoniev, Kamenev e os “cúmplices” foram condenados á morte e executados. Tomsky suicidou-se. Em 1937 foi aberto o segundo processo de Moscovo – os alvos eram agora Pyatakov, Radek e outros. Em Fevereiro Ordjonikidze suicidou-se. Em Junho foi a vez de altos cargos do Exército. Grande número de marechais e generais foram fuzilados. Discordar de Estaline era considerado alta-traição. Só um cérebro tinha direito a funcionar entre os mais de 200 milhões de soviéticos- o de José Estaline.

Em 1938 foi assinado o famoso Acordo de Munique. Procurando não entrar em rota de colisão com Hitler, as potências europeias, incluindo a União Soviética, abandonam a Checoslováquia à sua sorte, permitindo a sua invasão pelas tropas nazis. Em Março teve início o terceiro processo de Moscovo – os ex-aliados de Estaline, Bukarine e Rykov, entre outros, foram executados sob a acusação de pertencerem ao «bloco direitista e trotsquista». Trotsky viria a ser assassinado em 1940, no seu exílio no México. A primeira fase da limpeza estava concluída. A velha geração de revolucionários, a incómoda intelligentsia,estavam liquidada. No Partido, nos sindicatos, nas forças armadas, os «percevejos» tinham sido eliminados. Tinham ficado os elementos «absolutamente leais e necessários».

No dia 6 de Junho de 1944, teve início o desembarque aliado na costa da Normandia. Em Dezembro, Estaline assinou com De Gaulle um pacto de ajuda franco-soviético. Sobre Estaline dirá De Gaulle nas suas Memórias de Guerra (1944): «Unificar os Eslavos, aniquilar os Germânicos, expandir-se pela Ásia: eis os sonhos da pátria, os objectivos do ditador. Eram duas condições as prévias para o conseguir: modernizar o país e transformá-lo numa grande potência, isto é, numa potência industrial, saindo vencedor no caso de uma guerra mundial. A primeira condição estava já cumprida, embora com custos muito elevados em sofrimentos e perda de vidas humanas. Quando o conheci, estava prestes a cumprir a segunda condição, no meio de um cenário de túmulos e ruínas. Para sorte dele, tinha um povo tão cheio de vida e tão paciente, quem nem a mais dura servidão conseguia paralisar; um país tão farto em riquezas do subsolo que nem o mais extremo esbanjamento conseguia esgotar; alguns aliados sem os quais não teria vencido o inimigo, nem eles o teriam feito sem a sua ajuda».Entre 4 e 11 de Fevereiro, realiza-se a Conferência de Ialta, na qual Estaline propõe a divisão da Alemanha. Ainda segundo De Gaulle nas suas Memórias de Guerra, Churchill terá dito sobre a Rússia e sobre Estaline: «No que se refere à Rússia, é um animal desajeitado e faminto desde há tempos. Hoje não o podemos impedir de comer, principalmente se tivermos em conta que é uma das vítimas mais afectadas. O que é preciso é que não coma tudo. Eu esforço-me por conter Estaline que, apesar do seu apetite voraz, não é um homem destituído de realismo».

Nos últimos anos, Estaline transformou-se num velho ao qual começavam a faltar as forças. Encontrava-se totalmente isolado num oceano de adulação e intriga. Estava prisioneiro do seu terrível e imenso poder. Levava, portanto, uma existência solitária. A sua residência habitual era a datcha de Kuntsevo, perto de Moscovo. Apenas se sentia bem, passeando nos sombrios pinhais e na floresta de abetos prateados que rodeiam Kuntsevo. no Verão gostava de trabalhar no jardim. No Inverno sentava-se a uma secretária junto de uma janela e ali resolvia os seus assuntos, recebendo membros do Governo, oficiais e funcionários. Ia já muito pouco ao seu gabinete no Kremlin. Às vezes convidava velhos camaradas para jantar. Eram refeições de trabalho em que se discutiam assuntos políticos e se tomavam importantes decisões. Foi assim naquele jantar, em 28 de Fevereiro de 1953. Nesse sábado, Malenkov, Béria, Bulganine e Kruchtchev foram jantar a Kuntsevo. Estaline esteve sempre de bom humor.

Depois, parecendo fatigado, despediu-se dos convidados e subiu ao seu quarto.

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