DUAS PSICÓLOGAS RECEBEM PRÉMIOS LITERÁRIOS – O NOSSO PASSADO COLONIALISTA A MARCAR – por Clara Castilho

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As psicólogas andam activas no mundo literário. Duas foram premiadas recentemente.

Gabriela Ruivo Trindade, de 43 anos vai receber 100 mil euros e ver a sua obra editada, ‘Uma Outra Voz’ por ter vencido o Prémio LeYa de 2013. Está desempregada, vive em Londres. Entre 491 originais de 14 países foi a escolhida

Criado em 2008, o Prémio LeYa tem como objectivo distinguir anualmente um romance inédito escrito em português. A Leya recebeu este ano 491 originais de 14 países. Fizeram parte do júri: Manuel Alegre, Nuno Júdice, Pepetela e José Castello, o professor da Universidade de Coimbra José Carlos Seabra Pereira, Rita Chaves, professora da Universidade de São Paulo, e o reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário de Maputo, Lourenço do Rosário. 

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De acordo com as regras do concurso, os inéditos são analisados sem que o júri conheça os autores. Só depois de a obra vencedora estar escolhida é que se abrem os envelopes que identificam a identidade dos escritores.

Em 2008, o prémio foi atribuído ao livro O Rastro do Jaguar, do jornalista e ficcionista brasileiro Murilo Carvalho. No ano seguinte venceu o escritor e historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho, com o romance O Olho de Hertzog, e em 2010 o júri decidiu não atribuir o prémio, entendendo que nenhum dos originais recebidos tinha qualidade para o receber. Nos últimos dois anos, o Prémio Leya ficou em Portugal: em 2011 recebeu-o João Ricardo Pedro, com O Teu Rosto Será o Último, e ano passado foi a vez de Nuno Camarneiro, com o romanceDebaixo de Algum Céu.

Uma outra professora, Ana Cristina Silva, docente do ISPA, recebeu o prémio Urbano Tavares Rodrigues criado pela Fenprof para distinguir, em anos alternados, obras de poesia e de ficção publicadas por docentes e investigadores. 

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O livro em apreço foi editado em 2012 e por ele  recebeu um prémio monetário de 7.500 euros. Este ano o júri integrou Paulo Sucena, ex-dirigente da Fenprof, José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, e Clara Rocha, que presidiu ao júri do Prémio Camões 2013.

Com este mesmo livro foi  também finalista do prémio literário Fernando Namora, cujo vencedor  foi José Eduardo Agualusa.

Ana Cristina Silva, doutorada em Psicologia da Educação, tem publicado com regularidade desde há uma década, sendo autora de “A mulher transparente” (2004), “As fogueiras da Inquisição” (2008), “Crónica do rei-poeta Al-Mu ‘Tamid” (2010) ou “A segunda morte de Anna Karénina”, já editado este ano.

O interessante é que os dois livros têm na sua história algo em comum: o peso do nosso passado enquanto país colonialista.

O livro de Gabriela Ruivo Trindade, ‘Uma Outra Voz’ traz-nos a  história é a de uma família de Estremoz que decide emigrar para África, um romance onde se cruzam histórias individuais com a história colectiva, onde se cruzam várias personagens e é também a história de uma cidade do Alentejo, Estremoz, sendo narrada desde o século XIX até este século.  Retrata a realidade, pouco conhecida, da emigração para África muito antes da guerra colonial.

O livro de Ana Cristina Silva é um romance com um fundo histórico que se debruça sobre os mecanismos de poder, em que se recua ao século XIX, a um conflito que opôs, em África, o governador Mouzinho de Albuquerque ao imperador dos Vátuas, Gungunhana, em Moçambique.

Temos ainda muito que digerir…

 

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