UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (14)

O NATAL NO CENTRO DA CIDADE

 

Avenida dos Aliados - Porto

Avenida dos Aliados – Porto

Como a iluminação de Natal ainda não está disseminada pela cidade, mas já está ligada e  linda, na Avenida dos Aliados, resolvi ir até lá, ontem. Passeei pela avenida, espreitei a Praça das Cardosas, e subi à rua da Picaria para jantar uns petiscos. Entrei na Taxca e deliciei-me com as sandes de presunto da Badalhoca, com as papas de sarrabulho e com o espadal. Qualquer coisa de sublime!

Praça das Cardosas - Natal 2013

Praça das Cardosas – Natal 2013

Enquanto comia e conversava com a minha metade, que me acompanhava, e a propósito das papas, lembrei-me outra vez da “madrinha e do padrinho”. Não que fossem meus padrinhos, mas era assim que os tratávamos. E ela, fazia umas papas de sonho, como aquelas que nós estávamos a comer. E como os pensamentos são como as palavras e como as cerejas e as colheradas de papas, lá fui desfiando, mais lentas que os pensamentos, as minhas lembranças daqueles tempos.

E, engraçado, já me tinha lembrado deles, há alguns dias, a propósito de outras razões.

Árvore de Natal - Avenida dos  Aliados - Porto

Árvore de Natal – Avenida dos Aliados – Porto

Lembrei-me deles, neste último final de semana, quando passei na Praça do Marquês de Pombal. Na verdade, lembrei-me mais dela do que dele, que as minhas lembranças pendem mais para o lado da madrinha.

Foi para mim, durante alguns anos, uma espécie de avó, mais pequenina, mais redondinha, mais quase tudo. Andava lá por casa muitas vezes, como se fizesse parte da mobília, fazendo parte da vida de todos nós. Tinha um sorriso perfeito, lindo, e costumava usá-lo todos os dias, nunca se esquecendo dele em casa. Era uma das suas melhores qualidades.

Aqui à atrasado, tive a oportunidade de escrever sobre eles num conto, “A madrinha Noémia e o padrinho careca“, o que me provocou umas saudades imensas.

Ao passar, desta vez, no “Marquês”, imaginei-os a passear por ali, nos Domingos de manhã, antes ou depois da Missa na Igreja da Imaculada Conceição, que viram ser construída, saboreando da frescura do espaço acolhedor, sentados num dos bancos do jardim lendo o jornal que o padrinho tinha comprado no quiosque, ou ouvindo, de mãos dadas, a banda que amiúde tocava no coreto.

Moravam na rua de Lindo Vale, que em tempos se chamara Estrada Velha e que saía do Largo da Aguardente, e que só após 1837, após ter terminado o Cerco do Porto, passou a ser parte integrante da cidade. Fazendo parte do Couto de Paranhos, actual freguesia do Porto, pertencia à Igreja Portucalense e situava-se em Terras da Maia.

Chamava-se Couto, por ser terra protegida e refúgio, Paranhos por, segundo a lenda, ser terra de bons pastos e frequentada por inúmeras cabeças de gado lanígero e caprino, e nas quais, os pastores costumavam recolher-se, enfiados nuns casinhotos para se abrigarem do frio e das intempéries. O povo dizia que os ditos casinhotos eram mais próprios “para-os-anhos” do que para os pastores, e daí surgiu o nome de Paranhos. Há também, evidentemente, a opinião de alguns historiadores, que consideram que o nome advém de, associando-o a Couto, ser lugar “amparado e defendido por honra”. Eu gosto mais da lenda!

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Praça do Marquês de Pombal

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Paranhos tinha 15 aldeias, 17 quintas e muitos campos, e aquando da abertura das ruas que hoje conhecemos, muitas mantiveram o nome original do local,  como por exemplo as ruas do Amial, Azenha, Antas, Aval de Cima e Aval de Baixo, Arroteia, Covelo e Barrocas, mas outras mudaram o nome, como é o caso do Largo da Aguardente, que hoje, e desde 1882 conhecemos como Praça do Marquês do Pombal.

Praça do Marquês de Pombal - Na segunda fotografia vê-se a Igreja da Imaculada  Conceição

Praça do Marquês de Pombal – Na segunda fotografia vê-se a Igreja da Imaculada Conceição

O Largo da Aguardente era, na altura do Cerco do Porto, um local periférico da cidade, situado na estrada que ligava o Porto a Guimarães.Em 1832, passavam neste local as linhas de defesa liberais. Aqui ficava uma das fronteiras da cidade, onde era cobrado imposto sobre todas as mercadorias que entravam no Porto. Uma espécie de DIA (Direitos e Impostos Aduaneiros) daqueles tempos.

Por volta de 1850 o largo apresentava já o traçado dos dias de hoje, e em 1870, construíram a praça de touros da Aguardente que, juntamente com a praça de touros da Rotunda da Boavista (o Real Coliseu Portuense foi a mais imponente e a maior praça de touros da cidade, que acolhia 8000 pessoas e tinha 2 restaurantes, sala de bilhares, cafés e quiosques), foram os dois únicos locais de corridas de touros da cidade do Porto, durante os últimos trinta anos do século XIX.

Como uma qualquer localidade do Ribatejo ou da Estremadura, a cidade do Porto também foi palco de inúmeros festejos tauromáquicos durante a idade média. Decorriam com grande fervor nas ruas e praças da cidade até ao princípio do século XIX, e acabaram por desaparecer quase totalmente com o fim da monarquia, provocado por algum repúdio da população tripeira em relação a este tipo de espectáculo.

Na realidade, as touradas tinham  começado a perder fulgor a partir de 1830, e o desinteresse dos portuenses pelas touradas provocou a falência das empresas tauromáquicas. Durante o decorrer do século XIX chegou a haver actos violentos, que chegaram à demolição e, em alguns casos à queima das praças de touros da cidade, como foi o caso da praça de touros da Aguardente.

Foram feitas várias tentativas nas últimas décadas do século XIX, no sentido de trazer de volta os touros à cidade mas, sempre sem muito êxito. Na década de 70 assistiu-se a uma súbita edificação de praças de touros por todo o país e a uma tentativa de impor à cidade do Porto o regresso da tradição das touradas, tendo para isso sido construídas 3 praças de touros (Cadouços, Boavista e Aguardente). A tentativa resultou num grande insucesso. Passado o período da curiosidade despertado pelo exotismo e pela imponência do edifício (caso do Real Coliseu Portuense), o povo não se rendeu às tentativas de imposição de uma tradição, já na altura considerada sem raízes, na região. As touradas naquelas praças desapareceram em poucos anos. Sempre com fracas receitas, nada restou que não fosse a falência das empresas que as geriam.

O espaço foi ajardinado em 1898, tendo sido plantadas árvores (Plátanos) e criada uma frondosa alameda, e construindo-se o coreto em ferro que ainda permanece no local, hoje já quase sem qualquer préstimo. Mais tarde, já nos nossos dias, em 2006, após a construção da Estação do Metro do Marquês, foi colocada a meio da praça a “Fonte luminosa da Confidente”, fonte que tinha sido retirada da Praça de D. João I no âmbito da requalificação urbana da “Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura”.

Nesta praça desembocam as seguintes ruas, olhando-as no sentido dos ponteiros de um relógio: Costa Cabral, Constituição, Latino Coelho, Santa Catarina (incluindo a rua das Doze Casas), Bonjardim, João Pedro Ribeiro, Constituição (de novo), e Lindo Vale.

A rua de Costa Cabral, como assim sempre a conhecemos, não tem nome que na altura fosse consensual. À rua mais comprida da cidade, aberta em 1845 para melhorar a saída e entrada da cidade na estrada para Guimarães que até aquela altura se fazia por Lindo Vale, deram o nome de Costa Cabral, em honra ao ministro do reino, e assim ficou para sempre não havendo hoje lembrança de qualquer outro, mas o povo, por detestar o ministro e por ele sentir enorme repúdio, não aceitou o nome e durante muito tempo, anos, chamou àquela rua, Estrada da Cruz das Regateiras, uma vez que atravessava o largo que hoje se chama Largo da Cruz e que na altura tinha aquele nome.

Vista do coreto - Fonte luminosa da Confidente - Biblioteca Pedro Ivo (à direita)

Vista do coreto – Fonte luminosa da Confidente – Biblioteca Pedro Ivo (à direita)

A Praça do Marquês, acolhedora, airosa e com a primeira biblioteca instalada num jardim do Porto (biblioteca Pedro Ivo) e que hoje se encontra abandonada e na mais completa degradação, era o ponto de encontro da muita gente que vivia à sua volta. Na esquina com a rua João Pedro Ribeiro, esteve durante muitos anos o Asilo do Terço, com a sua sala de cinema, mesmo ao lado da igreja da Imaculada Conceição (começou a sua construção em 1938 e foi inaugurada a 8/12/1947), e a sul da Praça, entre a rua de Santa Catarina e a do Bonjardim, estava, e está, o café Pereira, local de romaria há mais de quarenta anos, para comer “pregos”, únicos na cidade, feitos com carne picada (Hamburguer), e também famoso pelos bilhares que havia no primeiro andar. Em frente ao café, está o quiosque (construído em 1931 e considerado Património Municipal). A toda a volta da Praça, as linhas arquitectónicas das casas, com jardins, fazem perceber que estas foram construídas por gente razoavelmente abastada.

Quiósque e café Pereira

Quiosque e café Pereira

Nos últimos anos todos os dias se juntam muitos reformados no jardim. Grande parte deles ferrenhos jogadores da sueca e outros de dominó, estão sempre rodeados por inúmera assistência, que por sua vez é muito ruidosa. Jogam-se  castiços, apaixonados e apaixonantes campeonatos, a que vale a pena assistir e, se estivermos atentos, ouvir o forte bater das cartas ou das peças do dominó, os incentivos  e as imprecações dos assistentes e dos jogadores.

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E NESTA SEMANA

Vamos às compras no COMÉRCIO TRADICIONAL (DE RUA)

Ajudemos os nossos comerciantes, seja em que parte da cidade for.

O NATAL ESTÁ À PORTA!

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About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

7 comments

  1. Li e de tudo gostei !
    Muito bem descrito o ontem e o hoje.

    A Av. realmente está bonita !

    Um abraço por tudo.

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  2. Maria Assunção Assis

    Adorei a história desta parte da cidade, que, devo dizer, não me era de todo desconhecida. Alguns pormenores completaram a minha curiosidade. Obrigada.

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  3. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (17) | A Viagem dos Argonautas

  4. Jerónimo Pina Jorge

    Não sou do Porto como todos sabem, aproveito as tuas cartas para conhecer a historia e as lendas dessa linda cidade, um grande abraço amigo.

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