O PARADOXO FINLANDÊS, SÍMBOLO DO IMPASSE EUROPEU – por ROMAIN RENIER

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Finland_-_Location_Map_(2013)_-_FIN_-_UNOCHA_svg
Obrigado à Wikipedia

O paradoxo finlandês, símbolo do impasse europeu

 

Romain Renier,  La Tribune, 18 de Março de 2014

COMPETITIVIDADE

Finlândia - I

Em recessão desde há dois anos, a Finlândia quer de novo passar pela inovação para conseguir ultrapassar a actual fase recessiva. Mas isto far-se-á pela despesa pública. Em Fevereiro, o ministro das Finanças Jutta Urpilainen não excluiu ultrapassar os tratados europeus aumentando o défice público. La Tribune, Romain Renier | 18/03/2014,

A Finlândia conclui agora dois anos de recessão económica e três de défice comercial consecutivos. Nos anos 1990, tinha sabido sair-se de uma crise violenta graças às suas reformas e às exportações sustentadas por um enfraquecimento do valor da sua moeda. A partir de agora, a única alavanca que lhe resta é a da despesa pública, que o ministro das Finanças Jutta Urpilainen não exclui de vir a utilizar.

Não serve nada de ser competitivo se não se tiver nada para vender e que os clientes queiram comprar. É uma lição que se pode retirar dos azares da Finlândia. O país, citado como exemplo pela sua boa gestão das finanças públicas e sempre notado AAA pelas grandes agências de notação, atravessa com efeito um período difícil com dois anos de recessão de enfiada pelo contador das estatísticas.

Reformas com sucesso nos anos 90

Tudo deveria no entanto funcionar pelo melhor neste país nórdico, um membro da zona euro, que respeita à letra todas as recomendações de Bruxelas. Depois de ter atravessado uma crise financeira sem precedentes nos anos 1990, a Finlândia com efeito tinha-se colocado a praticar uma política de austeridade reduzindo drasticamente o seu défice público.

O governo conservador de então apostou tudo nas exportações, naturalmente o seu ponto forte. Destas política dois sectores chave apareceram: o sector florestal e o campeão da electrónica, o grupo Nokia.

 “Nos anos 1990, a Finlândia pôs em prática diversas reformas estruturais das quais as desregulamentações e a desregulação do mercado do trabalho,” conta Christophe André, economista e autor do último relatório da OCDE sobre a economia do país

Inovação e depreciação da moeda

Mas naquela época, o objectivo de redução das despesas não tinha feito com que o governo perdesse de vista a necessidade de investir na inovação.

“O princípio da competitividade é ter salários que não variam mais rapidamente que a produtividade. Para que estes aumentem é necessário aumentar a produtividade, nomeadamente graças à inovação,” resume Christophe André.

Além disso, as dificuldades da economia finlandesa tinham provocado uma depreciação salutar da markka, a moeda de então, e aproximadamente de 40%, o que teria permitido aos produtos finlandeses tornarem-se competitivos. Em suma, a economia finlandesa beneficiou de uma vantagem sobre os preços numa primeira fase, antes de ter êxito a sua aposta na inovação. O símbolo deste sucesso é Nokia, primeiro fabricante no mundo de telemóveis desde 1998.

Num contexto de crescimento mundial favorável às exportações, seguiram-se dez anos de crescimento ininterrupto. Assegurando ao Estado as receitas fiscais regulares que permitem não colocar o sistema numa situação de demasiada fragilidade social. Resultado: uma dívida continuamente mantida abaixo dos 60% do PIB e um défice público perfeitamente controlado.

Desmoronamento de dois pilares da economia

Salvo que estes dois últimos anos, tudo descarrilou. Nokia, em primeiro lugar, desmoronou-se devido às suas más escolhas estratégicas no momento da viragem para o smartphone. Más escolhas que lhe fizeram perder o seu lugar de número um mundial em 2011.

“Isto provocou o desmoronamento do sector da electrónica que representava cerca de 6% do PIB. Doravante, anda-se à volta de 2%,” nota Christophe André.

As vendas de madeiras, prejudicadas pelo euro extremamente forte estão, aliás, a ter dificuldades face à a concorrência acrescida dos países emergentes mais competitivos em termos de preços. “Mas a Finlândia poderá nunca alinhar-se sobre os países emergentes. A única solução é a de inovar”, explica o economista da OCDE. Salvo que a fileira madeira errou a via dos biocarburantes, o que teria podido assegurar-lhe novos mercados. Quanto ao papel, outro produto derivado da floresta, sofreu com a chegada do numérico.

(continua)

______

http://www.latribune.fr/actualites/economie/union-europeenne/20140313trib000819824/le-paradoxe-finlandais-symbole-de-l-impasse-europeenne.html

Leave a Reply