O PARADOXO FINLANDÊS, SÍMBOLO DO IMPASSE EUROPEU – por ROMAIN RENIER

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O paradoxo finlandês, símbolo do impasse europeu

 

Romain Renier,  La Tribune, 18 de Março de 2014

COMPETITIVIDADE

Finlândia - I

(conclusão do artigo iniciado na passada quarta-feira, dia 23 de Abril, às 22 horas)

Espiral depressiva

Com efeito, depois de todos os esforços para entrar nos parâmetros europeus, o país nórdico actualmente é arrastado numa espiral depressiva. Apesar de se estar perante uma economia virada para as exportações, a Finlândia sofreu alinhou em 2013 o seu terceiro défice comercial anual consecutivo. Um desequilíbrio apontado pela própria Comissão Europeia aquando da publicação no princípio de Março dos seus balanços exaustivos das economias da União europeia. Excepto um défice comercial registado em 1990, o país não tinha conhecido uma tal situação delicada desde… 1984.

Por falta de mercados, as empresas não investem mais e contratam menos. O desemprego situa-se actualmente em 8,4% da população activa, a meio caminho entre a Alemanha e a França.

“Os salários tinham beneficiado de um aumento generalizado exactamente antes do início da crise em 2007, o que até lhes permitiu apoiar o consumo. Doravante, os salários estagnam”, lamenta Christophe André. De modo que o consumo, motor auxiliar do crescimento, também se contraiu em 2013.

O euro impede a Finlândia de accionar a alavanca monetária

Com efeito, a Finlândia sofre da fraqueza dos seus clientes quanto às suas próprias exportações. A Rússia, antigo principal parceiro comercial do país, marca o passo. A Suécia, agora o motor das exportações finlandesas não é suficiente para fazer com que a economia saia da situação recessiva.

E não é a Alemanha, outro grande cliente da Finlândia, que arrisca aumentar a procura interna da Finlândia. Poderia no entanto assegurar novos mercados para a produção de metal, último ponto forte da economia do país. Pressionada sobre o assunto na Europa, a primeira potência exportadora no mundo recusa-se com efeito a favorecer a sua procura interna. Que poderia no entanto ajudar a sair da situação de crise os seus parceiros europeus arrastados para a recessão na sequência das consolidações orçamentais e da fraqueza do crédito desde o início da crise na zona euro.

“A zona euro é sempre muito frágil, isto vai já ligeiramente melhor mas está-se ainda longe de se ter a batalha ganha, sublinha o autor do relatório da OCDE”.

Quanto aos clientes fora de zona euro, a Finlândia dispõe de pouca margem de manobra sobre os mercados que ela conhece efectivamente muito bem, como os Estados Unidos ou a China, onde ela se choca contra a concorrência da Alemanha, mais competitiva tanto sobre as características extra-custo como sobre os preços. A inovação e a baixa dos custos, tal como na maior parte dos países da zona euro, são por conseguinte os novos nervos da guerra para a Finlândia… sem possibilidade de impulsionar a alavanca monetária.

Inovação rima com despesa pública

Em linha com Bruxelas, o governo por conseguinte previu optimizar as despesas públicas, racionalizando nomeadamente um sistema de municípios muito dispendioso. Uma reforma das reformas além disso foi anunciada para fazer face à inversão da pirâmide das idades. E novas desregulações também estão previstas sobre o mercado do trabalho. O objectivo de tudo isto é o de voltar a ganhar margens de manobra nas empresas reduzindo a pressão fiscal. Mas a verdadeira esperança reside na revolução numérica. A Finlândia conta neste sector de duas jovens e prometedoras empresas : Rovio e Supercell, ambas especializadas nos jogos vídeos.

Ora na Finlândia, a inovação rima com despesa pública. O sector privado é, de momento, pouco propenso a assumir riscos. A escolha é por conseguinte corneliana. Reduzir ainda as despesas sociais para atribuir recursos à investigação arriscaria a estar a agudizar ainda mais o consumo em baixa. Quanto a aumentar os impostos, esta posição arrisca-se a pesar sobre o sector privado, num país onde o nível dos impostos é já um dos mais elevados da OCDE. Permanece a solução do défice público: inimigo histórico de Helsínquia e da Comissão europeia.

Não vestir “uma camisa de força”

“Não se é obrigado a vestir uma camisa de força,” declarou quanto a este assunto Angel Gurria, o secretário geral da OCDE em visita à Helsínquia em meados de Fevereiro. Para ele, é necessário poder transgredir (com medida) as regras de dívida e de défice máximas impostas por Bruxelas.

Uma posição que Jutta Urpilainen, o ministro finlandês das Finanças, encontrou “muito interessante”. “Veremos de quanto e quando reequilibraremos o orçamento do Estado nos anos próximos”, deixou-se mesmo descair fazendo voar em estilhaços as recomendações habituais da Comissão europeia, tanto quanto se estilhaçavam igualmente as diversas tomadas de posição de Helsínquia para uma redução drástica das despesas públicas a serem impostas Aos países do Sul da zona euro durante a crise.

Illustration Creative Commons by harritimonen

http://www.latribune.fr/actualites/economie/union-europeenne/20140313trib000819824/le-paradoxe-finlandais-symbole-de-l-impasse-europeenne.html

1 Comment

  1. Oh, diabo, agora fico muito preocupado dado correr o risco de ja nao ter quem me pague o almoço, eu que vivia sem necessidade de trabalhar a contar com os finlandeses, que me convenceram que os meus 52 anos de trabalho afinal nao foram mais do que uma forma ludica de passar o tempo.

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