GIRO DO HORIZONTE – EU SEI O QUE TENHO EM ÉVORA – por Pedro de Pezarat Correia

01Acompanhando a louvável intenção dos responsáveis editoriais de A Viagem dos Argonautas de dedicarem a edição de hoje ao Dia de Évora, é também para esta cidade dos meus encantos e para o Alentejo em geral que se orienta o meu GDH, pedindo a benevolência dos leitores para lhe conferir algum cunho pessoal.

Nasci num meio urbano, na cidade do Porto, e nada na minha família direta me relacionava fora do meio portuense e duriense. E ao Douro se reduziram as raras saídas do Porto para umas duas ou três férias grandes numa pequena aldeia de Armamar. O Alentejo era algo de que, nos bancos da escola primária, eu mal ouvira falar para além de me dizerem que ali se situavam umas províncias de Portugal. A minha primeira vinda a Lisboa foi aos 10 anos, para concorrer e depois ingressar no Colégio Militar. E foi quando tudo ia mudar no meu relacionamento com o Alentejo.

Fiz então os meus primeiros amigos alentejanos, alguns que entraram comigo para o colégio, outros que já lá andavam. Surpreendeu-me aquele falar arrastado e cantado, aquele sotaque mais doce e menos agressivo que a rude pronúncia nortenha que naquele meio, predominantemente lisboeta, era objeto de gozo.

Estava no terceiro ano do Colégio Militar e tinha 13 anos quando meu pai foi colocado em comissão de serviço na Guiné. As comunicações eram difíceis e os recursos escassos naqueles meados da década de 40 do século passado, pelo que não era pensável ir de férias à Guiné e os meus pais só voltaram a Portugal, em férias, 5 anos depois. Um camarada e amigo de Serpa, fiel intérprete da solidariedade alentejana, falou com os pais, que me conheciam desde a nossa admissão ao colégio, e aí vem o convite para eu ir passar as férias da Páscoa a sua casa. Foi a minha primeira passagem para sul do Tejo (excluindo uma ou outra travessia até Cacilhas). E foi o encanto da descoberta de um mundo novo numa casa e numa família que me acolheu como um deles. A lonjura loura da planície, a calma das gentes, a solidariedade coletiva, foi-me conquistando porque as férias se foram repetindo. O Alentejo profundo e a gente alentejana genuína fascinou-me. Em pouco tempo eu até já falava cantando.

Abreviemos porque o espaço é limitado. Terminado o Colégio Militar, porque eu e o meu amigo-irmão alentejano seguimos percursos distintos e, por razões que aqui não cabem, as minhas relações com a sua família passaram a rarear, e ainda porque aos 22 anos eu já estava a iniciar a minha primeira comissão militar em Goa, o meu contato físico com o Alentejo escasseou. Que não a memória que permaneceu viva.

Até que… Em 1961, com as massivas mobilizações militares para as colónias africanas que o início da guerra em Angola ditara, coube-me a nomeação para, no Regimento de Infantaria (RI) 16, em Évora, mobilizar e comandar uma companhia para Moçambique. Foram 28 meses de convívio intenso com 170 militares na sua grande maioria alentejanos, o que me permitiu conhecer muito melhor a personalidade, a dignidade, a solidariedade, a recusa do servilismo daquele povo do qual tinha ali uma amostra significativa. Gente habituada a enfrentar corajosamente vidas adversas e que não se vergava a facilitismos. Todos os anos, em Évora, nos juntamos, os que restam passados 51 anos do termo da comissão, não para comemorarmos a guerra nem o que ela significava, mas porque queremos manter viva a solidariedade forjada em tempos e ambientes adversos.

Em 1966, nova comissão, agora em Angola. Cabe-me ir comandar uma companhia na difícil região dos Dembos, que já ia a meio da comissão. Era também uma unidade mobilizada em Évora no RI 16, com a qual vou ficar mais um ano até ao termo da sua comissão. A percentagem de alentejanos era menor, mas ainda significativa e os convívios anuais também se repetem.

1969, nova mobilização, já como major, num batalhão agora para a Guiné. Unidade mobilizadora, mais uma vez Évora e o RI 16, com um contingente muito significativo de alentejanos. Dois anos de convívio intenso em condições de alto risco, por vezes penosas, em que a solidariedade e a entreajuda se manifestavam ao mais alto nível.

Mas ainda não era tudo. No 25 de Abril de 1974 estou em Angola e nele participo inteiro e integralmente. Regressado a Portugal depois de concluído o Acordo do Alvor, escolhido pelos meus camaradas para o Conselho da Revolução (CR) na sequência do 11 de Março de 1975, foi decidido que as Regiões militares passassem a ser comandadas por oficiais com assento no CR. A quem caberia ir comandar a Região Militar do Sul (RMS) com sede em Évora? Obviamente a mim. Seriam mais 15 meses a percorrer intensa e assiduamente o Alentejo de lés-a-lés, a contatar diariamente os alentejanos de todas as latitudes, de todas as condições, de todas as opções. Foi o período eufórico do processo revolucionário no qual o Alentejo seria protagonista, quanto mais não fosse porque viveu a experiência única de uma reforma agrária inovadora, em que a iniciativa dos trabalhadores rurais foi determinante. Não vou aqui entrar em pormenores, porque o espaço o não consente, sobre o que foi essa epopeia que a pequenez dos políticos, quando chegou a hora da revanche contrarrevolucionária, tratou de liquidar e nem sequer soube aproveitar as suas potencialidades económicas, sociais, culturais, que foram muitas, para mudar Portugal. Já depois, em pleno retrocesso da dinâmica revolucionária, continuei a participar, como convidado, nas frequentes conferências da reforma agrária que se realizaram por todo o Alentejo e ainda tive oportunidade de acompanhar o progresso que, graças ao poder local democrático conquistado com o 25 de Abril, a magnífica cidade de Évora conheceu e lhe permitiu vir a ser considerada pela UNESCO, em 1986, como Património Universal da Humanidade.

São apenas algumas notas pessoais com que quis contribuir para este Dia de Évora. Porque Évora e o Alentejo se me impuseram, com toda a naturalidade, como atração incontornável. É uma terra e uma gente que me merece um carinho e um respeito incomensurável, porque o Alentejo e os alentejanos se confundem com os mais altos valores humanos que marcaram os episódios mais difíceis da minha vida.

Com o coração em Évora, 1 de Dezembro de 2014

One comment

  1. MARIA DOS ANJOS FEIO

    Gosto.

Leave a Reply

%d bloggers like this: