BALTIMORE, DE UM SÉCULO A OUTRO – organização e montagem por JÚLIO MARQUES MOTA – I

Map_of_USA_with_state_names_svg Baltimore - I

Iª Parte – Baltimore de ontem – uma história de amor e ódio também

Marie e Gustavo nos motins de Baltimore

A redacção de Books, Abril de 2015

Baltimore de então:

Baltimore - II

  • O livro – Marie ou l’esclavage aux Etats-Unis par Gustave de Beaumont, Charles Gosselin, 1840

Baltimore de agora:

Baltimore - III

Texto:

Os motins rebentarem em Baltimore depois da morte de um detido, um jovem negro. O estado de emergência foi decretado. A questão do racismo da sociedade americana está no centro destes acontecimentos violentos. Como já o estava nos tempos em que Alexis de Tocqueville e Gustave de Beaumont percorriam a América. Este último fez um quadro romanceado, Marie ou a escravidão nos Estados Unidos. Marie tem antepassados negros e prepara-se para casar com o narrador que é branco. Reencontram-se apanhados no meio de conflitos muito concretos de uma sociedade dividida pela raça.

Existe em Nova Iorque, como em todas as cidades do Norte dos Estados Unidos, dois partidos bem distintos entre os amigos da raça negra.

Uns, consideram a escravidão uma má coisa para o seu país, e talvez também a condenem como contrária à religião cristã, pedem a libertação da população negra; mas, cheios dos preconceitos da sua raça, não consideram os negros livres como sendo iguais aos brancos; quereriam por conseguinte que se deslocassem as pessoas de cor, à medida que se lhes dava a liberdade; e têm-nos num estado de rebaixamento e de inferioridade tanto tempo quanto eles permanecerem entre os Americanos. Um grande número destes amigos dos negros não são contrários à escravatura senão por amor-próprio nacional; é-lhes penoso receber sobre esta realidade a crítica dos estrangeiros, e ouvir dizer que a escravatura é um resto de barbárie. Alguns atacam o mal, pela única razão que sofrem ao vê-la: estes, realizando a libertação, fazem pouca coisa: destroem a escravidão, e não lhes dão a liberdade; libertam-se de uma chaga, de uma tristeza, de uma situação embaraçosa, de um sofrimento de vaidade, mas não curam o a ferida do outro; trabalharam somente para eles, e não para os escravos. Carregado com os seus ferros, o escravo é afastado da sociedade livre.

Os outros partidários dos negros são os que gostam sinceramente deles, como um cristão gosta dos seus irmãos, que não só desejam a abolição da escravidão, mas ainda os recebem no seu seio, com eles livres, e tratam-nos como sendo seus iguais.

Estes amigos zelosos da população negra são raros; mas o seu ardor é incansável; foi muito tempo mais ou menos estéril; contudo alguns preconceitos desapareceram pelo seu empenho e vêem-se brancos a ligarem-se pelo casamento a mulheres de cor.

Enquanto a filantropia para os negros tinha levado apenas a declamações inúteis, os americanos tinham-nos tolerado sem dificuldade: era-lhes pouco importante que teoricamente se proclamasse a igualdade dos negros, desde que eles permanecessem, no plano dos factos, inferiores aos brancos. Mas no dia em que um americano casasse com uma mulher de cor, a tentativa de combinar as duas raças assumia assim um carácter prático. Isto seria considerado um insulto à dignidade dos brancos; o orgulho americano levantou-se todo ele, em peso.

Tal era, na cidade de Nova Iorque, a disposição dos espíritos, na época da minha ligação com Marie.

Como nós íamos para a igreja católica, apercebi-me de que na cidade havia uma agitação anormal. Já não era o movimento regular de uma população industrial e comercial: homens mal vestidos, da classe operária, percorriam as ruas a uma hora em que normalmente estariam nas fábricas, nas oficinas, nas lojas. Viam-se, sem os seus hábitos calmos e frios, a andar rapidamente, a chocarem-se ao cruzarem-se, a aproximarem-se uns dos outros com um ar misterioso, a formarem grupos animados, e a separarem-se abruptamente em direcções contrárias.

Cheio de uma imensa curiosidade que ocupava toda a minha capacidade de pensar, dei apenas uma fraca atenção à esta perturbação externa; contudo, a partir deste momento, fiquei surpreendido de não ver nas ruas nem negros nem mulatos.

Nelson perguntou a um americano que passava perto de nós qual a causa daquele tumulto. – “Oh! Disse ele,, os amalgamistas fazem todo o mal; querem que os negros sejam iguais aos brancos; os brancos são assim bem forçados a revoltarem-se. ”

Interrogado do mesmo modo, um outro respondeu – “se matarmos os negros, será deles a culpa; porque estes miseráveis ousam querer estar ao mesmo nível que os Americanos? ”

Não arrasem mais nada!

Um terceiro interlocutor emitiu uma opinião diferente: “Vamos, diz-ele, arrasar as casas dos negros e fazer desaparecer as suas medonhas figuras! Os brancos são culpados por agir assim; porque foram eles que cometeram a primeiro erro; porque deram a liberdade aos negros? ”

No momento em que estes tristes discursos nos matraqueavam os ouvidos, um terrível espectáculo se estendia à nossa frente…

Estávamos em Léonard-Street. Alguns pobres mulatos vinham a passar neste momento, ouvíamos imediatamente mil vozes furiosas gritar: “Ódio aos negros! à morte! à morte! ” Ao mesmo momento, uma chuva de pedras, vindas do meio da multidão, caiu sobre as pessoas de cor; americanos, armados de varas, precipitam-se sobre este infelizes, e batiam-lhes sem dó nem piedade. Aterrados, por um tratamento tão cruel quanto inesperado, os mulatos não ofereciam nenhuma resistência, e pareciam paralisados pelo espanto e pelo medo, face ao aspecto da multidão irritada; o seu olhar, elevado para o céu, parecia perguntar a Deus de onde vinha o ódio de uma sociedade cujas leis eles respeitavam. Logo a seguir uma cena ainda mais desoladora ofereceu-se aos nossos olhares. Os desafortunados, que fugiam de uma cega vingança, tinham-se refugiado nas casas de algumas pessoas amigas que eram de cor. Pessoalmente pensava que tinham escapado ao perigo; mas desde que a onda popular se desencadeou, ela nunca mais parou. As janelas voavam desfeitas em pedaços, as portas eram todas partidas, os muros desfeitos, demolidos… Neste momento, deixei de ver o trabalho do povo: Marie estava paralisada pelo terror. “Meus amigos, diz-nos Nelson sem estar a perturbar-se, fujamos ; estas violências bárbaras confundem a minha razão; mostram um ódio bem fatal contra as pessoas de cor. Grandes perigos ameaçar-nos-iam se nos descobrissem. Aceleremos o passo para alcançar o templo sagrado; refugiados no edifício religioso, ficaríamos ao abrigo de qualquer violência: o povo americano preferiria morrer do que de perder o seu respeito pelas coisas sagradas … Meus pequenos, dizia-nos ainda Nelson a arrastar-nos para a igreja, logo que a vossa união esteja consumada, deixaremos esta cidade, onde reinam as más paixões, que pessoalmente acreditava como adormecidas. ”…

Rapidamente, chegámos à igreja de John Mulon. Muitos pessoas de cor tinham-se aí refugiado.

Entrando neste piedoso asilo, senti renascer as minhas forças e as minhas esperanças. O tumulto da sedição, os gritos da multidão, as suas fúrias, as vozes das vítimas, todos os barulhos da terra deixaram de me atingir os ouvidos e deixei de sentir ressentimentos. Gostava da filha de Nelson, e orava a Deus.

Pouco tempo depois começou a cerimónia. Eu estava ajoelhado perto de Marie, cuja palidez era extrema. Durante as cenas de horror das quais fomos testemunhas, não tinha deixado escapar uma só queixa; apenas o seu olhar sem brilho, pleno de dor, parecia estar a dizer-me: “Ficaram lá as pompas do nosso casamento?” Desde o momento em que entrámos no recinto sagrado, via reaparecer sobre a sua fronte a calma e a serenidade: mas a sua confiança em Deus era mais de resignação do que de esperança.

Eu entregava-me completamente às minhas impressões de alegria. Depois de muitas trovoadas, chegava ao meu porto… as minhas desgraças passadas serviam de sombra à minha felicidade… e quase abençoava as perseguições do destino, sem as quais não teria sido tão feliz… Se o destino tivesse protegido as minhas primeiras ambições de glória e de poder, não teria deixado a Europa, e não seria hoje o cônjuge de Marie! Quais que sejam doravante as injustiças que o mundo me faça, seremos dois para as suportar; e as lágrimas de uma mulher são tão suaves, até porque misturam um encanto secreto às dores mais amargas.

Assim, me vinham à ideia mil ideias risonhas quanto ao futuro, enquanto, prosternados na frente do altar, Marie e eu recebíamos as bênçãos da Igreja. No momento em que o santo ministro da igreja, depois de ter dado do seu coração alguns conselhos comovedores, pegava nas nossas mãos para as unir, um grande tumulto rebentou de repente à porta do templo. “Os insurrectos! ” gritou uma voz sinistra. Este grito passou de boca em boca ; seguidamente faz-se um silêncio sombrio sob a abóbada sagrada… Então ouve-se do lado de fora o barulho de uma multidão em desordem, semelhante aos estrondos de uma trovoada que se aproxima. Empurrada por um vento impetuoso, a nuvem que trás o trovão avança rapidamente, e já o raio está sobre as nossas cabeças. Ouço: “morte às pessoas de cor! à igreja! à igreja! ” Estes clamores temíveis ouviam-se vindo de todos os lados; o terror toma conta de toda a gente que estava na Igreja; o padre começa a ter os joelhos a tremer, estes dobram-se e a aliança que nos deveria unir cai das suas mãos! Marie, gelada pelo medo, perde os seus sentidos, oscila, e dou à jovem rapariga o apoio do braço que, um momento depois, segurava efectivamente a minha esposa muito amada..

Alguns negros intrépidos tinham-se lançado para as portas da igreja para a defenderem da invasão; mas imediatamente milhares de projécteis caem com estrondo sobre o edifício sagrado… ouvem-se as portas ranger sobre os seus gonzos… os assaltantes incentivavam-se mutuamente à violência; cada um dos seus sucessos é saudado por aplausos tumultuosos; os ataques redobram de violência, as muralhas abalam-se, o solo tremeu. Já o povo, este prodigioso trabalhador de destruição, irrompe no adro da igreja; então a igreja apresenta uma cena terrível de desordem e de confusão: as crianças lançam gritos lancinantes; as mulheres gritam em jeito de lamentos muito dolorosos. Com a ideia de um massacre popular, o horror enche todas as nossas almas; porque a horda é a mesma em todos os países, estúpida, cega, cruel. Homens, ou antes, monstros, sem respeito pela santidade do lugar, sem piedade face à situação de sexo e de idade, precipitam-se sobre a muito crente assembleia, e entregam-se aos actos da mais brutal violência, sem estar a poupar as mulheres, os velhos e as crianças.

A minha angústia era extrema. Confundido por este espectáculo de vandalismo e de impiedade, Nelson estava dividido entre a sua solicitude paterna e o seu orgulho nacional. “Oh, meu Deus! gritava; oh, profanação! Oh, vergonha para o meu país! ”

O perigo era iminente e terrível; digo a Nelson: “Por favor, deixe ao meu muito amor que tenho por Marie o cuidado de a proteger” e, falando assim, agarro-a e tomo-a nos meus braços. Oh! com que energia eu segurava na minha muito bem-amada! como eu me senti forte, tendo-a encostada sobre o meu coração! mas mal eu tinha pegado neste tão precioso fardo, ouvi várias vozes gritar: “John Mulon! John Mulon! Morte ao católico que casa as mulheres de cor com os homens brancos! ” E ao mesmo tempo eu vi todos os olhares fixos em nós; compreendi que tínhamos sido traídos e que nos ameaçavam terríveis perigos. Como salvar Marie? como atravessar as fileiras dos nossos inimigos, no meio de tanto paixões desencadeadas?

Um clarão de esperança veio brilhar nos meus olhares. “A milícia! a milícia! ” gritaram alguns insurrectos. – “Que nos importam as milícias! – responderam outros; –  as milícias não ousariam disparar sobre o povo americano! ”

Um corpo de milicianos chegava de facto com a missão de restabelecer a paz pública; mas este era composto inteiramente de homens brancos que pouco se incomodavam com as pessoas de cor. Em vez de parar a fúria popular, puseram-se a olhar e a contemplar passivamente os seus excessos. A sua presença impassível fez apenas aumentar a fúria dos assaltantes que percorriam o interior do templo, escavacando, saqueando tudo, os móveis, os ornamentos do culto, o púlpito sagrado, até mesmo o altar. Todas as saídas estavam guardadas, de modo que ninguém poderia fugir às suas violências. Nesta extremidade, recomendando ao céu a santa causa da inocência e da desgraça, precipito-me para o meio de uma multidão desenfreada, através de mil gritos de dor e de vingança, levando nos meus braços Marie, pálida e desgrenhada, e não tendo para proteger-me outra coisa que não fosse a energia da minha vontade, a força do meu amor, e a minha fé na justiça de Deus. Ah! fui intrépido e forte! não sei se foi pelo efeito da minha audácia ou de uma celestial protecção: mas uma passagem se abriu em frente de mim. Marie estava tão bonita com o medo estampado na cara que atribuí a impotência dos nossos inimigos primeiro que tudo à fascinação dos seus encantos; contudo, que respeito poderia a mais nobre das criaturas inspirar ao ímpio que insulta Deus no seu templo? Já só me restava cruzar a última saída: era a passagem mais perigosa. Agitado de mil medos, colocado entre o obstáculo que via na frente de mim e a impossibilidade de ficar imóvel, encontrando só perigos à minha volta, lanço-me… Neste momento, vejo levantar-se os braços dos assassinos … Marie vai cair sob os seus golpes… Então parece-me que a abóbada do céu se abate sobre mim, ao mesmo tempo que a terra entreabria o seu regaço para me proteger. Contudo o meu impulso segue o seu destino; não posso mais conter-me, e, neste treino do meu corpo, tenho a consciência que querendo salvar uma cabeça amada, entrego-a afinal aos seus carrascos!

Oh, meu Deus! Que neste dia o teu Poder e a tua Misericórdia sejam grandes! No mesmo momento, exactamente nesse momento, em que eu precipitava no abismo o tesouro confiado ao meu amor, um jovem combatente se apresenta, se coloca entre nós e os nossos inimigos, cujas fúrias enfrenta, faz-nos um muralha com o seu corpo, avança no terrível desfile, ataca os guardas de passagem, desarma, inverte, quebra tudo o que lhe resiste … Precedido da sua força tutelar, avanço sem obstáculos, subtraio Marie de todos os insultos, protejo-a contra todas as violências, e sinto a mais suave alegria que seja dada a um homem sentir, roubando-a a um terrível perigo e vendo reaparecer nos meus braços o encantador objecto do meu amor.

Pouco tempo depois, depois de nos termos juntado a Nelson, James Williams e John Mulon, que, apesar das lutas onde tinham sido forçados a envolverem-se, não nos tinham perdido de vista.

(amanhã, a II Parte, Baltimore de hoje)

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