BALTIMORE, DE UM SÉCULO A OUTRO – organização e montagem por JÚLIO MARQUES MOTA – II

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II ª Parte- – Baltimore de hoje – a violência organizada, uma outra componente da crise actual nos Estados Unidos

Testemunhas oculares: Os motins de Baltimore não começaram da forma que nos quiseram levar a pensar

Pais e professores de Baltimore contam uma história diferente da que lemos nos media

 

 Sam Brodey e Jenna McLaughlin

Uma peça feita a partir de Mother Jones e do artigo

Eyewitnesses: The Baltimore Riots Didn’t Start the Way You Think

Baltimore teachers and parents tell a different story from the one you’ve been reading in the media.

28 de Abril de 2015

Ver em:

Eyewitnesses: The Baltimore Riots Didn’t Start the Way You Think

 

Baltimore - IIIPatrick Semansky/AP

Depois da polícia de Baltimore e de uma multidão de adolescentes se terem confrontado perto de centro comercial Mondawmin a noroeste de Baltimore na tarde de segunda-feira, notícias, relatórios descreveram a violência como uma revolta desencadeada por crianças que tinham estado em confrontos durante todo o dia. Mas em entrevistas com Mother Jones e outros meios de comunicação não oficiais, professores e pais mantêm que as acções de polícia inflamaram uma situação já de si muito tensa mas estável.

Baltimore - IV More coverage of the protests in Baltimore.

O funeral de Freddie Gray, um jovem negro de 25 anos, que morreu sob custódia da polícia, este mês, tinha acabado horas antes numa igreja próxima. De acordo com o Baltimore Sun, um apelo a uma “purga” — uma referência ao filme distópico de 2013, em que qualquer crime é considerado legal por uma noite — circulou nos media sociais entre os jovens de Baltimore em idade escolar naquela manhã. O plano, segundo os rumores — em que não foi localizada nenhuma pessoa específica ou um grupo responsável — estava a reunir as pessoas no shopping Mondawmin às 15:00 e prosseguiria pela Avenida Pensilvânia em direcção do centro da cidade de Baltimore. O departamento de polícia de Baltimore, que estava consciente do apelo “Purga” estava preparada para o pior. Pouco antes do meio-dia, o departamento emitiu uma declaração dizendo que tinha “recebido informação credível que membros de várias gangues… entraram numa acção combinada para combater contra as autoridades.

Quando acabaram as aulas naquela tarde, a polícia estava na área e equipada com o equipamento anti-motim completo. De acordo com testemunhos oculares na vizinhança de Mondawmin, a polícia parava os autocarros e forçava os passageiros, incluindo muitos estudantes que estavam a querer ir para casa, a abandonarem o autocarro. Os polícias interromperam a circulação do metro. Igualmente bloquearam estradas perto de Mondawmin Mall, e da Frederick Douglass High School de Mondawmin, que está do outro lado da rua do centro comercial e cercaram essencialmente os jovens na área. Isto é, não permitiram que a multidão de estudantes depois das aulas se dispersasse.

Meghann Harris, um professor numa escola próxima, descreve no Facebook, o que aconteceu:

A polícia estava a forçar os autocarros a pararem e a desembarcar todos os seus passageiros. Em seguida, os estudantes [da Frederick Douglass High School], em enormes grupos estavam a tentar  pelos diferentes autocarros, mas não os podiam tomar porque estes tinham as portas fechadas. Sem serem adolescentes estariam por ali umas vinte pessoas, que mais parecia estarem à espera de que a polícia fosse fazer alguma coisa. A polícia, por outro lado, estava fardada e equipada para situações de anti-motim e marchavam em direcção a qualquer agrupamento de estudantes por pequeno que fosse e que estavam na conversa… Parecia que havia por alí centenas de policias.

As crianças foram mandadas “parar em grupos de 3-4,” disse Harris numa mensagem de Facebook para Mother Jones. “Eles não estavam a fazer nada. Não jogaram pedras, nada… A polícia começou a marchar em direcção a grupos de crianças que estariam a conversar e a interrogar-se sobre o que estaria a acontecer.”

Um professor na Douglass High School, que pediu para não ser identificado, conta uma história semelhante: “Quando na escola as aulas estavama acabar, muitos estudantes foram embora mais cedo com os pais, ou por sua própria iniciativa.” Aqueles que ainda não tinham partido, diz ele, foram presos. Muitos dos alunos que ainda estavam na escola naquele momento, queriam sair da área e evitar qualquer violência, como do tipo de purga.

Alguns foram pedindo para ir para casa dos professores. Mas agora, era difícil deixar o bairro. “Acompanhei um outro professor a ir para casa”, recorda-se o professor, “e nós tivemos que contornar a polícia com equipamento anti-motim, a bloquear a estrada… A maioria dos meus alunos, pensavam que era estúpido o que estava a acontecer ou estavam assustados com o que se estava a passar. Muito poucos pareciam querer participar em operações do tipo ‘purgar’.

Um pai que foi buscar o seu filho a uma escola primária nas proximidades, diz via Twitter, “as crianças ficaram em frente à polícia e mais parecia que eles lhes estavam a pedir e a perguntar ‘porque é que não podemos apanhar o nosso autocarro’, mas a polícia só olhava… A maioria dessas crianças não são das redondezas daquele bairro. Eles precisam daqueles autocarros e comboios para chegarem a casa.” Ele continuou: “Se eles tivessem deixado ir as crianças para casa, ontem as coisas não teriam dado no que deram.”

Meg Gibson, outra professora de Baltimore, descreveu uma cena semelhante ao Gawker: “a polícia de choque estava já na paragem do autocarro do outro lado do shopping, mandando de volta os autocarros que transportam os estudantes, não permitindo que os alunos embarcassem. Eles estavam à espera das crianças… Essas crianças foram criadas, foram tratados como criminosos antes que o primeiro tijolo lhes tenha sido lançado”. Com autocarros a descarregarem polícias e com a estação de metro nas proximidades fechada, havia muito poucos meios para que os alunos saíssem para fora dali, para casa

Várias testemunhas na área naquela tarde disseram que a polícia parecia chegar a Mondawmin antecipando a mobilização e a violência — antes de qualquer saque. Às 15:01, o departamento de polícia de Baltimore colocou na sua página no Facebook: “há um grupo de jovens na área do centro comercial de Mondawmin. Esperam-se atrasos de trânsito na área.” Mas muitos dos jovens, de acordo com testemunhas, foram aí presos por causa das acções de polícia.

O departamento de polícia de Baltimore não respondeu aos pedidos de comentários.

Eram 03:30, a polícia relatou que os juvenis começaram a jogar garrafas e tijolos contra a polícia. Quinze minutos depois, o departamento da polícia observou que um dos seus oficiais foi ferido. Depois da violência ter aumentado e de os desordeiros terem começado a saquear o shopping Mondawmin, Baltimore entrou assim numa longa noite de confusão e de violência. Mas como o evento é examinado e estudado, uma questão importante merece a nossa atenção: o que é que poderia ter acontecido se a polícia não tivesse impedido os estudantes de deixarem a área? As próprias acções do departamento não terão elas aumentado as probabilidades de conflito?

Como o afirma Meghann Harris, “se eu fosse um estudante de Douglas que ficasse preso no meio de um campo minado por policiais sem ter como voltar para casa e completamente em perigo, eu estaria pronto para rebentar, também.”

(continua)

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