DIA DA GALIZA – “Os galegos da Baixa lisboeta” – por Carlos Loures

 

Não faço, nem nunca fiz,  segredo de que nasci na tranquila Rua dos Douradores, a rua do Desassossego, em cujas manhãs o ajudante de guarda-livros Bernardo Soares se cruza distraidamente com o importador de produtos ultramarinos, Godofredo da Conceição Alves que, a mando de Eça de Queirós, vem do Terreiro do Paço quase a correr e abre o batente de baetão verde do seu escritório. João de Deus que ali viveu, cofia a frondosa barba e medita versos. Cumprimenta Antero de Quental que desce do seu quarto andar no nº.135, perto da Praça da Figueira. Acenam ambos a Aquilino Ribeiro por ali se abriga de tempestades e a Alfredo Costa, um dos regicidas que nº. 20, 4º andar tem  o seu negócio de representações comerciais. O mestre e o carbonário alentejano vêm embrenhados numa discussão política. António Maria da Silva, líder de diversos executivos da I República, elemento da Alta Venda, órgão máximo da Carbonária Portuguesa, quase fora surpreendido pela polícia presidindo à cerimónia de catorze iniciações  maçónicas no seu escritório junto à esquina com a Rua de Santa Justa, sorri de alívio para o senhor Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, morador da rua e que viria a ter um filho, nascido para os lados do Carmo – um tal Camilo Castelo Branco. Alheio a escritores e seus pais, guarda livros e conspiradores, na esquina da Rua da Assunção, perto da adega O Cartaxeiro, encostado ao mármore da esquina, um moço de fretes oriundo do Porrinho, que com o boné exibindo a chapa profissional e com o rolo de cordas ao ombro, me vê sair do nº 107, rumo à escola 44 da Rua da Madalena, e diz «- Bom dia, Carlitos». É um filósofo. Mais para baixo, na Igreja de São Nicolau, usando um bibe, meu pai afadiga-se a compor uma redacção na escola da Igreja enquanto Gervásio Lobato, dispõe pelo escadório da fachada, na Rua da Vitória, as personagens do seu romance burlesco Lisboa em Camisa, gentes moradoras na Rua dos Fanqueiros. No cruzamento da Rua dos Fanqueiros com a de São Nicolau, a poucos metros da esquina com a Rua dos Douradores, fica o posto do Vale do Rio, do Abel Pereira da Fonseca. Um correspondente comercial de um escritório da Rua dos Fanqueiros entra e pede um bagaço – É para já Senhor Fernando – diz o marçano de guarda-pó  de cotim cinzento. Mas de todos estes, só Bernardo Soares, sabe ler a agitação que existe sob a superfície calma, o vulcão que remói vingança debaixo das pedras que pavimentam a rua. Murmura – Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores.

O moço de fretes que tem como base operacional a esquina com Rua da Vitória, confiou ao mestre Aquilino, quando bebiam um copo na  Adega de Santo António que disse em carta para a mulher: «A terra é boa, a xente é tola, a auga é deles e nòs vendemoslla». E sob a pala rígida do seu boné corporativo brilha o olhar de quem sabe o que quer. Cumprimenta poetas e regicidas, os padres que ensinam na escola de São Nicolau, escolares  que se dirigem às aulas. Alguns dos meninos e meninas que andam por ali virão a ser gente menos tola –  o menino Eduardo Brasão, que mora na Rua dos Fanqueiros por cima da alfaitaria de seu pai, será um grande actor; o menino Germano Sacarrão, que por ali habita, pois seu pai trabalha numa loja de solas, virá a ser um reputado cientista, amigo de Edgar Morin, professor catedrático da Faculdade de Ciências; a menina Hermínia que frequenta a Escola Primária Feminina da Rua da Madalena, será uma das grandes intérpretes do fado…

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Desde que me lembro, sempre encontrei galegos por perto. E as minhas primeiras recordações remontam a um tempo em que as feridas da Guerra Civil de Espanha ainda sangravam nos anos quarenta e, portanto, ainda havia imigração galega, pese embora a pobreza que grassava aqui por Portugal. A presença desses imigrantes era notória. Na Rua dos Douradores, quase todos os restaurantes eram de galegos. A Antiga Casa Pessoa, o Bessa, o Guimarães. Faziam parte da cidade, lisboetas como todos os outros. Mas ali, na zona oriental da Baixa, sobretudo as ruas mais modestas – Madalena, Fanqueiros, Douradores, Correeiros,  Sapateiros… – concentravam comércios (tascos e restaurantes) – em casas de andares superiores, em quartos e partes de casa alugados viviam famílias galegas. Era uma pequena Galiza, a «little Galiza», como diriam os norte-americanos.

No século XIX e no princípio do XX nem todas as casas de Lisboa tinham água corrente. Trabalho penoso que os portugueses não o queriam fazer, o dos “aguadeiros”; os galegos aproveitaram para criar aquilo a que chamaríamos hoje um «nicho de mercado».  Aliás, na literatura portuguesa da primeira metade do século XX, os galegos eram parte integrante da paisagem humana, principalmente em Lisboa. Eduardo Noronha, em Memórias de um galego, tem uma personagem que diz «Os portugueses vão para o Brasil, nós vamos para Portugal, é mais perto, melhor caminho e ganha-se mais dinheiro». Entre muitos outros, Fernando Assis Pacheco pertencente a uma família oriunda da Galiza e José Saramago, escreveram sobre galegos. Uma lista de referências literárias a tão simpática gente, não cabe nas características deste texto por demasiado extensa e já existe um bom trabalho, o de Rodrigues Vaz, Os Galegos nas Letras Portuguesas, (Pangeia Editora, Lisboa, 2008).Na tertúlia do café Gelo, que frequentei entre 1958 e 1960, havia um poeta galego de 2ª geração – o José Carlos González que colaborou no nº 2 da revista “Pirâmide”, de que já aqui falei. Era um bom poeta, com uma linguagem surrealista ou surrealizante.

Na escola primária tive diversos colegas galegos ou galegos de segunda geração e no Ateneu, onde estudei, também os meus dois melhores amigos eram, em graus diferentes, descendentes de galegos. O José González, filho de galegos, ambos do Porrinho e que terão vindo já adultos e casados. O José já aqui nasceu. Gente bem colocada, com duas excelentes alfaiatarias. O Jaime Camecelha, que, mais do que um amigo, foi para mim como um irmão, (faleceu em 2003) era descendente bastante mais remoto de uma família galega vinda, salvo erro, de Pontevedra para Portugal há muito tempo, talvez nos anos negros do século XIX. Era neto de Alfredo Camecelha, o primeiro atleta a ganhar uma prova para o Benfica (depois transferiu-se para o Sporting). Num torneio realizado em 1909, lançou o peso e fez também parte da equipa de luta de tracção nesse mesmo torneio. Ainda o conheci, na casa onde o Jaime vivia com os pais e irmãos, numa festa de aniversário por meados dos anos 50, tocando viola e cantando. Nascido em 1880, teria cerca de 75 anos, conservando uma grande jovialidade. Já nascera em Lisboa. Seu pai, sim, era um imigrante, nascido no Porrinho.

Quando éramos ainda estudantes, fomos os três à Galiza, o José, o Jaime e eu. Foi uma bela viagem. Recordo-me de, com o Jaime, pois o González tinha ido ao Porrinho, passear à noite pelas ruas de Vigo, surpreendidos com a alegria, com o bulício das ruas. Na Rua “Príncipe”, numerosas esplanadas com orquestras. Nada que pudesse ser comparado às bisonhas cidades portuguesas naquele final dos anos 50. Ao recolhermos à pensão, numa rua quase deserta cruzámo-nos com um padre de sotaina que ajudava um senhor de meia-idade, bem trajado, com uma grande bebedeira. Apesar dos esforços do padre para prosseguir, o senhor parou junto de nós e interpelou-nos. Dissemos-lhe que éramos portugueses e logo ele desatou a insultar Salazar e Franco. Lembro-me que filhos de puta foi das expressões mais suaves que lhes dedicou. Nós rimo-nos e o padre, muito perturbado, conseguiu arrastar o amigo ou familiar ébrio, dizendo-nos – Vão em paz! Vão em paz!

Não quero idealizar ou mitificar a realidade (as coisas são como são, foram como foram). Não vou dizer que os galegos não eram descriminados. Claro que eram. Pelo menos, alguns deles eram. Os pobres, os moços de fretes, por exemplo, eram-no não por ser galegos, mas por ser muito pobres. Os ricos eram respeitados, não por ser galegos, mas pela sua riqueza. E alguns tornaram-se mesmo muito ricos, como Manuel Boullosa que, nos anos 60 chegou a ter a quinta maior fortuna do mundo.  O adjectivo galego ganhou um sentido particular, pois significava trabalhador braçal «eu não sou nenhum galego» ou «hoje trabalhei como um galego». No Brasil, chamam galegos aos portugueses com sentido marcadamente pejorativo. E os dicionários testemunham esse sentido Depois da designação latina, gallaecu e da acepção mais imediata, antecedidos de fig. (figurado), lá vem: moço de fretes, indivíduo grosseiro, incivil… Galegada ou galeguice, grosseria. Note-se que estas entradas dos dicionários de há 60 ou 70 anos, persistem. No de José Pedro Machado, com edições sucessivas, as últimas das quais recentes e no de Houaiss (de 2003) que lhe acrescenta a qualidade de «amabilidade» dos brasileiros para com os portugueses – e com uma lista enorme de sinónimos – dezenas, onde figura portuga, sapatão, marreta…

Gente discreta, trabalhadora, espalhada por todo o leque social, os galegos, hoje indissoluvelmente misturados entre a população, formam uma comunidade honrada e prestigiada. Agora que já não há “aguadeiros” nem moços de fretes, os que ficaram são comerciantes, bem sucedidos na sua maioria. Só nos mais velhos, vindos durante a Guerra Civil ou antes, se nota ainda o acento típico. Os pobres regressaram à Galiza onde o nível de vida é superior ao de Portugal.

Os dicionários têm que compor novas entradas para galego, galegada, galeguice. E os brasileiros, se querem ofender os portugueses, têm de encontrar novo insulto – porque galego «virou» elogio. Fazendo parte da xente tola, sempre respeitei a comunidade galega e depressa aprendi que os galegos são gente séria e trabalhadora. Na empresa internacional onde trabalhei durante trinta anos, reportava directamente a um Administrador-delegado, um galego, sagaz, inteliugente e bondoso, com o qual muito aprendi. Gente séria, gente boa, sim, mas há excepções. Estou a lembrar-me de um galego de Ferrol…

 

 

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