ALEXIS TSIPRAS ASSINA O MALOGRO “DO NÓ CORREDIÇO ” EUROPEU – por ROMARIC GODIN

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 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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ALEXIS TSIPRAS assina o malogro “do nó corrediço” europeu

 Romaric Godin, Alexis Tsipras signe l’échec du “noeud coulant” européen

Tribune, Okeanews.fr, 1 de Junho de 2015

Numa rubrica publicada no jornal  Le Monde, o primeiro ministro grego mostra a sua determinação e coloca os credores frente a frente com as suas responsabilidades.

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O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras lança um desafio aos credores. (Crédits : FRANCOIS LENOIR)

Deixava falar mais à vontade os seus ministros, em especial o seu ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, que era sempre possível, seguidamente, desmentir. Desta vez, numa tribuna publicada sobre o sítio Internet do Le Monde, o primeiro-ministro grego envolve-se directamente. E não o faz por acaso.

Desenlace eminente

A partida de xadrez que se desencadeou com as eleições do 25 de Janeiro chega com efeito com este mês de Junho ao seu termo. Não somente o prolongamento do programa de apoio à Grécia decidido a 20 de Fevereiro se conclui a 30 de Junho, mas parece a partir de agora certo que o Estado grego não poderá honrar os quatro prazos de reembolso ao FMI para um total de 1,6 mil milhões de euros. Se a situação de incumprimento não intervier a 5 de Junho, terá lugar a 12…

Durante quatro meses, os credores da Grécia jogaram o contra-relógio esperando que, diante das dificuldades financeiras, o novo poder grego cederia às suas injunções. Também recusaram qualquer compromisso, rejeitando umas após outras, “as listas de reformas” apresentadas por Atenas e mantendo as suas exigências intactas. Esta estratégia foi sintetizada por Alexis Tsipras em Março numa das suas raras entrevistas ao Der Spiegel: “o nó corrediço.” À medida que o nó se aperta e que a asfixia financeira aumenta, a resistência grega vai reduzir-se.

A actualização da estratégia europeia

É precisamente a inversa que se produziu. Na sua tribuna, Alexis Tsipras mostra-se determinado. Inicia o seu texto por uma nova denúncia da impasse das políticas postas em prática pelos precedentes governos e impostas pela Troika, prossegue, recordando as concessões aceites pelo governo grego e termina recordando claramente que mantém as suas “linhas vermelhas”: não haverá cortes nas reformas e haverá efectivamente restabelecimento das convenções colectivas. E justifica a sua posição: porque é que a Grécia não deveria ser submetida às regras europeias em matéria do direito do trabalho? Como poderia aceitar reduzir ainda mais as pensões já diminuídas de 20 à 48% durante os anos de austeridade e que são necessárias à manutenção geral do nível de vida no país

Alexis Tsipras põe à nu todo o absurdo das exigências dos credores e toda a violência da sua estratégia “do nó corrediço. ” Portanto, coloca todos os seus credores  em face às suas responsabilidades: “É necessário por conseguinte dizer as coisas como elas são: se ainda não chegámos a um acordo com os nossos parceiros, não é devido à nossa intransigência ou à tomada de posições incompreensíveis da nossa parte. Tudo isso se deve sobretudo à obsessão de certos representantes institucionais que insistem sobre soluções insensatas ou ainda mostrando-se indiferentes em relação ao resultado democrático das recentes eleições legislativas na Grécia bem como em relação às posições de instituições europeias e internacionais que se dizem prontas para fazer prova de flexibilidade para respeitar o veredicto das urnas.”

Quem deve «voltar a pôr os pés na terra»?

A situação é então completamente invertida. Não é pois a Grécia que deve estar a mendigar um acordo, não é pois o governo grego que deve “voltar a pôr os pés na terra”, para retomar a fórmula insultuosa muito em voga na imprensa em Fevereiro e em Março na imprensa europeia, mas sim os credores. A partir de agora, cabe-lhes a eles tomar consciência “da realidade” das concessões gregas e “da realidade” de uma economia grega sangrada pelo seu bloqueio. Cabe-lhes a eles, a partir de agora, assumir a sua parte nas concessões necessárias a qualquer compromisso aceitando “as linhas vermelhas” do governo grego. Alexis Tsipras não esconde, com efeito, a sua determinação.

A recusa da zona euro “em duas classes”

Sem nunca estar a evocar nem o Grexit, nem a situação de incumprimento (é a sua posição desde o início e seria suicida no contexto económico e financeiro actual), o primeiro ministro grego coloca em questão os partidários “da linha dura” de irem até ao fim. Fá-lo colocando-se não ao nível económico, mas ao nível político. Para ele, fazer ceder a Grécia significaria criar uma zona euro  duas velocidades, com “um coração” que ditaria a sua lei: “as regras duras de austeridade e de ajustamento” e “um super ministro das Finanças” que imporia estas “regras”, com desprezo das escolhas dos povos envolvidos. Ora, Alexis Tsipras não esconde que esta opção é para ele “o início do fim” da zona euro. Por outras palavras, a Grécia não parece estar disposta a participar neste objectivo. Compreendam mesmo por meias palavras: a permanecer numa tal zona euro.

E Alexis Tsipras continua a falar sobre esta estratégia efectuada pelos credores dizendo que “comporta grandes riscos e os que apoiam esta estratégia devem ter disso consciência ”, nomeadamente a inauguração “de um processo de incerteza económica e política que poderia também transformar completamente os equilíbrios no conjunto do mundo ocidental.”

Muito claramente, o primeiro-ministro grego faz aqui referência ao Grexit e às suas consequências. Faz-se eco das apreensões de numerosas economistas e dos dirigentes americanos. A conclusão da tribuna onde Alexis Tsipras faz referência à obra de Hemingway “por quem os sinos dobram ” é sem equivoco: assumir o risco de empurrar a Grécia para fora da zona euro, seria, para os Europeus, estar a cavar também o túmulo da zona euro. Seria assumir um risco considerável.

O primeiro ministro grego apresenta por conseguinte uma escolha política: construir uma zona euro solidária ou uma zona euro que exclui. Esta escolha, na leitura da tribuna de Alexis Tsipras, a Grécia parece já a ter feito. Cabe agora aos líderes europeus fazerem a sua opção. E de avaliar os riscos associados. “A decisão deixou de assentar entre as mãos das instituições que, com excepção da Comissão europeia, não são eleitas e não dão contas aos seus eleitores, mas entre as mãos dos dirigentes da Europa.”

O desafio lançado por Atenas

Este movimento táctico de Alexis Tsipras é particularmente hábil. A partir de agora, é ele que fixa as regras do jogo. Parece determinado, custe o que custar, a acampar sobre as suas posições. O tempo joga actualmente contra os credores que devem fazer uma escolha onde serão perdedores em todos os resultados possíveis: ceder a Atenas será uma derrota política, apesar das concessões gregas, mas empurrar a Grécia para o Grexit será um desastre. “O nó escorregadio”, pela capacidade surpreendente de resistência de Alexis Tsipras voltou-se, pois, contra os seus adversários. Se a Grécia é lançada para o desconhecido, ela leva com ela a zona euro, diz-nos Tsypras. Alguns consideram que não será o caso. Mas os líderes europeus estão prontos para tentar a experiência? Estão prontos para assumir tomar o risco de “testar” os famosos “corta-fogos” que nunca foram testados? Estão eles prontos para criar um precedente e para porem um fim à irreversibilidade do euro? Alexis Tsipras coloca-se na posição do Conde de Anteroches em  Fontenoy e proclama: “Senhores credores, sejam os primeiros a disparar!”

Apelo a Angela Merkel

Esta tribuna dirige-se também directamente à Angela Merkel. A crítica da intransigência e dos objectivos dos credores é realmente uma crítica ao seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble que nunca escondeu a sua preferência para o Grexit. Alexis Tsipras envia por conseguinte esta mensagem à Berlim: Wolfgang Schäuble pode “ganhar”, pode alcançar os seus fins se não for parado pela chanceler, porque a Grécia não se vergará à chantagem. Não pode por conseguinte continuar a ser utilizado como simples “ameaça” destinada a assustar a Grécia. Daí este apelo de Alexis Tsipras de se resolver o problema grego ao nível dos chefes de governo. Se Angela Merkel não tomar a situação em mãos, se deixar que seja Wolfgang Schäuble a decidir, então porá em perigo o projecto europeu. Ora, o primeiro-ministro grego sabe efectivamente que ela não o quer. Decididamente, Alexis Tsipras acaba de dar uma bela lição de estratégia a todos os governos europeus: é possível resistir a Angela Merkel. Para alguns, como François Hollande, a lição é sem dúvida muito cruel…

Romaric Godin, Tribune, ALEXIS TSIPRAS SIGNE L’ÉCHEC DU “NOEUD COULANT” EUROPÉEN. Publicado igualmente por OkeaNews.fr. Texto disponível em :

http://www.okeanews.fr/20150601-alexis-tsipras-signe-lechec-du-noeud-coulant-europeen

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