ELEIÇÕES ITALIANAS – REGIONAIS ITALIANAS: RENZI LIBERTADO, MAS RENZI PRESSIONADO CONTESTATÁRIOS E A LIGA DO NORTE GANHAM TERRENO – por MAURO ZANON

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota 

mapa itália

Regionais italianas: Renzi libertado, mas Renzi pressionado

Contestatários e a Liga do Norte ganham terreno

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Mauro Zanon, Régionales italiennes: Renzi libéré, mais Renzi bousculé – Frondeurs et Ligue du Nord gagnent du terrain

Revista Causeur.fr, 3 de Junho de 2015

renzi -IV

No número 16, rue Sant’Andrea delle Fratte, a sede romana do Partido democrata (PD), não se cansam de o repetir : “Cinco vitórias contra duas, é um excelente resultado”. E no entanto, de acordo com os prognósticos do presidente do Conselho italiano, Matteo Renzi, e dos seus colaboradores mais próximos, as eleições regionais de Domingo teriam de dar à esquerda sete regiões e zero  à direita. Não foi este o caso. O incurável optimismo do jovem líder democrata teve que se  confrontar com a dura realidade de um partido, o seu, que está em franca agitação por todos os lados. Primeiro, a subida em força de uma ala esquerda sempre mais agressiva  e mais eficiente. Seguidamente, uma Liga Norte que – graças ao talento de mobilização de Matteo Salvini – que se tornou em dois anos o primeiro partido da direita na Itália. Mas também um Berlusconi ressuscitado por uma cara que inspira confiança, a do seu porta-voz, Giovanni Toti. E, por fim, o  Movimento 5 estrelas que se profissionaliza e prossegue no seu enraizamento popular, embora o seu fundador e líder carismático, Beppe Grillo, se distancie cada vez mais.

Os 41% de sufrágios obtidos nas últimas eleições europeias não são  hoje mais do que uma remota lembrança para Renzi. Durante a campanha eleitoral, bem insistiram que o voto de Domingo “não era um teste sobre Renzi  ”. Isso não impede o seu partido, “a esquerda que ganha”, como ele se tinha corajosamente apresentado e com um toque de arrogância à saída do triunfo eleitoral do ano passado, de perder quase 2 milhões de votos em doze meses. O seu dinamismo febril e a sua exuberância reformadora sofreram, neste fim de semana, uma travagem significativa na sua marcha política. Certamente, Renzi procede como se nada se tenha passado, mantém o seu sorriso e para fugir aos editoriais venenosos assim como às perguntas embaraçosas dos jornalistas italianos, apanhou ontem, de forma muito discreta, um avião para o Afeganistão, a fim de festejar hoje em  Harat, ao lado do contingente italiano aí presente, o dia nacional da República italiana

À escala nacional, a votação no Partido democrata nas eleições regionais estabiliza em 23,7%, à frente do M5S, 18%, da Liga do Norte, 12,5%, e de Forza Italia, 10,7%. Não obstante o seu terceiro lugar, o partido de Salvini foi o único a ganhar votos, de acordo com o relatório do Instituto Cattaneo: mais 786.000 eleitores , o que lhe permitiu ultrapassar a Forza Italia. Mas é necessário uma análise mais detalhada destes resultados eleitorais, começando por Púglia. Para o candidato democrata Michele Emiliano, na região do sudeste da Itália, é a crónica de uma vitória anunciada. O ex presidente da câmara municipal de Bari, que pode ser tudo menos um “renzista” (e poderá tornar-se mesmo um adversário frontal de Renzi nas próximas semanas), pôde facilmente aproveitar-se do ajuste de contas em Forza Italia, com a lista dissidente de Raffaele Fitto, deputado europeu contestatário, que impediu o caminho do candidato berlusconista Francesco Schitulli, chegado em terceira posição atrás do “ grillino” Antonella Laricchia. Na região das Marcas como na Toscana, bastião eleitoral de Renzi, os candidatos PD, respectivamente Luca Ceriscioli e Enrico Rossi, desembaraçaram-se sem muita angústia dos seus adversários. Pelo contrário, em Úmbria, feudo histórico da esquerda, o renzista Catiuscia Marini ganhou por muito pouco (3% mais) ao opositor do partido de Berlusconi, Claudo Ricci. E na Campânia, Vincenzo De Luca, apesar da sua vitória à justa contra o candidato de direita Stefano Caldoro, arrisca-se a ver a sua eleição “suspensa” devido a uma condenação por “abusos de poder”.

Mas para Renzi, os verdadeiros problemas vêm do Norte. Se em Veneza, terra de predilecção da Liga do Norte, a razia eleitoral sofrida por Alessandra Moretti era bem previsível (“o liguista” Luca Zaia obteve 50,08% dos vozes, Moretti apenas 22,74%), é na Ligúria, a região “vermelha” desde sempre, que o presidente do Conselho faria bem em começar a inquietar-se. Renzi atribuiu a responsabilidade da derrota da candidata Raffaella Paita “ à esquerda masoquista” (a ala esquerda do PD, que é a oposição interna à viragem neoliberal realizada por Renzi desde que chegou ao Palazzo Chigi) que, com uma lista dissidente dirigida por Luca Pastorino, fez com que ganhasse o candidato do partido de Berlusconi, Giovanni Toti. Mas infelizmente para Renzi, esta contestação não é somente uma realidade local, a de Ligúria. Está a tomar cada vez mais forma ao nível nacional. De acordo com o Corriere della Sera, Pippo Civati, líder dos contestatários do partido de Renzi e o principal patrocinador do dissidente Pastorino na Ligúria, está em vias de oficializar o nascimento de “Possibile”, variação italiana do Podemos espanhol.

Stefano Fassina, um dos tenores da ala esquerda do PD, ameaçou de uma cisão imediata, se não houver  uma correcção da política económica do partido e um recuo sobre a muito criticada reforma da escola. “As mulheres traíram Renzi”, comentou o diário liberal-conservador Libero, ao referir-se à espantosa derrota sofrida pela “amazona” Alessandra Moretti, e pelo segundo lugar de Raffaella Paita, que permitiu ao candidato de Berlusconi, Toti, ganhar a presidência da Liguria. “O giglio magico” (lírio mágico) do presidente do Conselho, como lhe chama o círculo dos seus principais acólitos, transformou-se de repente “em lírio trágico”, mas é pouco provável que Renzi concretize uma remodelação das equipas dirigentes do Partido democrata. O jovem presidente do Conselho italiano faria bem, não obstante, em supervisionar com mais atenção a sua ala esquerda, a fim de evitar umas muito delicadas eleições políticas antecipadas.

Mauro Zanon,  Revista Causeur, Régionales italiennes: Renzi libéré, mais Renzi bousculé -Frondeurs et Ligue du Nord gagnent du terrain.

Texto  disponível em:

http://www.causeur.fr/elections-regionales-italie-renzi-33121.html

*Photo : Francesco Bellini/AP/SIPA/AP21742863_000005

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