PORQUE É QUE TSIPRAS SUBSTITUIU VAROUFAKIS – por LUDOVIC FILLOLS

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 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Yanis-Varoufakis-Berlin-2015-02-05

Porque é que  Tsipras substituiu  Varoufakis

Ludovic Fillols, Pourquoi Tsipras a répudié Varoufakis

Revista Causeur.fr, publicado a 6 de Julho de 2015

Varoufakis vai-se embora depois de uma  última acção verdadeiramente importante. Muito cedo, esta  manhã, soube-se  da partida do ministro grego  das Finanças. Surpreendendo, até porque a vitória do Não  deixava prever o regresso em força deste economista popular na Grécia mas que se  tem tornado fortemente  indesejável nos centros europeus do poder.

Foi  no seu blog que Varoufakis explicou as circunstâncias desta demissão: “Pouco depois do anúncio dos resultados do referendo, informaram-me  que certos membros do Eurogrupo, e “os parceiros” associados, (…) prefeririam que eu esteja  ausente das reuniões; uma ideia que o Primeiro ministro julgou potencialmente útil à obtenção de um acordo. Por esta razão deixo o ministério das Finanças hoje”. Por outras palavras, Varoufakis teria visto a sua cabeça cair a pedido dos  parceiros europeus que já não suportavam  as suas intervenções orais.

Fechando-se na provocação, Yanis Varoufakis não soube adaptar-se  aos debates agitados mas claramente mais polidos entre o seu governo e os credores do seu país. Contudo, apesar dos pedidos repetidos de fazer cair a cabeça do seu ministro, Alexis Tsipras sempre se tinha recusado a fazê-lo.

Mas a atitude fanfarrona  de Varofakis ontem à noite lançou um frio definitivo entre os dois governantes.  Depois do anúncio da vitória do Não , Varoufakis com efeito foi à tribuna para falar à multidão. Ora, Alexis Tsipras considerava que deveria ser o primeiro a dirigir-se ao povo, protocolo obriga.

Ao jornal Le Monde, o politólogo grego Elias Nikolakopoulos descreve a reacção do primeiro ministro grego: “Tsipras estava furioso com  o que o ministro das Finanças grego  fez ontem à noite. Varoufakis falou num tom de quem está a dar uma lição  e triunfalista  enquanto que o Primeiro ministro esperava pacientemente a sua vez  para lançar uma mensagem medida e de apelo à união nacional. Aquilo não se faz! ”.

Estas pequenas loucuras do economista, que podiam seduzir quando eram dirigidas contra as instituições europeias, ter-lhe-ão valido pôr-se de costas não somente face à Troika mas também  face ao seu Primeiro Ministro. Triste balanço para um intelectual que terá trocado a acção pelo  espectáculo.

Ludovic Fillols, Causeur.fr, publicado em 6 de Julho de 2015, com o título  Pourquoi Tsipras a répudié Varoufakis. Texto disponível em: http://www.causeur.fr/varoufakis-tsipras-grece-33678.html

 

1 Comment

  1. Discordo completamente.
    Varoufakis pertence a uma espécie que, com os anos, fui verificando ser muito mais rara do que eu gostaria. E que, pela sua raridade, mas, sobretudo, devido a evidenciar, por contraste, a mediocridade maioritariamente reinante, é um incómodo para as inumeráveis vulgaridades predominantes nas instituições, políticas e não só. Vulgaridades que têm, no entanto, algumas qualidades: um incansável afã carreirista, uma insuperável tendência para a submissão oportuna, uma notável capacidade para reproduzir, sem sobressaltos nem desvios, o que lhes enfiaram nas tolas e que é avaliado como competência profissional pelos incapazes mais graduados, tudo culminando no incansável e persistente labor de perpetuação do “status quo”, suporte da carreira ascensional que almejam seguir até à perigosa suma-incompetência. Qualidades que, afinal, caracterizam os autómatos da “troika” ou os lacaios de serviço no “eurogrupo”: apenas exemplos de múltiplas instituições onde este gado pasta e se multiplica.
    O que é curioso – e agora verifiquei – é que esta espécie incomoda gente das mais diversas profissões e actividades, onde avultam (porque não devia assim acontecer) os jornalistas, cujas referências aos “defeitos” varoufáquicos – há-de tê-los, como todos os seres humanos, mas não são estes – se espraiam, inclusive, pelo pretenso “espectáculo” ou pela crítica ao vestuário, dissidente do engravatado cinzentismo onde as incompetências tentam dissimular-se.
    É difícil, para as vulgaridades, aceitar um sujeito excepcionalmente inteligente, competentíssimo na sua actividade profissional, cultíssimo (que comete o pecado de frequentar acontecimentos culturais, sobretudo se nocturnos – credo!) e – horror e danação! – plenamente consciente, não da sua superioridade, mas simplesmente daquilo que é e não tem vontade de esconder, nem por falsa modéstia, nem para encobrir as imensas mediocridades circundantes. É-lhes penoso conviver com um sujeito que se veste sem pretensões – mas não tenta fazer de conta que é pedinte, pois o que persegue é a dignificação de todos -, se desloca como lhe apetece, age como lhe dá na gana (sem quaisquer intenções de ofender seja quem for) e se está nas tintas para o que a imbecilidade reinante pensa dele, porque sabe O QUE É e, simplesmente, procede em conformidade – com ele próprio e não com as normas pacóvias que outros seguem, sem pararem para pensar no seu significado histórico, social e eminentemente classista. É-lhes, sobretudo, árduo o confronto com alguém que tem plena consciência do frágil e datadíssimo valor das convenções sociais acumuladas, ao longo dos tempos, pelos interesses, pelas vaidades e pelas necessidades exibicionistas das classes dominantes. Alguém que, naturalmente, não respeita o que não merece ser respeitado, nem acata o que não deve ser acatado: o falso, o supérfluo, o superficial, o inútil.
    E, assim, transforma-se esse desprendimento dos ditames meramente sociais em “espectáculo”. De facto, alguém que é demasiado diferente dos rebanhos de acomodados por aí pululam torna-se inevitavelmente, pela sua raridade, num espectáculo. Alguém que tem uma personalidade assertiva e pouco complacente com as parvoíces de quem tem a obrigação de assumir coerentemente responsabilidades políticas de extrema exigência (nada do que aconteceu, neste caso, por parte dos dirigentes europeus, nenhum dos quais alcança os calcanhares daqueles que, a seguir à guerra, ajudaram a formar uma Europa que os actuais se vão afadigando em destruir), transforma-se numa aberração para os que evitam possuir algo a que se possa chamar personalidade. Mas, curiosamente, exigem-lhe aquela pseudo-coerência parva de, para defender os desvalidos, ter de ser (ou armar-se em) desvalido. Um jornalista do Público criticou o facto de Varoufakis poder demitir-se à vontade, por ter sempre à espera um emprego em várias universidades de prestígio (pois… porque será?), de viver num apartamento “de luxo” com vista para a Acrópole e de vestir uma ou outra coisa “de marca” (o famoso cachecol? – também há um cá por casa e ninguém foi contemplado com nenhuma herança). Mais ou menos as razões (o tal “espectáculo” e outras picuinhices) que levariam o tal jornalista a “não lhe comprar um carro”…
    Aceita-se, no entanto, com virginal ingenuidade, o (previsível) desagrado dos infelizes, incompetentes, mal-fornicados e ignaros membros de uma coisa ilegal, sem regras definidas e mergulhada em culposo secretismo, como o “eurogrupo” (a que se pode juntar, harmoniosamente, a virgem parda do FMI) – que, como Varoufakis afirmou e não foi desmentido, não quer falar de economia, faz orelhas moucas a propostas gregas para, depois, proclamar que os gregos não apresentaram propostas, e, claramente, nunca quis negociar nada, mas simplesmente “vacinar” os povos europeus contra os “perigos” do exercício pleno da Democracia (da qual, de facto, não gosta).
    Embora entenda a posição prudente de Tsipras, quando confrontado com uma situação de extrema gravidade, pelo que não faço dele um inimigo ou traidor, continuo na dúvida sobre os efeitos benéficos de uma actuação mais agressiva, depois da vitória do “não”, segundo um plano (não esta parvoíce que agora surgiu, enésima tentativa para desacreditar Varoufakis: esqueçam, isso é para a carneirada com que estão habituados a lidar) do ex-ministro das finanças grego. Continuo a pensar que os gregos poderiam ter pregado um susto muito maior (e eficaz) aos encolhidinhos da “euro”. E obter algumas vantagens. Mas a realidade não sofre objecções, nem aceita remendos.
    Para abreviar. O grande “problema” de Varoufakis é o medo e a inveja dos que lhe são inferiores – sobretudo, no carácter -, porque são incapazes de deixarem de o ser. O resto é treta.
    Acontece que eu estou muito longe da sua dimensão intelectual. Mas, no que se refere à consciência do que sou, ao meu inalienável direito a ter uma personalidade própria e assumi-la, em todas as circunstâncias, sem vénias a ninguém, e à minha total indiferença pelo que disso outros pensam, em nome de convenções circunstanciais, arbitrárias e, sobretudo, irracionais, fui e sou tal o qual este famigerado criminoso. Pelo que tudo o que pretenda denegri-lo, baseando-se sistematicamente em tolices do género das que têm sido difundidas, não me comove minimamente. Dá-me é uma imagem pouco lisonjeira de quem deita mão de tais parvoeiras.

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