ENTREVISTA COM ALAIN DE BENOIST – “AO FIM E AO CABO, O VOLTE-FACE DE ALEXIS TSIPRAS EXPLICA-SE MUITO BEM” – por NICOLAS GAUTHIER

mapagrecia6 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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«Ao fim e ao cabo, o volte-face de Alexis Tsipras  explica-se muito bem»

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Entrevista com  Alain DE BENOIST,  Finalement, la volte-face d’Aléxis Tsípras s’explique très bien http://r.ad6media.fr/adre.php

 Boulevard Voltaire, Metamag,  1 de Agosto de 2015

Já não se compreende grande-coisa quanto ao que se passa na Grécia. Graças  ou por causa de Alexis Tsipras, os Gregos votaram maciçamente “não” aos diktats aquando do referendo de  5 de Julho, mas dois dias depois o mesmo Tsipras aceitava submeter-se a medidas ainda mais coercivas…

No dia  5 de Julho, os Gregos disseram não, massivamente  não, à política de austeridade imposta pela União europeia. É a primeira vez que um povo é chamado a pronunciar-se sobre o molho com o qual irá ele próprio ser comido. Mais precisamente, é a primeira vez que um povo teve a possibilidade de se pronunciar politicamente sobre uma doutrina económica, neste caso sobre a dogmática da ortodoxia neoliberal  imposta pelos credores usurários  da oligarquia mundial. Não é nada. E este dia  permanecerá uma data histórica, independentemente do que se passou em seguida. Exactamente como “o não” francês do 29 de Maio de 2005, que também foi escarnecido.

A reviravolta de Alexis Tsipras surpreendeu todos, mas ao fim e ao cabo explica-se muito bem. Tsipras não queria deixar a zona euro, e os Gregos também não. Ora, a manutenção na zona euro implicava a austeridade. Querer conservar o euro sem ter a austeridade, é como que resolver a quadratura do círculo. Face às exigências sempre mais duras do Eurogrupo e da  Troika, Alexis Tsipras tinha somente como  escolha  virar a mesa de pernas para o ar ou passar por baixo dela. Não querendo virar a mesa, bastou  ameaçá-lo de se  expulsar o seu país da zona euro para o levar a capitular.

Uma moeda única é viável apenas entre países de estrutura e de nível económico comparáveis, ou então como moeda de uma  Europa politicamente unificada, o que é  hoje inexistente, com o que esta situação implicaria de  transferências financeiras entre os  países mais ricos e mais pobres. A Grécia nunca deveria ter entrado no euro  porque a sua economia não pode funcionar com uma moeda que é apenas um marco aplicado a um grande espaço.

E agora, que se vai passar?

Parte-se novamente para uma outra volta.    Em vez de se  reestruturar a dívida grega, o  que teria implicado perdas para os banqueiros que têm investido nesta dívida, vai-se continuar a atribuir novos empréstimos a uma entidade em falência com,  por outro lado,  exigências de uma amplitude nunca vista, que poderão ser satisfeitas apenas ao preço de um novo e mais grave empobrecimento, com uma nova baixa das receitas  fiscais, uma deflação que sobrecarregará o peso da dívida, sem nenhuma possibilidade de correcção da situação nem possibilidade de proceder às reformas de estrutura necessárias.

Os papagaios que repetem posições assumidas em cafés  podem efectivamente discursar sobre  “a preguiça ” dos Gregos e sobre “o desperdício em salários pagos aos  funcionários”. Estes papagaios fariam melhor em   consultar os números da OCDE. Em 2014, os Gregos trabalharam em média 2.042 horas, ou seja mais que os Franceses (1.489 horas) e que os Alemães (1.371 horas). Em 2011, os funcionários representavam na Grécia 8% do emprego, contra 11% na Alemanha. Realmente, Joseph Stiglitz e Paul Krugman, ambos prémios  Nobel de Economia, disseram-no com clareza, e o antigo ministro Yánis Varoufákis não cessou também de recordá-lo, a economia grega desmoronou, não apesar de, mas exactamente por causa das  medidas de austeridade que lhe foram impostas.  As mesmas causas a produzirem os mesmos efeitos, reencontrar-se-ão  em  muito pouco tempo  exactamente na mesma situação que anteriormente. O FMI prevê já que a taxa de dívida atingirá daqui a  dois anos 200% do PIB. Daqui até lá, uma crise política é  mais que provável. Como  dizia  Philippe Muray, “o real é adiado para  uma data posterior ”.

Mas colocando a Grécia sob tutela política, administrativa e financeira, através de um verdadeiro golpe de Estado de facto, a União europeia revelou igualmente o seu verdadeiro rosto. “A Declaração” adoptada em Bruxelas no dia 12 de Julho é a esse respeito inequívoca: “O governo [grego] deve consultar as instituições [europeus] e convir com elas de qualquer projecto legislativo nos domínios em causa  antes de os apresentar à consulta pública ou ao Parlamento. ” Sabia-se  já, graças “ao teorema de Juncker” (“ não se podem fazer  escolhas democráticas contra os tratados europeus”), que a ideologia dominante assenta  sobre este princípio simples: que os constrangimentos económicos e sociais estabelecidos pela oligarquia não podem em nenhum caso ser alterados por quaisquer  resultados eleitorais. Vê-se agora, os resultados do referendo transformados exactamente no seu  contrário  por uma espécie de diktat de Versailles ao contrário (“a Grécia pagará! ”), que o resultado lógico da ortodoxia neoliberal  é bem o de fazer desaparecer todas as soberanias políticas em proveito  de uma coligação de poderes privados  e de transformar as nações europeias em tantas colónias ou protectorados submetidos  “à política da canhoneira” das firmas multinacionais e dos mercados financeiros.

“No desenlace” desta negociação  qual  terá sido  o papel desempenhado  por Barack Obama? Em qual medida a Grécia pode figurar na  agenda da Casa Branca?

Obama é um pragmático: o acordo que  acaba de negociar com o Irão é a prova, da mesma maneira que a sua decisão de pôr fim ao bloqueio contra  Cuba. Da mesma maneira que os líderes da União europeu, mais do que um contágio financeiro da crise grega, é um contágio político e ideológico que ele  teme. Por último, Obama  sabe que a Grécia é um país chave da OTAN, e quer impedi-lo de se voltar  para Moscovo. No caso de não ter sucesso, se a situação continuar a deteriorar-se, os Estados Unidos não hesitarão a suscitar um golpe de Estado militar. O parakratos, “o Estado subterrâneo” posto em prática na época da guerra fria pelos serviços americanos, este “para-Estado ” que se tinha visto  mobilizar na altura  da triste ditadura dos coronéis, está  longe de  ter desaparecido.

Entrevista realizada por Nicolas Gauthier

Entrevista com Alain de Benoist- « Finalement, la volte-face d’Aléxis Tsípras s’explique très bien ». Texto publicado por Boulevard Voltaire e por Metamag. Texto disponível em :

http://www.bvoltaire.fr/alaindebenoist/finalement-volte-face-dalexis-tsipras-sexplique-tres-bien,196699

Nota de tradutor. Alain Benoist  é um dos fundadores,  em  1968, do  Groupement de recherche et d’études pour la civilisation européenne (GRECE), —principal movimento  da corrente que os média baptizaram de « Nova Direita » . Hoje é  o principal representante da Nova Direita francesa…

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