E agora, Die Welt o que vão escrever sobre os gregos? – por Romaric Godin

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

E agora, Die Welt o que vão escrever sobre os gregos?

Grécia : quando a imprensa alemã derrapa

Romaric Godin

La Tribune, 16 de Junho de 2015

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Die Welt é um jornal alemão conhecido pelo seu conservadorismo. Muito próximo do CDU, este diário faz parte do grupo Springer que detém igualmente o potente e muito popular Bild Zeitung. Die Welt é, em certa medida, a tendência “respeitável” de Bild, mas desenvolve frequentemente ideias similares. Die Welt é muito frequentemente também italofóbico e abertamente francofóbico e é evidentemente absolutamente anti-helénico. Este jornal acaba de dar ainda há quatro dias um exemplo flagrante num artigo que comove as redes sociais na Grécia e na Europa.

 

Destruidores da bela ordem europeia

O artigo tem como titulo: “a Grécia já uma vez destruiu a ordem europeia” e evoca a guerra de independência grega, guerra que durou oito anos de 1822 à 1830 e que permitiu o nascimento do reino da Grécia após quatro séculos de dominação otomana. O autor parece lamentar o facto que esta revolta popular, que foi severamente reprimida pela Sultão, depois finalmente vitoriosa graças à ajuda da França, da Rússia e da Inglaterra, tenha destruído o sistema posto em prática pelo chanceler austríaco depois da queda de Napoleão, aquando do Congresso de Viena, em 1815. Como o recorda o autor, Metternich tinha posto em prática, na Europa, um sistema de repressão de todas as revoluções e que era de uma grande violência. Na Itália, uma tentativa de revolta tinha sido esmagada em 1821. Na Espanha, a França enviava 100.000 homens (“os 100.000 filhos de São Luis”) destruir os Cortès de Cádis. Mas o levantamento grego foi permitido e, melhor, apoiado pelas potências. Ora, de acordo com Die Welt, isto destruiu a ambição de Metternich “de uma paz eterna. ” Porque, explica o autor, a vitória da revolução grega conduziu a que, em 1830, “a França, a Itália e a Polónia estivessem por sua vez agitadas. ”

Os gregos, agentes do caos ?

Esta visão é bastante arrojada. Porque a ordem de 1815, realmente, durou até 1848. Sobretudo, era uma ordem odiada pelos povos, uma ordem militar e reaccionária que negava o contributo da revolução francesa sobre o velho continente. O autor poderia ler algumas páginas de Stendhal, por exemplo, na Cartucha de Parma, para se convencer disso mesmo. Descobriria assim o que era a violência diária da sua ordem europeia. Uma ordem que só se mantém pela violência é uma ordem precária, e o conservadorismo de Die Welt parece às vezes cegá-lo. Os Gregos por conseguinte terão sobretudo feito um bom serviço à Europa rejeitando esta ordem.

De resto, a Grécia cristã foi apoiada pelos defensores da ordem europeia antes de o ser pela esquerda de então. Os Românticos que, então, sonham de nobreza e de cavalheirismo (convença-se pela leitura da ode a Charles X de Victor Hugo) foram os principais defensores dos Gregos. O argumento dos Gregos perturbadores não tem realmente pés nem cabeça. O autor esquece-se evidentemente de recordar que a Grécia independente foi posta rapidamente ao passo pelas Potências que suprimiram a sua constituição liberal e puseram sobre o trono um soberano bávaro de 18 anos com os poderes absolutos! Estranha vitória do caos.

O erro do filo-helenismo

Mas o pior não está aqui , de acordo com o diário alemão. O pior, é a vitória do “filo-helenismo.” O levantamento grego tinha provocado em toda a Europa um impulso de solidariedade para com os Gregos revoltados. Os intelectuais da época tinham tomado massivamente posição a favor da independência grega. Restaram algumas obras-primas: a invocação para os Gregos de Lamartine, algumas páginas das memórias Outre-Tombe, os poemas de Byron, morto em Missolonghi combatendo com os Gregos ou ainda o Massacre de Chios de Delacroix. Ora, para Die Welt, eis o erro da Europa, a verdadeira. “A vitória do filo-helenismo reforçou ainda ideais humanistas enganadores. A representação segundo a qual os Gregos modernos são os descendentes de Péricles ou de Sócrates e não uma mistura de Eslavos, de Bizantinos e de Albaneses, foi para a Europa erigida num credo. (…) É por isso que se aceitaram os Gregos fanados no barco europeu em 1980. Pode-se admirar cada dia as consequências desta aceitação. ”

Em suma, Die Welt não se satisfaz em lamentar a vitória da revolta grega que destruiu esta tão bela ordem restabelecida pelo Congresso de Viena, pois considera igualmente que a composição étnica da Grécia moderna a desqualificava para entrar na União europeia. É uma ofensa ao povo grego, bem consciente que não é o povo da Antiguidade, mas que tem o orgulho em ser o seu descendente, mesmo “impuro.” O termo “bizantino” utilizado “na mistura” de Die Welt é bastante ambígua. Nenhum povo é o puro descendente dos povos antigos. Os Alemães também são o produto de uma mistura. E estão, com toda a razão, orgulhosos da sua cultura. Estranha visão da Europa que é aquela que vincula um problema financeiro à uma pureza racial. Os Gregos não são os descendentes em linha directa de Platão e é por isso que erradamente os aceitaram na Europa? Mas com tais métodos, quem é que seria Europeu? Quem mereceria estar na Europa de Die Welt?

 

Velha teoria dos Conservadores alemães

Na realidade, Die Welt retoma uma velha ideia alemã desenvolvida por Jakob Philipp Fallmerayer do Tyrol que desenvolveu na primeira parte do século XIX, no tempo da bela a ordem europeia, a teoria que os antigos Gregos tinham sido “ expulsos” da Europa e que os Gregos modernos eram apenas Eslavos, o que para ele era uma maldição. “ Não há a mínima gota de sangue grego não diluído que corra nas veias da população cristã de hoje na Grécia”, escrevia. Fallmerayer era então a coqueluche dos Conservadores alemães que não compreendiam nada deste pequeno povo turbulento que não queria o seu rei bávaro (de resto extremamente gastador) e que terminou por ser ele a ser expulso .

Die Welt actualiza esta teoria racista ao gosto da moda (“nem uma gota de sangue não diluído” a pôr em relação com “a mistura” de Die Welt que utiliza o termo decadente “de Bizantino” em vez de “ Grego”). Se há uma prova do malogro mais que evidente da gestão da crise hoje na Europa, é efectivamente o de se estar a ler de novo tais textos. Porque um pouco por toda a parte na Europa, no belo ambiente de tolerância e de humanismo que caracteriza a nossa época, aparece o ódio ao Grego, como se o Grego fosse o único povo que se poderia detestar sem temor.

 

Romaric Godin,  Grèce : quand la presse allemande dérape..Texto publicado por Tribune.fr e disponível em :  http://www.latribune.fr/economie/union-europeenne/grece-quand-la-presse-allemande-derape-484327.html

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