CARTA ABERTA A ANTÓNIO COSTA E AOS SOCIALISTAS DE TODOS OS QUADRANTES, por Júlio Marques Mota – II

júlio marques mota

(conclusão)

Vivemos num período crítico, onde a distância crítica face ao presente se impõe para não andarmos às cabeçadas ao real e a dizer que nos dói a cabeça por não o entendermos. Aqui por exemplo, um excerto de um texto de Santana Castilho, onde se confundem as coisas ou, alternativamente, onde estas se reduzem a números apenas e a perspectiva política se esvai na leitura destes números e de nada mais.  Diz-nos ele:

“ (…) O povo português é hoje o único na Europa a premiar com uma vitória eleitoral os responsáveis por quatro anos de austeridade desumana. Por falta de memória? Por medo? Seja por que for, há que respeitar a escolha.

Os portugueses escolheram perdoar à coligação, como se de nada relevante se tratasse, 19 violações da Constituição da República Portuguesa, decretadas pelo Tribunal Constitucional (entre elas, as relativas aos orçamentos de Estado de 2012, 2013 e 2014, Código do Trabalho, Código de Processo Penal, Código de Processo Civil, Rendimento Social de Inserção, requalificação dos funcionários públicos, despedimentos sem justa causa, cortes salariais na função pública e enriquecimento ilícito, por duas vezes).

Os portugueses escolheram passar uma esponja sobre um Governo que promoveu o empobrecimento generalizado e o agravamento das desigualdades sociais, presidido por um cidadão que incumpriu o que prometeu para lá chegar, mentindo repetidamente ao povo.

Os portugueses escolheram permitir a continuidade em funções de um Governo que incentivou a emigração de quase meio milhão de concidadãos em quatro anos, que vendeu os activos portugueses mais rentáveis, que paralisou a Justiça, que promoveu o declínio da escola pública e do Sistema Nacional de Saúde.

Os portugueses escolheram aceitar que os salários e as pensões continuem a ser cortados e as crises bancárias continuem a ser pagas com os impostos de todos. É certa a necessidade de recapitalizar o Novo Banco. Dizem os responsáveis, que os portugueses reelegeram, que o dinheiro virá do Fundo de Resolução. Digo eu que virá dos contribuintes e já disse a Comissão Europeia, há dias, que os impostos podem aumentar. A seguir virá o orçamento de 2016, altura para aparecer o corte de 600 milhões nas pensões, prometido à UE. E se a meta do défice não for cumprida em 2015, o que é provável, o reforço da austeridade em 2016 é óbvio. Assim votaram os portugueses, que não terão de que se queixar.

Os portugueses escolheram as propostas da coligação sobre o decantado plafonamento, significando isso a descapitalização do sistema público, com o consequente corte de pensões e subsídios, a bem da sustentabilidade.”

Não, o povo português é exactamente como o povo inglês, como o francês, como o italiano, como o grego, etc. Está manipulado, anestesiado, intoxicado até à medula pela campanha de manipulação e desinformação organizada interna e externamente. É isto o que se passa, e é isso que deve ser dito e deve ser dito igualmente que mesmo assim …mesmo assim votou maioritariamente à esquerda. Ou será que Bloco de Esquerda e PC não contam, ou seja, que os seus votos não são votos de portugueses? Que o CDS pense assim, percebe-se. Mais que isso, não. Não me parece que seja isso, não, tenho certeza que não é nada disto, dado o perfil de grande honestidade política de Santana Castilho. É apenas uma visão curta do mundo dos possíveis, mundo este que António Costa está a querer descobrir e a querer depois tornar numa realidade para todos nós portugueses, exactamente massacrados por tudo aquilo que nos diz Santana Castilho e também por muito daquilo que no texto não é dito, pois trata-se de exemplos e não de uma análise exaustiva.

Chegados aqui, desejo-lhe, camarada António Costa, muita sorte no combate que é o seu, e cujos resultados serão os de todos nós. Este combate pode ser curto, pode ser longo, e tudo parece mostrar que vai ser muito longo e que o seu caminho, caro Camarada, há-de estar, quase que passo a passo, semeado de ratoeiras mortais. Resistência, honestidade e lucidez é o que se lhe exige, são qualidades que o povo reconhece, esse povo que parece ter o futuro suspenso da sua boa ou má sorte, caro Camarada. Essas qualidades, tem-nas, utilize-as então a fundo.

Chegados aqui, faço meu um texto de Régis de Castelnau, da Revista Causeur, dedicado a Alexis Tsipras, escrito a 3 de Julho e relativo ao grande combate que o esperava em 12-13 de Julho com os monstros que na Europa a  governam, e nos desgovernam, texto este  sujeito às  necessárias adaptações:

Passou a ser o alvo de um enorme desencadear de ofensas dos pequenos Marqueses, de que a vulgaridade febril testemunha o temor que inspira. Iniciou agora dificílimas negociações que já são uma boa confirmação, do que já se sabia, que mostram uma capacidade de diálogo político surpreendente. E agora quer estar em conformidade com o voto do seu povo, procurando um outro arco da Governação, uma Coligação que responda aos desejos do grande eleitorado. E face ao que já se está a passar, face ao que se espera venha a passar neste nosso martirizado país por quatro anos de desgovernação absoluta. tudo isto faz-nos colocar sobre a mesa velhas lembranças. Alguns falaram de “momento à Charles de Gaulle”. Obviamente, não para comparar, mas como exemplo a referir.

E quereria permitir-me dirigir-me a si, caro Camarada António Costa, exactamente, a partir deste precedente. Charles de Gaulle dizia “que um destino é o encontro das circunstâncias e de um grande carácter”. Sabia alguma coisa. “ Aos quarenta e nove anos, eu entrava na aventura, como um homem que o destino lançava fora de todas as suas séries” escreveu mais tarde a propósito do 18 de Junho, antes de acrescentar “ eu era como um homem só na frente de um oceano que pretendia atravessar a nado”.

Sem a conhecer, ele tinha feito provavelmente sua a frase do cego de Buenos Aires, Jorge Luis Borges: “o destino de um homem também por muito longo e complicado que ele seja, resume-se com efeito ao dia em que aprendeu definitivamente o que ele é”. No dia 18 de Junho de 1940, o general de brigada definitivamente soube que iria ser de Gaulle. O caminho até à descida dos Champs-Élysées no 24 de Agosto de 1944 foi difícil. Ele próprio o qualificou “de assustador”.

O seu caminho, António Costa, será também muito árduo, o combate será extenuante e os adversários sem quartel, sejam eles a direita portuguesa externa ao PS, sejam eles os meios de comunicação social por esta coligação apoiados, sejam eles os conservadores internos do PS, sejam eles, sobretudo, as organizações internacionais e regionais como Bruxelas, Frankfurt e Berlim, sejam eles e o mundo complexo e opaco da alta finança e das agências de rating. A situação que se começa a vislumbrar como uma encarnação do mundo dos possíveis para Portugal pode desembocar sobre tantas coisas. A aguardar o resultado da sua trajectória, está o povo português, ansioso e suspenso na sua concepção de futuro que desse seu resultado também depende.

Charles Péguy não lhe deixa muito a escolher: “ Aquele que é designado deve marchar. Aquele que é chamado deve responder. É a lei, é a regra, é o nível das vidas heróicas, é o nível das vidas de santidade. ”

Acredito que seja a sua vez, Camarada António Costa. Siga em frente, todos nós, os que votaram à esquerda e os que votaram à direita por manipulação e o perceberam ou irão perceber, porque não se tratou de um voto de classe, todos nós o seguimos com o olhar. Deve agora tornar-se António Costa, ou seja, o político que carrega com o destino de Portugal. E lembre-se que a causa que se defende vale menos que a honra que se empenha em fazê-lo, daí as qualidades acima referidas, a de honestidade, a da resistência (muita) e a da lucidez.

Sabemos quais os monstros com que se irá confrontar, sobretudo nessa margem de liberdade que se pretende conquistar nas políticas de austeridade. Um exemplo bem claro da monstruosidade criada é- nos dado pela Grécia quando havia 300 mil lares sem luz. A 18 de Março, segundo noticiava o jornal de negócios francês Les Echos:

“O Parlamento grego votou quarta-feira a lei sobre a ajuda aos mais carenciados apesar das pressões de Bruxelas que, na véspera, tinha tentado dissuadir o governo Tsipras de fazer aprovar este texto.

O Parlamento grego votou, na quarta-feira à tarde, um projecto de lei destinado a apoiar as famílias mais afectadas pelo que o governo chamou “ a crise humanitária ”. Entre as medidas retidas, figuram, designadamente, o restabelecimento da corrente eléctrica nos mais pobres e fornecer-lhes até a 300 KWh de electricidade gratuita daqui até ao fim do ano, a ajuda alimentar e o aumento das pequenas reformas. Na véspera à noite, a Comissão europeia tinha avisado o governo de Alexis Tsipras contra estas medidas..

Numa carta enviada por Declan Costello, o chefe negociador do programa de assistência para a Grécia, este insistia com a Atenas para adiar esta votação, bem como o de um outro texto, proporcionando alívio da dívida para as famílias e as empresas que acumularam pagamentos em atraso para com o Estado. “É preciso primeiro realizarmos consultas políticas adequadas e debatê-las, incluindo a consistência destas medidas com os esforços de reforma” exigidos à Grécia. (…) Proceder de outro modo, seria agir unilateralmente (…) O que é contrário ao espírito do comunicado do Eurogrupo em 20 de Fevereiro.”

Tudo bem claro, a austeridade em primeiro lugar. Na quarta-feira, 18 de Março de 2015, Alexis Tsípras apresentou ele próprio este primeiro projecto de lei, o primeiro desde o memorando (2010), “ que não foi redigido em inglês antes de ser dirigido aos ministros gregos por correio electrónico. E é também a primeira lei enfim benéfica para a sociedade e não destrutiva” declarou Tsipras no Parlamento.

Sabemos pois os monstros externos que tem de enfrentar para conquistar as frestas de ar que quer dar à economia, à sociedade portuguesa. Sabemos também os monstros internos com que se terá de debater quando estes estarão sempre dispostos a oferecerem-se Bruxelas. E não se preocupe connosco. Se perdermos, ainda esta vez, isso não é grave, estamos todos nós já habituados. Mas se perdermos, sejamos todos sérios nessa derrota. Outro momento surgirá, disso a História dá-nos a certeza.

E não posso terminar este texto sem saudar as gentes do PCP e do BE que bem perceberam, é o que nos mostram todos, que os interesses do país, de imediato, estão mais na união a partir de tudo o que nos une do que na desunião, a partir de tudo o que nos separa, a mostrar pois uma maturidade política que a direita não pode sequer conceber, quanto mais admitir como real. Veja-se, o comportamento do ocupante do cargo de Presidente da República.

Coimbra, 12.10.2015

JMota

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Para ler a Parte I desta carta aberta de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

CARTA ABERTA A ANTÓNIO COSTA E AOS SOCIALISTAS DE TODOS OS QUADRANTES, por Júlio Marques Mota – I

 

6 Comments

  1. Subscrevo, aprovo e proponho um voto de aclamação em pé.
    Não é só António Costa que está, sózinho, a enfrentar estes monstros. Temos que ser todos e estar em consonância com ele.
    Esta europazinha do falso eurogrupo (com letra muito pequena) ainda virá a reconhecer a sua débacle política e económica.
    Ainda haveremos de saber as reais relações da banca americana com a europeia, e em que medida, esta foi incentivada pelos meninos de Chicago, que progarmaram a refinanciação da alta finança à custa dos mesmo, causando o enorme buraco que tem levado meio mundo à falência.
    Havemos de saber até que ponto a atitude vil de Passos Coelho, de sorriso amarelo, dobrado e esfregando as mãos nervosamente, nos levou a compromissos inacessíveis.
    Havemos de saber mais do Sr. de Boliqueime e dos seus criadores, os que criaram o também falido BPN.
    Muito se há-de saber se quisermos.
    Apoiemos a tarefa do António Costa.

  2. Só li ainda esta parte II mas vou já dizer que é o melhor texto que vi até hoje… Estou plenamente de acordo com o Sr Júlio M.M. e digo-lhe vejo da mesma forma tudo o que o Sr. escreveu.O Dr Antonio Costa tem a um fardo pesado, muito pesado, mas mais cedo ou mais tarde VAI ( VAMOS VENCER ) Um Abraço e nunca se canse de nos mostrar estas verdades.

  3. APOIO E SUBSCREVO TUDO O ACIMA ESCRITO! SEJAMOS UM POVO DE COLUNA VERTEBRAL INTEGRA E VERTICAL!!! FORÇA COMPANHEIRO COSTA… CHEGA DE COMPADRIOS E ALGARVIADAS…
    E CONVIRIA ESCLARECER MELHOR O CASO BPN… PARA EVITAR + DO MESMO.MGUIMARÃES NIF 103 548 530

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