UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (106)

carta-do-porto

O ESTÁDIO SALAZAR

Em 1969 construíram um estádio para jogos na cidade do Porto, e fizeram-no em Ramalde.
A sua inauguração, ocorreu no dia 27 de Abril de 1969 (data do 80º aniversário de Salazar), com a presença do Chefe de Estado, Almirante Américo Thomaz. Mais de sete milhares de trabalhadores que se dedicavam às práticas desportivas e milhares de bandeiras dos vários organismos da F.N.A.T., desfilaram, e fizeram demonstrações de diversas actividades desportivas.
Como em tudo na vida, a apologia dos líderes cria problemas, fomenta a subserviência, e permite abusos. À infra-estrutura desportiva, chamaram-lhe “Parque Desportivo Salazar – ESTÁDIO SALAZAR”.

Placa comemorativa da inauguração do Estádio Salazar
Placa comemorativa da inauguração do Estádio Salazar

 

estadiosalazar - desfile inaugurativo

A apologia dos líderes tem uma outra consequência, a de, sendo o povo irreverente, e à falta de melhor escape, com frequência brincarem com as siglas. Ainda hoje isso acontece, muito embora a liberdade de expressão, permita hoje, ofensas gratuitas sem que quem as profere sofra quaisquer consequências.
Aqui no Porto, era eu miúdo, brincava-se com a sigla FNAT, como com outras, algumas dedicadas a Salazar.
Assim, A FNAT era, a Federação Nacional dos Agarrados ao Tacho, na sua versão de salão, e, numa outra versão mais vernácula, F…-se Nem Água Temos.
Da mesma forma, e como outro exemplo de brincadeiras de antes da revolução de Abril, chamávamos às sameiras das águas do Vimeiro, Melgaço e Pedras Salgadas, que tinham a sigla VMPS, Vamos Mandar Prender Salazar.
Também o S do cinto da farda da Mocidade Portuguesa, era objecto das nossas brincadeiras. Dessa forma dizíamos que o S queria dizer, Sou Soldado Soviético Sem Salazar Saber, Se Salazar Soubesse Seria Sério Sarilho.
E naquela altura, o S do cinto era, também, o símbolo da História que vivíamos, que não era mais do que uma Sucessão Sucessiva de Sucessões, que Se Sucediam Sucessivamente Sem cessar.
Durante anos a fio, Salazar fez parte integrante da vida dos Portugueses. Durante o tempo que por cá andou, poucos eram os que se lhe opunham, depois, quase todos tinham sido anti-salazaristas desde pequeninos.

A F.N.A.T. (1935 – 1974)

fnatA Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) surge a 13 de Junho de 1935 com o fim de criar as infra-estruturas destinadas às actividades culturais, desportivas e recreativas dos trabalhadores e suas famílias, com vista a “um maior desenvolvimento físico e moral”.
A Instituição crescerá rapidamente: em 1950 eram 41.117 os sócios individuais e 427 os sócios colectivos; em 1958 havia já 73.655 sócios individuais. Em 1969 os beneficiários são já 147.264.
A FNAT instituiu o direito ao descanso, implementou políticas sociais de ocupação dos tempos livres dos trabalhadores, criou colónias de férias, viagens, passeios e excursões, e institucionalizou o turismo social.
Durante anos ajudou os trabalhadores e as suas famílias, e foi pioneira de um novo conceito de férias e de lazer.
À FNAT, sucedeu, em 1974, o INATEL.

DSC05782-1000x
No País, era preciso mudar tudo. Mudaram-se os nomes às coisas e tiraram as pessoas dos lugares onde estavam, colocando lá outras. Depois mudaram-se as coisas, e muitas delas, mesmo muitas, melhoraram.
Chegaram pessoas novas que trouxeram novas ideias. O Estádio Salazar passou a chamar-se FNAT e depois INATEL. Hoje é uma fundação com carácter tendencialmente social, tutelada pelo Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, e com algumas (bastantes, muitas) instalações tendencialmente de luxo.

inatelPassaram-se, entretanto, os anos, e o Estádio INATEL – Parque Desportivo de Ramalde, foi-se degradando até que quase ficou inoperacional (pelos “standards” dos dias de hoje).
A Fundação, sediada em Lisboa, tinha outros interesses, um outro Estádio na capital do País, e não teria tempo para cuidar do do Porto.
No início de Fevereiro de 2015, a gestão do Complexo Desportivo do Inatel, sito na rua Araão de Lacerda, no Porto, passou para as mãos da autarquia por um período de 20 anos, e previa-se nessa data um investimento de 500 mil euros, a pagar pela CMP, para a reabilitação do espaço (poucos meses passados, já se fala na duplicação dos valores), dotando-o de uma pista de atletismo e de um relvado sintético. Tudo para usufruto de Associações e atletas individuais, da cidade.
Sem prazos para a execução das obras, previa-se, por parte do Presidente Rui Moreira, que em Setembro estivesse já em funcionamento o campo de futebol.
Hoje, 22 de Outubro, nenhuma obra foi ainda começada, continuando o complexo a funcionar como era hábito. Tive conhecimento, através de comentários feitos por moradores da zona, interessados pelo desenrolar deste assunto, de que a culpa desta situação seria do Tribunal de Contas que, deve ter imenso trabalho e ainda não conseguiu tratar do assunto, autorizando as contas já feitas e aprovadas pelo executivo camarário.
Convém saber que este espaço é uma das manchas verdes da cidade, com um pequeno bosque de choupos, que ladeia a bancada superior, com coníferas (na sua maioria ciprestes-de-Lawson), acácias-robínias e outras árvores que se podem ver por trás da cabine e do edifício da entrada. Espera-se que a pista de tartan e a relva sintética, previstas nas obras a efectuar, bem assim como os melhoramentos nos edifícios existentes, não impliquem a destruição de qualquer das árvores por lá existentes.

INATEL---RAMALDE-1300X

eSTÁDIO-sALAZAR---iNATEL---1000X
Visitei o espaço e as instalações, onde fui recebido por um funcionário, Pedro Sá, simpático, conhecedor dos cantos da casa, e apaixonado pelo seu local de trabalho, coisa já quase rara nos dias que correm.

 

AINDA AS COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DA MORTE DE RAMALHO ORTIGÃO

No passado dia 18, a União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, em conjunto com o O Progresso da Foz, recolocaram a placa comemorativa do centenário do nascimento do escritor, na pedra “A Flor Granítica” que, em 1936 os alunos do Colégio Brotero lá tinham colocado.

Rocha - " A FLOR GRANÍTICA"
Rocha – ” A FLOR GRANÍTICA”

Ao acto, compareceram os representantes da União de Freguesias, os representantes do O Progresso da Foz, os representantes dos antigos alunos do Colégio Brotero, familiares do escritor e algum público.

Da esquerda para a direita, Eng Francisco Mesquita Guimarães, José Magalhães e Dr Joaquim Pinto da Silva (O Progresso da Foz), Dr Nuno Ortigão (Presidente da União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde), e o representante dos Antigos alunos do Colégio Brotero. Fotografia da Dra. Maria Lacerda (União da Freguesias)
Da esquerda para a direita, Eng Francisco Mesquita Guimarães, José Magalhães e Dr Joaquim Pinto da Silva (O Progresso da Foz), Dr Nuno Ortigão (Presidente da União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde), e o representante dos Antigos alunos do Colégio Brotero.
Fotografia da Dra. Maria Lacerda (União da Freguesias)

Uma hora depois, foi inaugurada uma outra placa, da autoria do escultor Hélder de Carvalho, evocativa do centenário da morte de Ramalho Ortigão. Desta feita, aos representantes da União das Freguesias e do O Progresso da Foz, juntaram-se o Dr. Pedro Sousa Lobo, Past-Presidente do Rotary Club Porto-Foz, e o Dr. José Valle de Figueiredo, Director da Foz Literária, também apoiantes e colaboradores desta iniciativa.

 

Da esquerda para a direita Dr Joaquim Pinto da Silva (O Progresso da Foz), Dr Pedro Sousa Lobo (Rotary Club Porto-Foz), Dr Nuno Ortigão (Presidente da União das Freguesias), Hélder de Carvalho (Escultor da obra), Dra. Maria de Lacerda (União das Freguesias) Nova Placa comemorativa do centenário da morte de Ramalho Ortigão
Da esquerda para a direita
Dr Joaquim Pinto da Silva (O Progresso da Foz), Dr Pedro Sousa Lobo (Rotary Club Porto-Foz), Dr Nuno Ortigão (Presidente da União das Freguesias), Hélder de Carvalho (Escultor da obra), Dra. Maria de Lacerda (União das Freguesias)
Nova Placa comemorativa do centenário da morte de Ramalho Ortigão

 

DSC05733-1000x

Nova placa comemorativa, com o mar e o Gilreu, como pano de fundo
Nova placa comemorativa, com o mar e o Gilreu, como pano de fundo

Notaram-se as ausências dos representantes da APDL, aos quais tiveram de ser pedidas as licenças para a colocação das placas, assim como de qualquer representante da Câmara Municipal do Porto.

Do evento, o Jornal de Notícias deu nota na sua edição de Segunda-feira, 19 de Outubro.

 

 

 

4 Comments

  1. FELIZ INICIATIVA A DE RELEMBRAR RAMALHO ORTIGÃO !
    A PLACA COLOCADA NO MOLHE VAI SOFRER COM AS VAGAS INVERNAIS…
    E DOU OS PARABÉNS AO HELDER DE CARVALHO PELA PLACA E BUSTO COLOCADA NA MARGINAL.
    VEREMOS QUANTO TEMPO RESISTE ÀS INVESTIDAS SELVÁTICAS…

    Um abraço, meu caro José Magalhães.

  2. Dá gosto ler as tuas missivas, nomeadamente as que me tocam de perto que é o caso e as que vivi, pois tambem andei com o “S”. O Ramalho Ortigão ainda estava tapado quando lá passei, nas minhas habituais caminhadas. Continua com as tua tão apreciada prosa, que eu agradeço.
    Um abraço amigo do
    Joaquim Pinto

Leave a Reply