46 – A crise grega – Quando Tsipras faz desaparecer qualquer traço dos seus contraditores!

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Quando Tsipras faz desaparecer qualquer traço dos seus contraditores!…
Yorgos Mitralias

 

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Eis pois como é que o governo Tsipras acaba de resolver dois dos seus grandes problemas: o da dívida pública e o que é representado pela ex-presidente do Parlamento grego, Zoe Konstantopoulou. Como é que ele fez para conseguir realizar tais proezas? Mas muito simplesmente, apagando para sempre do sítio oficial do Parlamento grego tudo o que pudesse levar-nos a recordar Zoe Konstantopoulou e as suas iniciativas que durante a sua curta presidência, entre as quais a Comissão para a Verdade da Dívida Pública.
Em face deste impressionante salto atrás do governo grego, que nos leva para o passado, para os tempos de glória do estalinismo triunfante dos anos 30 |1|, mas também do macarthismo mais intenso que se verificou no início anos 50, fica-se com o direito de perguntar: a dívida pública grega também ela desapareceu? E Zoe Konstantopoulou aceitou a sua derrota, e decidiu-se a nunca mais dizer a verdade e calar as suas críticas ao vitríolo?
A resposta é: não. A astronómica dívida pública grega contínua, imperturbável, a sua marcha para a frente, sempre a subir, como de resto Zoe Konstantopoulou, que recusa assumir-se como vencida. Então, uma questão se impõe: tendo em conta que à limpeza do sítio do Parlamento das presenças indesejáveis falta manifestamente eficácia, porque é que o sucessor de Zoe Konstantopoulou e os seus amigos, procederam desta maneira? Que procuravam realmente?
A única resposta possível é que agindo desta forma, todo este belo mundo procurava enviar uma mensagem, ou antes um sinal, a alguém. A quem? Mas, evidentemente, aos famosos “parceiros europeus” com que as novas autoridades gregas acabavam de concluir um acordo, que é… ao mesmo tempo o único programa do governo Tsipras bis. Mas também um sinal aos gregos que estão em baixo na escala dos rendimentos, de modo a que não tenham mais a menor dúvida sobre a inelutabilidade do esmagamento de qualquer resistência aos Memoranduns e aos seus inspiradores…
Em suma, tratava-se de um acto altamente simbólico que, nem mais nem menos, ambicionava apagar para sempre da memória colectiva dos Gregos, não somente qualquer vestígio de uma alternativa à política dos Memorandos, mas também, o próprio nome daquela que pôde encarnar esta alternativa!
Na realidade, a obstinação destes neófitos do neoliberalismo, contra o que poderia identificar-se com à sua má consciência, não se limitou a fazer desaparecer tudo o que que recordava a curta presidência de Zoe Konstantopoulou. Apagando também o Apelo da Campanha Internacional “de apoio à Comissão para a Verdade sobre a Dívida Pública e o direito dos povos a examinar as dívidas públicas” |2|, estes aprendizes de feiticeiros da escola estaliniana da falsificação quiseram fazer desaparecer todo e qualquer vestígio destes 24.423 homens e mulheres vindos dos quatro cantos do globo, que tinham – até agora, porque a recolha das assinaturas continua – manifestado o seu apoio activo à esta campanha! Fazendo desta forma, no entanto demonstraram apenas uma só coisa: o seu total desprezo por todos estes milhares de pessoas de progressos, entre os quais pelo menos 2000 professores universitários e economistas que queriam apenas apoiar a Grécia na sua luta contra os seus carrascos.
A predileção dos líderes deste Syriza geneticamente modificado para os piores dos métodos administrativos, não nos pode surpreender. Com efeito, bem antes da sua espectacular capitulação, andavam já de forma violenta e com grosseria a atacar Comissão para a Verdade da Dívida Pública pelos seus meios de comunicação social especializados em trabalhos sujos, sem, no entanto, ousarem criticá-la directamente eles mesmos, publicamente e sobre o fundo da questão. De resto, até agora, é em vão que se procuraria o mais pequeno argumento saído da sua boca contra a auditoria cidadão da dívida pública…
Em contrapartida, estes cobardes sempre preferiram os golpes baixos à confrontação pública. Cínicos, e armados da arrogância do poder, permitem-se pôr-se regiamente nas tintas para estas dezenas de milhares de pessoas que assinaram o Apelo de apoio à Comissão de auditoria e que não lhes são de nenhuma utilidade, visto que estas famosas mediocridades só se sentem à vontade estando apenas na companhia “dos grandes” deste mundo. É a eles que se aplica perfeitamente o que Jorge Semprun dizia de Santiago Carrillo: “ Toda a sua vida queria apenas só uma coisa, entrar nos grandes salões”…
Vivendo na insegurança permanente, e descobrindo inimigos mesmo onde há apenas simples militantes que se interrogam, não é então surpreendente que estes adeptos de um Maquiavel de meia tigela façam apelo às piores tradições estalinianas, a fim de fazer desaparecer todo e qualquer traço do que os incomoda. Privados – felizmente – dos meios que o tio Joseph possuía no seu tempo, satisfazem-se então em apagar tudo o que possa testemunhar as suas traições e outros pecados, a exemplo dos inquisidores estalinianos que faziam desaparecer por milhões as vidas, os nomes, e mesmo os rostos dos seus compatriotas soviéticos. Detalhe eloquente: tal como outrora em Moscovo, hoje também em Atenas, estes inquisidores fazem desaparecer e com toda a prioridade os que ousam recusar a modificação genética do seu partido e persistem em proclamar-se… comunistas, anticapitalistas e críticos radicais da ordem estabelecida!
A nossa conclusão quer-se optimista: será necessário muito mais que “a limpeza” do sítio do Parlamento grego, e mesmo muito mais que a incessante campanha de desonra e de golpes muito baixos para fazer desaparecer as resistências aos que venderam a sua alma ao diabo neoliberal, aceitando aplicar as suas políticas inumanas. Mesmo em condições muito difíceis, o combate continua porque se trata agora da defesa de tudo o que se tem de mais precioso : da defesa da nossa dignidade e da nossa (sobre) vivência.

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