48. Caderno de Notas de um etnólogo na Grécia – greek crisis

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Caderno de Notas de um etnólogo na Grécia – uma análise social diária da crise da crise grega

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Terça-feira dia 29 de Dezembro de 2015

2015 – Balanços e falências

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Na Praça da Constituição em Atenas, preparam-se os pacotes alimentares para os pobres. O Pai natal do momento e das circunstâncias está já bem gasto. Triste balanço em suma de um terrível ano grego de 2015 , deixando atrás de si uma esteira de estragos … ou seja nós e a esperança, e é já tão enorme como a híbris. E esta exemplificação da hibris tem (também) o nome de SYRIZA e, por extensão, o da esquerda quer se queira quer não, mas é assim e não diferentemente.

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Preparam-se os pacotes alimentares dos pobres. Atenas, Dezembro de 2015

Recordar-se-á que a hibris é uma noção bem antiga que se pode traduzir por “desmedida”. É um sentimento violento inspirado pelas paixões, e mais particularmente pelo orgulho. Na Grécia antiga, a hibris era considerada como um crime e abrangia designadamente, violações como as vias de facto, as agressões sexuais e sobretudo o roubo de propriedade pública ou de propriedade sagrada. Não se deixou porém de considerar que a hibris constitui um defeito extraordinariamente grave nessa civilização… tal como na nossa, esperamo-lo, em todo o caso.
Há assim vidas que se apagam, as nossas, e há contudo pessoas mais maldosas, mais desonestas ou mais memorandistas que outras, e existe também o número tão extraordinário do que chamamos hoje em dia traições. Neste ramo floral final da esquerda Syrizista (e mais geralmente da esquerda europeísta neste lugar de morte que é o muito Velho Continente), a observação que se lhes aplica será também a de Cornelius Castoriadis (e de Tucídides), tratando-se das traições que datam desde a guerra Péloponnèse, mas que mantém sempre actual.

Certos indivíduos ou grupos de indivíduos (…) estão prontos, por assim dizer, a tudo para se apropriarem do poder, incluindo naturalmente a introduzirem o inimigo na cidade e fazer massacrar muitas das seus concidadãos (…). Há indivíduos ou mesmo grupos que se afirmam com uma tal força e querem a tal ponto o poder para eles mesmos que aos seus olhos a colectividade já não existe mais ou se existe, existe apenas como puro objecto. É sem dúvida também, apesar de toda uma série de considerações que fazem disso, um caso excepcional, o que é visível com Alcibiades”, (“Tucídides, a força e o direito”).

 

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O Pai Natal de momento é já fortemente utilizado. Atenas, Dezembro 2015

 

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Praça da Constituição. Atenas, Dezembro de 2015

 

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Praça da Constituição. Atenas, Dezembro de 2015

Salvo que Tsipras é evidentemente apenas uma bem pálida cópia do que foi Alcibiade nesse outro tempo, e que… o advento da Troika tinha já instalado por toda a parte (ministérios, administrações, universidades etc.) muitos harmostas, ou seja Gauleiters, digamos, dirigentes políticos regionais ao serviço do governo central … alemão. Pior ainda, e lamento escrevê-lo assim, o tempo SYRIZA tinha sido preparado, e/ou apropriado pelo seu caminho seguido ou nele introduzido, é conforme, pelos mestres do jogo, uma outra maneira-dizer, foi organizado pelas elites da governança europeísta, nem mais nem menos e isto não é estar a defender a teoria da conspiração, mas infelizmente, do acontecimento sensacional … provado.

O ano 2015 não se termina certamente como teria podido começar, este ano dito “de Tsipras” por conseguinte marcou o segundo grande momento da crise grega, o da traição, o da mentira triunfante e a certeza desanimadora aos olhos dos Gregos… que o mundo, enfim, volvido em que havia ainda um mínimo de pseudodemocracia está já bem por detrás de nós (o primeiro grande momento foi a introdução da troika na Grécia em 2010 por Georges Papandreou).
Na sua imensa maioria, os Gregos do ano 2015 a terminar agora concordam em afirmar que o governo SYRIZA/ANEL, sobretudo na sua fase II ( com o rosto a descoberto), é o pior governo que o país já conheceu, e assim para um período que vai desde o fim da Segunda guerra mundial, mesmo com o regime dos Coronéis incluído, até agora. É uma terrível constatação que ouço então diariamente, e isto bem para além das divisões supostas entre “pessoas de esquerda” e “pessoas de direita”; porque o sentimento dominante é o de desapossamento definitivo do país, do futuro, ou mesmo da vida muito simplesmente.

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A verdade de outra maneira, imprensa grega, Dezembro de 2015

 

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A verdade de outra maneira, imprensa grega, Dezembro de 2015

 

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A verdade de outra maneira, imprensa grega, Dezembro de 2015

Porque este sentimento de desapossamento definitivo do país, do futuro, ou mesmo da vida, muito simplesmente não tem nada de teórico, nem ideológico num certo sentido; é muito simplesmente a concretização semana após semana do programa de exterminação económica, social, cultural, de exterminação em suma ontológica do povo grego (como tanto outros de resto, que não teriam sabido bater-se suficientemente para defenderem as suas liberdades).

Infra-estruturas privatizadas (na verdade liquidadas a preço de saldo), a política de sufocar a actividade restante pela sobre-imposição, nada democrática e forçosamente anticonstitucional galopante, a ridicularização acrescida das mentiras Syrizistas, e passo em frente, assim como pelo seu “programa paralelo” que o governo acaba de retirar a pedido… do quarteto (Troika alargada). “Este programa tinha como objectivo compensar as medidas de austeridade reclamadas pelos credores e que o governo tinha feito aprovar desde Julho passado. Nesta quinta-feira 17 de Dezembro, o texto foi retirado. De acordo com os meios de comunicação social gregos, a célula técnica do Eurogrupo, o Euro working group (EWG) teria rejeitado este programa. Uma rejeição que ameaçava comprometer a libertação de mil milhões de euros que a aprovação das medidas pelo Vouli, o Parlamento grego, na terça-feira, permitia encarar. ”, diz-nos Romaric Godin em “La Tribune ”.

Nota de tradução:
Excerto do artigo de Romaric Godin
A boa vontade do governo grego não terá durado uma semana. Na segunda-feira 14 de Dezembro, um projecto “de programa paralelo” foi apresentados aos deputados gregos. Este programa tinha como objectivo compensar as medidas de austeridade reclamadas pelos credores e que o governo tinha forçado a sua aprovação desde o mês de Julho passado. Nesta quinta-feira 17 de Dezembro, o texto foi retirado. De acordo com meios de comunicação social gregos, a célula técnica do Eurogrupo, o Euro working group (EWG) teria rejeitado este programa. Uma rejeição que ameaçava comprometer a libertação de mil milhões de euros que o voto de medidas aprovadas pelo Vouli, o Parlamento grego, terça-feira, permitia encarar.

Funcionamento normal do memorando
Para não correr o risco de não ter este dinheiro, o governo por conseguinte fez marcha atrás. Alexis Tsipras, primeiro ministro grego, fez aqui a experiência concreta da aplicação do terceiro memorando que assinou em 19 de Agosto passado.

O detalhe do programa
Que queria fazer Alexis Tsipras? O texto compreendia várias medidas. A primeira delas consistia em poder dar uma cobertura médica aos que não estão cobertos pela Segurança Social. O governo Tsipras entendia também desenvolver através das Câmaras Municipais e as prefeituras células de apoio “às pessoas vulneráveis.” A sopa popular paga pelo Estado devia ser alargada e prolongada por um ano. “Uma factura social” de electricidade, permitindo baixas para às famílias mais frágeis, também era encarada. Por fim, na educação, Atenas queria desenvolver as classes de apoio escolar.

Porque é que os credores não querem deste programa

O Euro working group teria avaliado o custo deste “programa paralelo” em mil milhões de euros. Um custo que parece muito elevado. Isto é ainda mais surpreendente uma vez que o governo grego em Novembro apresentava um excedente primário de 4,4 mil milhões de euros contra um objectivo de 2,6 mil milhões de euros. Por outras palavras, o governo de Alexis Tsipras apresenta-se como um muito bom aluno das politicas de restrição orçamental e está prestes a fazer melhor do que os objectivos impostos. Mas o memorando não prevê no entanto nenhuma “recompensa” por estes “sucessos. ” Qualquer medida orçamental deve ter o imprimatur dos credores e se estes últimos julgarem que despesas põem em causa os objectivos a médio prazo, podem recusá-las. Do resto, o memorando prevê também que no caso de superação dos objectivos, os excedentes libertados irã, no montante de um quarto, para o reembolso da dívida

Motivações políticas da Troika alargada

Na realidade, este plano “paralelo” não é do gosto dos credores que já tinham tentado em Março bloquear a adopção do primeiro texto sobre a urgência humanitária. A razão é extremamente simples. A lógica “do programa” da Troika é a de reduzir as despesas sociais a fim de ancorar a baixa das despesas públicas, mas também favorecer a competitividade. Estas despesas são consideradas inúteis e contraproducentes deste ponto de vista. Mas o objectivo é também político: com este “programa paralelo”, Alexis Tsipras tentava tranquilizar a sua base eleitoral sobre a sua capacidade “em compensar” a dureza das medidas adoptadas e as que estão ainda por adoptar, nomeadamente a muito dolorosa reforma das pensões de reformas .

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Aporias gregas. Praça da Constituição, Dezembro de 2015

 

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Dizer NÃO ao Euro. Praça da Constituição, Dezembro de 2015

Desde Bruxelas (e desde Berlim), a mensagem é bem clara: mais nenhum texto, nem mesmo uma alínea … nenhum legislativo será apresentado “ao Parlamento” grego sem estar a obter o aval prévio do Quartet. E como o ridículo já não mata ninguém ( sobretudo nos dirigentes políticos ), “Alexis Tsipras governará… ainda alguns meses mais, história de fazer passar… o memorando final, o que irá acabar connosco, e assim o seu papel será encarnado até ao fim ; seguidamente, os verdadeiros mestres do jogo encontrarão outras marionetes”, tal é o parecer do meu primo Stéphanos e do vizinho Aris, ambos no desemprego na aldeia de Tessália; tal é também o parecer do nosso amigo Márkos ( disse-mo pelo telefone), camponês cretense que já não sabe mais como fazer face à última sobretaxa imobiliária sobre todos os terrenos e anexos agrícolas, espaços de armazenamento compreendidos.

(continua)

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