48. Caderno de Notas de um etnólogo na Grécia – greek crisis II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

(conclusão)

 

“Desde que os bancos foram cedidos aos fundos abutres, para um empréstimo ainda por pagar de dois mil euros, ele… o novo banco acaba de me bloquear quatro mil euros sobre a minha conta e sou apenas um pequeno exemplo entre tanto outros. Abandonados como nós estamos pelos chefes vendidos do sindicalismo agrícola, vemos o nosso fim chegar mês após mês, em todo caso, nós contratámos um advogado e luto ainda tanto quanto posso”; então… o ambiente.

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As prendas do Pai Natal…Tsipras. Capa de um aarevista política. Dezembro de 2015.

 

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O plano B de SYRIZA para 2016.Imnprensa grega, Dezembro de 2015

 

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Ambiente… de festa. Praça da Constituição, Dezembro de 2015

“Os presentes do Pai Natal Tsipras, ei-los: impostos, pobreza, desemprego, fim do regime das reformas e migração”, cobertura suficientemente caricatural e no entanto real de uma revista política grega neste mês de Dezembro e do ano 2015… assim final.

Sejamos rápidos. O ano SYRIZA primeiro que tudo matou a esperança de todo um povo, e seguidamente (acessoriamente) matou todo um pequeno povo de esquerda, este último já maioritário nas representações políticas, elas mesmas de resto. largamente ultrapassadas depois do amadurecimento … em marcha forçada das consciências gregas durante o terrível verão… Tsipromemorandário.
O trauma psicológico colectivo da traição do voto NÃO ao referendo de Julho de 2015 é sinónimo de ferida escancarada e que não cicatrizará, tanto que, uma experiência… de mecânica social de tamanho ao natural tem completamente feito virar as emoções; de comedida porque determinada a enfrentar a história nesse grande domingo à noite do referendo veio a virar depois para o desespero então mais sombrio da sua anulação de facto, o que acontece quase que imediatamente, e apenas alguns dias depois.

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Bilhetes da lotaria ex- nacional. Atenas, Dezembro de 2015

 

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Cafés em Tessália. Dezembro de 2015

 

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Redes de pesca. Peloponeso, Dezembro de 2015

No Peloponeso, juntam-se sempre as suas redes de pesca. Em Tessália, como noutros lugares os cafés são efectivamente frequentados durante estes dias das festas, e então verdadeiramente por toda a parte, os Gregos que seriam ainda seres vivos habitados pelas suas paixões, e que finalmente não alcançaram nenhum controlo sobre os acontecimentos, limitam-se por conseguinte a organizar a sua reforma de sobrevivência, entregando-se à “onda” (ao destino), se possível… comprando um bilhete de lotaria.

No entanto, sente-se contudo bem que estamos num ponto de viragem. Esta crise aberta desde 2010, que na verdade não é nada mais que uma forma de guerra feita contra um povo por outros meios, é então geradora (ou aceleradora) da corrupção. Como o recordava outrora Tucídides (e Cornelius Castoriadis) apoiando-se sobre o paradigma (desde então nunca desmentido) da Guerra do Peloponeso, foi e é ainda uma questão “da inversão das significados dos termos da linguagem, o ódio e a mentira generalizada, a ruptura das relações mais elementares entre humanos, o gosto do poder e da ganância, tudo isto envolto em palavras eloquentes”, neste caso, no nosso caso, estas palavras (e males) da esquerda europeísta.
Em 17 de agosto de 1984, Cornelius Castoriadis tinha dado uma conferência em Léonidio, uma povoação do Peloponeso, sobre o tema da Democracia antiga e sobre o seu significado contemporânea. Nesta altura, tinha recordado que contrariamente a uma certa versão da tese marxista, os oprimidos nunca acabarão … automaticamente por inverter o curso da história.

É raramente possível e isso não é de resto a regra. O grande filósofo contemporâneo evocava então o fim da escravatura, uma abolição que não foi devida ao facto de uma inversão a partir da base, das gentes do fundo da escala, mas tornado possível muito simplesmente, porque as camadas dirigentes tinham assim concluido ao fim de um certo tempo que manter a escravatura a todo o custo já não era rentável.

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Ambiente suposto de festa. Atenas, Dezembro de 2015

A festa concluir-se-á, sempre e forçosamente. Para uma boa parte do que chamamos o Ocidente, o momento histórico próximo é o da abolição da democracia dita representativa e ao mesmo tempo o regresso a uma forma diria de escravatura, muito simplesmente porque as camadas dirigentes assim concluíram que manter o estado do mundo actual sobretudo a todo o custo já não é mais rentável.
Observa-se neste fim de ano de 2015 tão terrível, sob a influência das minhas aporias então múltiplas (em grego aporia: embaraço, dúvidas, interrogações e também a enorme pobreza material), e depois de ter feito como numerosos outros Gregos, a confirmação amarga da nossa impotência política… a das nossas bases populares. No entanto, lutámos como também utilizámos todas as falsas armas de que ainda acreditávamos dispor, essencialmente a do voto, aquando das legislativas e sobretudo aquando do referendo.

Contudo, finalmente, ficamos mais lúcidos. Os Gregos na sua imensa maioria consideram actualmente e isso na sequência da experiência (e da experimentação) de 2015, que nenhum partido político actual é capaz de estar à altura das exigências agora … mortais do nosso momento histórico, também é por isso que estamos certamente num momento decisivo, num momento de viragem.

Os Gregos na sua imensa maioria consideram ainda que se tornaram os sem-abrigo políticos, desde a mitridatização do PASOK, da Nova democracia e, por fim, de SYRIZA, formações supostamente políticas e que na realidade são castas de interesses mais privados que nunca, irremediavelmente impregnadas do totalitarismo financeiro, bem como de todo o seu ridículo que acaba por nos (estar a) matar.

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Oficina ainda a funcionar. Grécia das montanhas, Dezembro de 2015

A renovação demorou muito, a renovação será laboriosa… ou não será, mas não será certamente a de Varoufákis, Konstantopoúlou e de outras apóstatas (SYRIZA) da hora definitivamente tardia e da Unidade popular, tão pouco claros ( tal como praticamente de toda a outra esquerda na Europa, Podemos incluído), precisamente sobre o pôr em causa da União Europeia.

Visão trágica da história, como em Tucídides. É assim também, porque finalmente a cada tipo de regime político corresponde um tipo antropológico. O desmoronamento grego, que é primeiro que tudo o de uma boa parte da sua sociedade, gerou essencialmente este tipo antropológico da sobrevivência e… “canibalismo” ontológico, passando ainda pela inversão das significados dos termos da linguagem, pelo ódio e mentira generalizada, pela ruptura das relações mais elementares entre humanos, depois para alguns, pelo gosto do poder e pela ganância a coberto de grandes palavras.

De resto, a primeira preocupação de sobrevivência dos seres humanos assim como das famílias, também transformou o último dos clientelismos, o de SYRIZA, a converter “a sua governança” numa imensa… agência para o emprego dos membros das suas famílias e primeiro que tudo … para os eles mesmos.

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Vitrine… de um café vazio. Grécia, Dezembro de 2015

Quando por exemplo Alexis Tsipras precisa (em Novembro de 2015) aos seus deputados que foram eleitos nas eleições legislativas de Setembro passado, que desde o memorando do Verão passado que “não podem pretender que não sabem… o que lhes cabe fazer ” (fazer adoptar todas as medidas atuais como futuras exigidas pela Troika alargada agora a 4 Instituições) – e isto em violação abertamente assumida da Constituição (“o direito dos deputados de exprimirem a sua opinião e de votarem de acordo com a sua consciência é ilimitado.” – Artigo 60) – na realidade está a dizer que diferentemente, estas pessoas (algumas delas pelo menos ), não poderão mais contar sobre a remuneração mensal de deputado para se desembaraçarem nestes tempos de crise e de grandes dificuldades, e ainda menos, utilizar as vantagens que lhes confere o seu mandato, nomeadamente de poder propor estes postos salvadores… de conselheiros às pessoas que lhes são mais próximos.

Os gregos…que estão na mó de baixo observam assim os seus compatriotas… que estão na mó de cima, os que se vão estando bem (ou que têm reservas financeiras, mesmo que não renováveis) e que às vezes ainda praticam um certo turismo nas montanhas do país, e observam-nos como extraterrestres, pior ainda, como extra-humanos, a menos que seja o inverso. “Mas quem são estas pessoas? ”, questiona incessantemente o meu primo Stéphanos, pergunta dificilmente apenas retórica, uma história sobretudo de estar a contar os discursos fúnebres da sua crise grega, recitados de maneira repetitiva como quem a rezar vai passando as contas do seu rosário.

 

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Grécia das montanhas. Dezembro de 2015

 

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Grécia das montanhas, Dezeembro de 2015

Assim, triste balanço este do terrivel ano grego de 2015, deixando atrás de si um enorme rasto de destruição, como sobretudo, esta exemplicação da hibris.
A festa irá terminar, sempre e forçosamente … e o blog Greek Crisis com ela, talvez.

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Caderno de Notas de um etnólogo na Grécia – greek crisis I

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