A COMISSÃO EUROPEIA A PREPARAR UMA NOVA CRISE – 12. BCE: UMA TAXA NEGATIVA, PARA FAZER O QUÊ? – por ROMARIC GODIN – I

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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BCE: uma taxa negativa, para fazer o quê?

Comissão Europeiacrise - XXI

Romaric Godin, BCE: un taux négatif, pour quoi faire ?

La Tribune, 9 de Dezembro de 2015

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A instituição de Frankfurt  ainda baixou a sua taxa de depósito para  -0,3%. Mas como é que se transmite esta taxa negativa à economia real e porque é que esta transmissão é assim tão difícil?  Uma tentativa de resposta.

Quinta-feira 4 de Dezembro, Mario Draghi anunciou duas medidas suplementares na sua política de flexibilidade quantitativa: uma taxa de depósito negativa sobre a facilidade de depósito que passa de -0,2% a -0,3% no dia 9 de Dezembro e o prolongamento  temporal dos resgates de compras de activos públicos (“QE”). Qual é a lógica  que está por detrás desta dupla acção? A interpretação destas medidas é frequentemente a de procurar desencorajar os bancos “ em deixarem a dormir” as suas reservas excedentárias junto do banco central e empresta-las à economia. Ora, esta visão parece errada. A acção combinada do QE e a taxa de depósito negativa agem  de maneira muito mais indirecta. E é bem, do resto, um dos problemas da política actual do BCE.

Circuito fechado

Porque, na realidade,  os bancos não podem criar créditos com as reservas detidas junto dos bancos centrais. Estas reservas são “moeda de banco central”, também  chamadas “moeda de base ” (base money), não  são negociáveis senão com o banco central. Com estas reservas, o banco pode apenas reembolsar os empréstimos contraídos  junto do banco central ou empresta-las  aos outros bancos que têm acesso à este banco central sobre o mercado interbancário. Mas trata-se de um circuito fechado, “um empréstimo de moeda de base  sobre o mercado intermédio transfere simplesmente uma reserva de um banco A sobre um banco B”, explica Frederik Ducrozet, economista especialista do BCE no banco  Pictet, em Genebra. Como o sublinha   uma nota do Banco da Inglaterra do primeiro trimestre de 2014 intitulado “a Criação monetária na economia moderna”, “os bancos decidem conceder empréstimos  em função das oportunidades de lucro destas operações de empréstimos.” Os empréstimos à economia real dependem por conseguinte não da transferência das reservas para as empresas ou para as famílias, mas sim da rentabilidade das operações dessas operações de concessão de   empréstimos. Se um banco atribui um empréstimo, uma nova linha (activo e passivo) é criada no seu balanço, sem que os depósitos junto do banco central sejam alterados.

Uma transmissão pelas taxas

A taxa negativa sobre os depósitos e a conta corrente do BCE não é por conseguinte directamente incitativa  para os bancos passarem a conceder  empréstimos . “A taxa de depósito negativa não tem influência directa sobre o crédito, mas tem uma influência sobre as taxas, como a taxa de refinanciamento quando se está  situação “normal” “, explica Julien Pinter, economista em BSi Economics em  Bruxelas. Quando a taxa de refinanciamento é feita a taxa  quase nula, como é o caso do BCE actualmente (é de 0,05%), o interesse dos bancos em  refinanciar-se à esta taxa é muito fraco, na medida em que a taxa sobre o mercado interbancário é inferior (é negativo).  Esta taxa de refinanciamento deixa de ser  por conseguinte  a taxa de referência do mercado interbancário. Como o sublinhou  Mario Draghi aquando da sua conferência de imprensa do 3 de Dezembro, a taxa de depósito joga então o papel de taxas de referência.

Como? Simplesmente porque os excedentes de reservas dos bancos junto do banco central doravante são taxados pela taxa de depósito negativa. Para evitar esta taxa, os bancos têm uma solução: fazer circular estas reservas sobre o mercado interbancário. A oferta sobre este mercado aumenta e a taxa reduz-se, passando também em território negativo. Ora, se a taxa interbancária se reduz, o conjunto das taxas desce. É o efeito que visa o BCE: fazer reduzir ainda mais as taxas para tornar o empréstimo à economia real “mais rentável” que o empréstimo entre bancos ou a conservação de reservas no banco central, doravante taxadas.  “A correia de transmissão” da taxa negativa passa por conseguinte pelas taxas, não pela quantidade de moeda.

A acção do QE e a taxa de depósito negativa

As reservas, estas, permanecem intactas. Em período de QE, estas aumentam naturalmente, dado que o BCE faz aumentar  o seu balanço comprando títulos aos bancos comerciais (credita então a conta corrente dos bancos comerciais) e  estas reservas são a contrapartida deste aumento do balanço. É por conseguinte lógico que se constatem  “sintomas” de excesso de liquidez, como uma maior   utilização da facilidade de depósito apesar das  taxas negativas. Mas este aumento dos excedentes de reservas apenas indirectamente tem efeito sobre o crédito. É por isso que o BCE liga os dois instrumentos: um, a  QE,  para aumentar as reservas e por conseguinte a liquidez disponível sobre o mercado interbancário e uma taxa negativa para fazer “circular mais rapidamente” estas reservas e fazer reduzir notavelmente as taxas. Como o QE faz reduzir as taxas a longo prazo, é importante para  o banco central manter as taxas curtas fracas a fim de manter a rentabilidade dos empréstimos a longo prazo. Se um banco se refinancia à taxa negativa, ganha dinheiro sobre o seu empréstimo e pode assim emprestar a uma taxa fraca aos seus clientes da economia real a longo prazo.

(continua)

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Ver o original em:

http://www.latribune.fr/economie/union-europeenne/bce-un-taux-negatif-pour-quoi-faire-533961.html

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