Syriza, ano I – por Olivier Delorme II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

(continuação)

Olivier Delorme, 22 Janeiro de 2016

Um rumor circulava na Grécia neste início de ano: Όσους μου ευχήθηκαν ένα καλό 2015 τους θυμάμαι. Έναν έναν τους θυμάμαι… Os que me desejaram um bom ano de 2015, recordo-me. Recordo-me, um a um…
Geralmente, regressando de Nisyros, apresento-vos os meus desejos com imagens do inverno que ali se vive, da natureza, dos animais, de nós mesmos no vulcão, na água… Estas imagens, este ano ainda, fotografei-as com a ideia do texto que ia escrever. E, depois, não. Apresento-vos os meus desejos para 2016, e com o desejo que este ano seja menos catastrófico que o anterior, menos cruel do que eu penso que ele vai ser, que cada um de nós tenha a alegria de viver feliz, apesar do desastre geral para o qual nos arrasta inexoravelmente a Alemanha, a Europa, o comércio livre e o capitalismo desregulado, a classe política falida que nos governa. Apresento-vos os meus votos de Bom Ano mas não vos direi “um bom ano 2016” porque a minha convicção é que 2016 será bem pior ainda que 2015. E não tenho nenhum prazer em escrever o texto que estou a escrever porque uma inexprimível desgraça bem específica, que me torna infinitamente triste, me esperava em Paris ao regresso de Nisyros e de Atenas. Permanecerei pois por aqui quanto aos votos de Bom Ano.

Com respeito à nossa estada ali, ficámos muito contentes. À parte uma ventania bem forte e fria por volta do 1º de Janeiro, o inverno assemelhava-se um fim de primavera. Estava efectivamente bom para todos aqueles que, cada vez mais numerosos sob o governo de esquerda radical que festejarão em quatro dias o seu ano de impotência e de traição, já não podem comprar o fuel, ligar o aquecimento a gás ou a electricidade. Nem em Dezembro à ida nem em Janeiro à vinda, em Atenas se sentia pois o calor da madeira e não se tiritava (ainda) nos apartamentos, como durante o terrível inverno do ano passado.
Mas em Nisyros esperava-se a chuva… no fim de Dezembro, não tinha caído quase uma gota sequer desde a única trovoada de Setembro de que falei neste blog. A vegetação, geralmente luxuriante, era enfezada, as cisternas estão vazias, nunca tinha visto a ilha tão seca nessa época… e tivemos direito apenas a um pequeno aguaceiro. Nem mesmo uma destas sumptuosas trovoadas que enchem a noite de clarões de relâmpagos, que nos compõem sumptuosos céus de nuvens trespassadas por alguns raios de sol, que nos enchem o horizonte de espessas cortinas de chuva, que nos oferecem arcos-iris nos céus que têm já um pé na Ásia Menor e o outro no mar cinzento de ferro… O mar, precisamente, era duma doçura muito fora do comum: nós nunca tomámos tantos banhos nesta estação, banhos de mar e banhos de sol, de passeatas, e trabalho a tarde ao canto da lareira…

Esta serenidade, esta ruptura com o habitual, esta retirada do mundo no nosso Athos, na nossa interioridade que se assemelha a um barco encalhado sobre a montanha, fez-nos um bem extraordinário. Como sempre, refizemos as nossas energias e tivemos efectivamente razão, porque destas energias vamos ter muita necessidade…
Quanto à Grécia…
Vai mal, cada vez pior. Mas quem poderá ficar surpreendido com isto ? Os imbecis felizes e os idiotas úteis que continuam a acreditar que o crescimento vai renascer da deflação e do golpe de Estado permanente germano-europeu perpetrado desde há cinco anos neste país? Mas começa a tornar-se difícil não ver a realidade. Ou em negá-la.

De capitulação em capitulação, Tsipras e Syriza envolvem-se cada dia mais no odioso. Fixam‑se linhas vermelhas imaginárias, emitem-se desejos inconsequentes, e oito dias mais tarde violam-se as linhas vermelhas e renuncia-se aos desejos enunciados, sempre com o sorriso nos lábios para não desagradar aos seus donos…
Foi o caso da participação do FMI no novo “plano de ajuda”. O governo grego desejou que não, para aceitar depois que sim ao primeiro franzir de sobrancelhas de Schäuble e dessa pessoa terrível sem nome que dá pelo atributo de Djeselqualquercoisa.
É o caso do colocar em saldo dos bens e serviços públicos. Após a validação da cessação a preços de amigos aos Alemães dos aeroportos turísticos mais vantajosos do país, o governo de ocupação (como se chamava ao gabinete imposto pelos ocupantes franceses e ingleses durante a guerra da Crimeia e a quem os Franco-Ingleses ditavam a sua política) acaba de validar a cessação do Pireu ao chinês Cosco que pratica sobre os estaleiros que obteve antes da crise uma forma de neo-escravidão (não há mais direito do trabalho, não há mais direitos sindicais, os despedimento podem ser sem pré-avisos nem justa causa, os trabalhadores não sabem, de um dia para outro, qual será o seu horário de trabalho ou se é que têm mesmo trabalho ou se têm que trabalhar 15 horas sem pagamento das horas extraordinárias, – o que Macron sonhou bem alto hoje em Davos…)
É o caso das pensões de reforma. Depois dos cortes de 30% a 40% desde há 5 anos, a esquerda radical vai proceder à novos cortes que rondarão os 15% (para as pensões de 750 euros brutos) a 35% (para as pensões superiores à 2000 euros, e estas ultimas já não se recebem , na Grécia, senão por algumas dezenas de milhares de pessoas).

Então certamente, para dar o sinal de mudança, o governo de ocupação diz que estas baixas referir-se-ão apenas aos novos reformados em 2017. Demagogia, uma vez mais.
A realidade, é que o governo Tsipras, a partir de Outubro, amputou as pensões dos já reformados de 4% a 6% suplementares através dos aumentos de contribuição. A realidade, é que a garantia do nível actual vale apenas até… 2018 onde o governo “reexaminará” o nível de todas as pensões superiores a 750 euros. E sabe-se o que estas palavras significam.
A realidade, é que Moscovici imediatamente declarou que o governo grego “podia fazer melhor” sobre esta questão das reformas. E também se sabe o que isto significa… tal como as linhas vermelhas e as aspirações. De capitulação em capitulação, a lógica desencadeada pela capitulação inicial de Julho não tem fim: dado que os inimigos da Grécia que se pretendem os seus parceiros ou os seus salvadores sabem que o governo renunciou a tomar os meios para sair do torniquete que o sufoca – ou seja sair do euro -, sabem que podem sempre exigir mais e mais e que o governo grego se renderá.

A realidade é a aceleração da destruição do sistema de saúde pública, imposta desde há cinco anos pelas políticas criminosas germano-europeias (é de resto bastante bufão ver esta Europa alemã empenhar-se num procedimento contra a Polónia por incumprimento ao Estado de direito, enquanto que, desde há cinco anos, constantemente, a Europa alemã viola, na Grécia, o Estado de direito, a Constituição e os direitos humanos fundamentais a começar pelo direito à educação e à saúde). Assim uma vez mais, esta semana, o dispensário solidário de Ellenikon, o primeiro e o principal na Grécia, veio disparar uma vez mais o sinal de alarme sobre um novo agravamento da crise humanitária, assinalando, designadamente entre outras coisas, que (informação certamente retomada por todos os meios de comunicação social franceses e europeus!) as farmácias dos hospitais públicos encontravam-se cada vez mais frequentemente na incapacidade de fornecer aos doentes os medicamentos prescritos e que, no 11 de Janeiro passado, “ dezenas de doentes do cancro foram reenviados do Hospital Geral de Atenas “Laïko “sem estar a receber a sua quimioterapia, necessária e programada.”

(continua)

Syriza, ano I – por Olivier Delorme I

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