A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 8. MARIO DRAGHI PODERÁ AINDA SER CAPAZ DE NOS CONVENCER DA EFICÁCIA DA QUANTITATIVE EASING? – I

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

La tribune

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Mario Draghi poderá ainda ser capaz de nos convencer da eficácia da Quantitative Easing?

 Romaric Godin, Mario Draghi peut-il encore convaincre de l’efficacité du QE ?

La Tribune, 10 de Março de 2016

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Mario Draghi colocou muitas das suas forças na batalha deste 10 de Março . (Crédits : © Ints Kalnins / Reuters)

 

La BCE change de braquet en tentant d’agir plus directement sur l’économie réelle. Mais rien ne se fera sans retour de la confiance dans l’efficacité de ces mesures. Mario Draghi peut-il encore convaincre ?

BCE muda de braçadeira  tentando agir mais directamente sobre a economia real. Mas nada poderá ser  feito sem um retorno da confiança na eficácia destas medidas. Será que Mario Draghi ainda nos pode convencer?

Estes anúncios do BCE de 10 de Março serão sem dúvida um novo estágio na (curta) história da política monetária europeia. É certo que uma  parte das medidas anunciadas por Mario Draghi em continuidade e são  pois um reforço  “quantitativo”  do programa. A compra de ativos aumentaram de  20 mil milhões de euros mensais (um terço mais), as taxas são ainda mais reduzidos e o programa de empréstimo de longo prazo para os bancos é ainda reactivado.

Os resgates de dívida privada

Mas o BCE terá tomado um novo rumo ao tentar chegar directamente a economia real. Para isso, foram tomadas duas novas medidas. O alargamento  para o universo  da dívida privada  das compras de activos  e o funcionamento da TLTRO. Ao aceitar, pela primeira vez, e para a surpresa de muitos, a recompra da dívida das empresas, o BCE reconhece que existe um problema de transmissão da sua  política pela via do  sector bancário. A decisão de aumentar de 33% para 50% a parte que o BCE pode comprar pelas agências supranacionais, como o Banco Europeu de Investimento (BEI),  vai na mesma  direcção

A  TLTRO II

A outra medida tomada é a dos créditos de longo prazo aos bancos 4 anos, baptizada no calão  do BCE TLTRO. Estes empréstimos são de um novo tipo, diferente dos realizados até  agora. Na sua versão anterior, o TLTRO I, o BCE estabelecia  uma condição para a participação dos bancos neste modo de refinanciamento : terem eles uma grande carteira de empréstimos para as empresas

Sem ser absolutamente ineficaz, este dispositivo era insuficiente. A LTRO II  passa, portanto, à velocidade suficiente: as condições de acesso não mudam, mas os bancos que têm ao longo da vida de crédito aumentado o seu volume de empréstimos concedidos irão ver  a sua taxa descer até à diferença entre a taxa de refinanciamento (taxa de partida) e a taxa de depósito. Concretamente, isto significa que um banco pode esperar ser remunerado a taxa  0,4% dos seus empréstimos junto do  BCE. Em termos bem mais claros, o BCE subsidia os seus empréstimos bancários directamente. Novamente, isso é uma tentativa de agir mais especificamente sobre os  empréstimos bancários.

A lógica do dispositivo do  BCE

O BCE vai, portanto, muito longe. Mario Draghi testa   a paciência alemã até aos seus limites e  prova que é  audaz.  Draghi também assume que a política monetária não convencional, tal como tem sido praticada até agora não é suficiente. Então este decide passar a um nível mais elevado, o de “contornar” o sector bancário e de o estimular mais directamente. Tal como  o próprio Draghi o indicou, há uma “sinergia”, uma “lógica de conjunto” nesta nova forma de actuação. O incentivo dos bancos para emprestar deixa de ser apoiada somente pela taxa interbancária  negativa, é complementado por um mecanismo a TLTRO II, que permite aos bancos  compensarem  os efeitos de taxas negativas em termos de rentabilidade, incentivando-os a conceder empréstimos  com uma recompensa directa. Enquanto isso, os bancos terão de enfrentar a concorrência no mercado de obrigações sustentado pelos resgates do BCE. Em suma, o novo dispositivo é centrado na recuperação do crédito e da actividade.

A obrigação de convencer

A isto se soma o efeito psicológico desejado por Mario Draghi. O presidente do BCE foi absolutamente claro de que queria fazer esquecer  os efeitos desastrosos de 3 de Dezembro, onde tinha decepcionado os mercados. Ele tinha assim que ser forte, apresentar medidas nesse sentido.  O anúncio de várias medidas de um “pacote global e coerente” tinha esta função. A baixa das taxas de  refinanciamento, pouco significativas,  tinha a função de participar neste “efeito de massa.” A mudança de discurso sobre o futuro, com taxas esperadas que deveriam permanecer a esse nível ou mais baixo ainda, mesmo depois do fim do QE, visava também este  objectivo. Foi para provar que o BCE ainda tinha armas e que estava determinado a usá-las. O objectivo visado é, obviamente, o de criar um efeito de confiança quanto às  expectativas de inflação . Esta recuperação deve permitir que os agentes económicos recuperem  a confiança no futuro e, assim, ganharem o gosto pelo  investimento. O efeito sobre a oferta de crédito é assim completada com um efeito  sobre a procura .

Os limites da credibilidade

Ainda assim, esta ambição permanece sujeita a algumas dúvidas. A  vários níveis. Em primeiro lugar, a acção do BCE permanece desequilibrada entre a oferta e a procura de  crédito. Muito activo e concreto sobre a oferta, continua a ser limitado  quanto  ao efeito da confiança pelo lado da procura . Ora,  a confiança no BCE é claramente em andamento agora. O aumento dramático no euro para  US $ 1,11, quando Mario Draghi anunciou que as taxas não iam baixar  “a menos que os factos mudem” durante a conferência de imprensa comprova e com  crueldade este mesmo  facto. Além disso, depois  de ter aplaudido  durante alguns minutos os  anúncios  de Mario Draghi, os mercados de acções terminaram  o dia de quinta-feira  em baixa .

O BCE está sujeito a um fenómeno bem conhecido nos mercados: mais se quer provar que se pode agir,  mais se é  levados a dar sinais  da sua impotência. Esvaziando  muito do seu arsenal, assumindo uma viragem para tentar  chegar à economia real, o BCE acaba de provar que está realmente em pânico e face a uma situação que lhe escapa. Como acreditar que um presidente do BCE, que promete que as taxas não vão descer mais  quando por  duas vezes ele já fez a mesma promessa dando o dito por não dito? Mario Draghi  bem tentou  de novo  provar que a  QE tinha funcionado, mas o seu discurso foi muito mais “defensivo”: por duas vezes ele defendeu a sua acção com o seguinte  argumento: se a QE não tivesse funcionado  em vez disso teríamos tido uma deflação catastrófica. Este é um discurso um pouco diferente do que  ele tinha feito até agora  em que Draghi disse ter visto  um efeito positivo da QE sobre o crescimento.

(continua)

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Ver o original em:

http://www.latribune.fr/economie/union-europeenne/mario-draghi-peut-il-encore-convaincre-de-l-efficacite-du-qe-556300.html

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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