BISCATES – OS ABENÇOADOS DO ESPÍRITO SANTO E A ORDEM SOCIAL – por Carlos de Matos Gomes

biscates

Parece que a partir dos papéis do Panamá foi descoberta e anda por aí numa clandestinidade de bordel para famosos, uma lista de políticos e de jornalistas abençoados pelo BES. Em termos da moda existe uma guest list, ou vip list de políticos e jornalistas que recebiam uns dinheiros extra, por fora, para agirem nas suas actividades em prole do bem comum, da competitividade, da liberdade da grandeza da Pátria tão ofendida com o 25 de Abril de 74 também em benefício do grupo ou da família Espírito Santo.

A notícia tem várias leituras. A primeira e mais óbvia: não foi exposta no Correio da Manhã. Logo Sócrates não recebia do saco azul (não devia ser verde?) do BES.

Depois, a lista também não interessa nem aos meninos jesuses, diga-se, nem ao juiz Alexandre, nem ao procurador Teixeira, nem à procuradoria em geral, que parece terem-na caçado numa rusga aos escritórios do Espirito Santo. Nem interessa, e isto apesar de estar em segredo de justiça, à comunidade comentadeira, nem sequer a Marques Mendes. Em conclusão: para a justiça oficial (a que pagamos com os impostos), não há perigo de fuga de nenhum dos beneficiários nem para o estrangeiro, nem para os ouvidos da populaça. Para a justiça da praça pública também não interessa – não há Sócrates e o resto é, como se depreende, uma lista de gente de posição, séria e de boas contas. Siga a dança que é pessoal de confiança!

Também se depreende da ausência de interesse que a lista não indicia crime de fuga aos impostos, dado o inspector tributário que acompanha as investigações mais seleccionadas não ter colocado os nomes na lista de devedores da AT, da Segurança Social, nem haver penhoras de salários, pensões ou de bens móveis ou imóveis. À brasileira: tudo nos conformes, portanto. Para a Fisco, todos pagaram na hora os serviços do saco azul do BES. Em conclusão: o saco azul do BES tinha a contabilidade em dia e até emitia faturas com número do contribuinte! Vivemos no melhor dos mundos: O Estado Português exige fatura por um bolo, o Panamá passa fatura de sacos azúis! Nós, os portugueses, gente de fé, acreditamos em ambas as afirmações! É a fé que nos salva! O IRS desses ilustres não engana.

A questão fiscal é, neste caso, apenas um pormenor. O que ressalta à primeira vista é o respeito pela velha e boa ordem social do país do respeitinho que somos. A cortina de silêncio à volta da lista revela o melhor que existe na nossa sociedade: de um lado a bíblica benemerência dos senhores, do outro a humilde modéstia dos pobres e servos da gleba ao recolheram a esmola. Cada classe e cada português e portuguesa no seu lugar.

Já houve quem fizesse as contas. Não existiu até hoje nenhum governo constitucional que não tivesse como ministro um ou mais empregados do ex-BES. Acrescentem-se advogados, engenheiros, contabilistas que trabalhavam para o ex-BES e eram deputados, autarcas e consultores dos governos. A família Espírito Santo colocava empregados no governo, na Assembleia, nas grandes empresas, nas câmaras municipais e eles davam pareceres sobre terrenos onde iam ser construídos prédios do BES, pareceres sobre serviços de saúde que iam para o BES saúde, sobre estradas financiadas pelo BES e até o Estado português comprava, com o bom conselho dos empregados da família, empresas que davam prejuízo, como a Portugália. O BES fazia publicidade nos jornais, nas rádios, nas televisões. A família Espírito Santo auxiliava comentadores políticos, económicos e do futebol a serem independentes, imparciais. Tudo pelo bem. A família Espírito Santo não era Dona Disto Tudo. Era isto tudo connosco lá dentro.

Através dos seus empregados, a família comprava submarinos para a armada, helicópteros para apagar fogos e aviões para a defesa aérea, blindados para patrulhar as fronteiras. Os jornalistas recebiam uns trocos para garantirem aos portugueses de terra, mar e ar, fardados ou à paisana, que o Espírito Santo os protegia e defendia. Os avençados prestavam um serviço à comunidade!

É evidente que, praticando o Espírito Santo o bem e apenas o bem, defendendo o Espírito Santo apenas o interesse dos portugueses e de Portugal, garantindo o Espírito Santo a segurança e o bem-estar dos portugueses através dos seus empregados no governo, nas empresas públicas, nos meios de comunicação, porque teria ainda o Espírito Santo que pagar-lhes gorjetas além dos salários e das comissões? É a tal pergunta do milhão de dólares.

Só encontro explicação na velhíssima anedota da mulher do construtor civil (o pato bravo dos anos 60) que, ao passar por um outro construtor civil, este acompanhado por uma daquelas vampes das capas dos livros do Vilhena, diz ao marido: «Ó Zé, a nossa amante é melhor do que a do compadre!»

Acredito que os Espirito Santo queriam os seus políticos, os seus jornalistas, os seus e a suas serviçais mais bem vestidos e vestidas, com melhores carros, mais bem perfumados e perfumadas, em melhores hotéis e praias de férias, acompanhados por melhores amantes (agora namorados e namoradas) do que os e as dos seus compadres…

Os Espírito Santo eram mais generosos, mais fartai vilanagem do que a concorrência dos Melos, dos Belmiros, dos Champalimauds…Eles queriam que os seus animais de estimação, do ministro ao cavalo de cortesias, do deputado ao lulu, do edil ao pavão se apresentassem melhor do que os dos seus vizinhos da Quinta da Marinha, ou da Foz do Douro! A gorjeta era, afinal, apenas uma técnica de imagem e marquetingue institucional. Tudo em prol de Portugal.

Por outro lado, é compreensível o silêncio dos beneficiários. Se os senhores de posição são discretos na ajuda à pobre jovem a quem poem casa, a jovem também não deve andar por aí a espalhar pela vizinhança que está por conta. Dirá, quando muito, que recebe apenas uma bolsa para estudos e investigações. Discrição e respeitinho.

Só gostava de ver a cara dos políticos e jornalistas avençados pelos compadres dos Espírito Santo ao saberem que se venderam por tuta e meia a uns pelintras, a uns unhas de fome, que andaram por aí a dormir em pensões e a comer em tascas, acompanhados por manhosas e manhosos de dentes tortos e sovacos pestilentos. Uns andaram a fazer de acompanhantes de luxo, os outros de prostitutas de vão de escada! Os sindicatos deviam protestar contra esta discriminação. A trabalho igual, salário igual!

E há a questão do bom nome. No tempo do doutor Salazar, da moral do come e cala, não foram divulgadas as listas dos clientes dos Ballets Rose, mas só o da patroa. O bom nome dos clientes era um bem que o Estado Novo preservava! Devemos seguir esse exemplo, ou ainda temos más surpresas. A clientela das avenças, tal como a carne é fraca, mas o povo vota nela.

Preserve pois o novo Estado o bom nome dos clientes do bordel, que é o que resta. Daí o meu apoio ao bom recato das listas dos abençoados do BES. E também ao das listas dos, neste caso, avençados do Paulo Fernandes da Cofina, dona do Correio da Manhã, dos Melos, dos Belmiros, sem esquecermos as listas dos por conta dos chineses da EDP e da REN, dos franceses da ANA, para não falarmos dos avençados dos clubes da bola, das empresas de sulfitos, sulfatos e transgénicos, incluindo a Monsanto, dos da Santa Madre Igreja, do Calcitrin, do BPN (tão esquecidos), do BANIF…

A lista dos trolhas que trabalham ao negro ao domingo, a remendarem uma parede sem passarem fatura, é que tem de ser pública! É a transparência!

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

2 comments

  1. Pingback: Os abençoados do espírito santos e a ordem social

  2. ViriatoaPedrada

    Na verdade é um artigo fabuloso, como o são todos os que escreve. Seria interessante ver a lista e provavelmente muitos são os mesmos do BPN, mas também muitos dos que ajudaram a derrubar Sócrates e que não se cansam ainda hoje de o culpar de tudo de mau que nos esta a acontecer incluindo a vinda da Troika. Desconfio que muitos não se cansam de se persignar e até usam avental fora da cozinha. Se não são parecem ser todos senhores respeitaveis e adivinha-se quais as discotecas partidarias que frequentam.http://viriatoapedrada.blogspot.pt/2014/05/nem-o-espirito-santo-nos-vale.html

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: