CARTA DO RIO – 108 por Rachel Gutiérrez

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Preciso falar ainda sobre o estupro da menina de 16 anos porque li, na última quinta-feira, um artigo exemplar de um ativista da Cidadania, Daniel Souza, que percebe que “a cultura do machismo não muda através de leis”, porque, afinal, no Brasil, temos a lei Maria da Penha e delegacias especiais de atendimento a mulheres espancadas ou ameaçadas. Segundo Souza, a mentalidade ou cultura machista só vai mudar “quando os homens tiverem a consciência inequívoca da importância da mulher (…) como a outra metade que faz de nós a Humanidade. (…) A cultura do machismo floresce nas entrelinhas do cotidiano: seja em um comercial na TV, numa piada entre amigos, no trânsito ou num programa de auditório.” E adiante cita a “pérola do deputado paulista Paulo Maluf: ‘Se está com desejo sexual, estupra, mas não mata… Não bastasse o estupro ser uma cultura, é também uma política.”

O ativista termina seu artigo com uma frase que ressoa: “Que o crime cometido seja um marco criminal no país, e que cada vez que os homens se olhem no espelho, vejam também uma mulher.” Infelizmente, ainda são poucos os homens capazes de ter essa visão.

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No entanto, não devemos esquecer alguns pensadores visionários do século XX, como, Fritjof Capra, por exemplo, para quem “a noção do homem como dominador da natureza e da mulher e a crença no papel superior da mente racional foram apoiadas e encorajadas pela tradição judaico-cristã, que adere à imagem de um deus masculino, personificação da razão suprema fonte do poder último que governa o mundo a partir do alto e lhe impõe sua lei divina. “ in  O Ponto de Mutação. Capra não hesitou em afirmar, em outros livros, que a transformação mais radical e profunda do mundo nos últimos tempos se deveu à “revolução” das mulheres, no século passado.

Será por isso que os homens as odeiam tanto neste início do século XXI? Rosiska Darcy de Oliveira, em seu artigo Vestígios da Idade da Pedra, deste último sábado, denuncia:

O fundamento da violência endêmica contra as mulheres, qualquer que seja sua manifestação, assédio, espancamento, estupro ou assassinato, é o não reconhecimento de sua dignidade humana. Em todos os países, sobrevive, em maior ou menor grau, um sentimento ancestral, animalesco, que nega às mulheres o direito à integridade do seu corpo e à liberdade de sua sexualidade. (…) Estancar a violência contra as mulheres é, em qualquer país, e nós somos responsáveis pelo nosso, essencial à democracia. Urgente porque o que está em curso é uma contrarrevolução. É a vingança da barbárie contra a revolução que, no século XX, quebrou o paradigma milenar que sujeitava as mulheres aos homens e deu, assim, um passo adiante no processo civilizatório.

Recordo um outro visionário, como Capra, que deu o título de Liberação da Mulher, Liberação Humana ao livro que aborda a questão. Trata-se do controvertido escritor e filósofo de esquerda, Roger Garaudy, que foi preso pelos nazistas durante a Segunda Grande Guerra por participar da resistência e, finda a guerra, elegeu-se deputado pelo Partido Comunista, do qual foi expulso, em 1970, ao não apoiar a invasão da Checoslováquia pela União Soviética. Foi então que escreveu seu famoso Palavra de Homem. Anos mais tarde, converteu-se ao catolicismo e, finalmente, tornou-se muçulmano (!) e defensor da Palestina. Esse inquieto e luminoso pensador, que sempre li com grande prazer,  morreu em 2012, pouco antes de completar 99 anos.  

Em O Ocidente é um Acidente, publicado no Brasil nos idos de 1970, Garaudy narra o que não me canso de recontar: que um índio peruano costuma levar seu filho, quando este chega à chamada “idade da razão”, por volta dos 7 anos, para visitar um milharal. Diz-lhe, então: “para que o milho nasça, é preciso que haja terra, água (a chuva) e sol. Por isso, ao colhermos o milho, devemos agradecer à terra, à água e ao sol.” Depois, apresenta-o a outro indiozinho do seu tamanho e diz: “Ele é tu mesmo, só com outra cara.” E eu costumo insistir : assim aprendemos, com esse índio peruano que o respeito à natureza, a sociabilidade e a parceria são coisas simples e claras como um dia de sol e um milharal.

A maravilhosa frase do índio me faz recordar ainda uma resenha que que fiz, há alguns anos, para o Jornal do Brasil, do livro de Elisabeth Badinter, Um é o Outro, brilhante ensaio antropológico e filosófico sobre a condição das mulheres ao longo dos séculos. Nesse livro, Badinter, um pouco como fez Riane Eisler, percorre os milênios em que a mulher foi respeitada primeiro como deusa para depois ser sistematicamente inferiorizada, subjugada e oprimida pelos homens, à medida em que o patriarcado se firmou e solidificou nos últimos seis mil anos. Ela explica que, “o Patriarcado não é um simples sistema de opressão sexual. Também é a expressão de um sistema político que, em nossas sociedades, se apoiou numa teologia…” No meu Manifesto Mulheres/A violência continua, mencionei que “a Igreja separou os homens das mulheres, preocupou-se obsessivamente com o sexto mandamento e culpabilizou o sexo como pecado. Em sua ideologia puritana e extremamente misógina, tudo se passa como se só os homens fossem filhos de Deus; as mulheres, filhas de Eva, encarnam a tentação, o pecado, o Mal.”

Voltemos à Badinter sobre homens e mulheres, em seu último capítulo: “A natureza os fez de tal forma que se completam e não se confundem (…) dizer que Um é o Outro não significa aqui que Um é o mesmo que Outro, mas que Um participa do Outro e que eles são, ao mesmo tempo, semelhantes e dessemelhantes.” Por isso, sempre preferi à palavra igualdade quando se trata de homens e mulheres, ou quaisquer “diferentes”, a palavra equivalente. Afinal, não somos iguais, somos semelhantes, mas equivalentes, temos o mesmo valor e merecemos o mesmo respeito.

Quantas vezes será preciso dizer que as escolas deveriam ensinar aos meninos e às meninas o respeito ao outro, o espírito coletivo, a parceria, em suma, a cidadania…e a compaixão?

No fundo é aquele ensinamento do índio peruano que podemos parafrasear dizendo “eu sou tu mesmo (quer dizer: equivalente a ti) só com outro sexo”, ou com outra orientação sexual, como os homoafetivos.

Estendo, portanto,  aos gays e a todos que pertencem aos grupos de LGBTs, (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trangêneros)  o que Rosiska Darcy de Oliveira diz em relação à violência contra as mulheres:

A violência contra as mulheres é um crime contra a Humanidade a ser reconhecido por cada país e pela comunidade internacional com a mesma indignação que exige a erradicação da tortura, Leis e repressão não acabarão com o ódio contra as mulheres (ou contra LGBTs ) , mas hão de puni-lo e coibi-lo encarcerando os criminosos dessa guerra suja e sem adversário – as mulheres não estão em guerra contra ninguém – que autoriza a estuprar e matar.

Nem os jovens brutalmente assassinados na boate Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos, estavam em guerra contra ninguém ! Como os jovens massacrados de Paris, estavam celebrando o que tanto parece mexer com o ressentimento desses criminosos hediondos –  a simples felicidade de viver.

 

One comment

  1. Josefina Neves Mello

    belo texto!
    grata pelas referências de leitura
    abs

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