O MITO DO NARCISISMO por Rachel Gutiérrez

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Mais tarde, em 1921,  em O Narcisismo como Dupla Direção , um de seus ensaios psicanalíticos mais inovadores e fecundos, Lou Andreas-Salomé vai redefinir a noção freudiana de narcisismo ao mesmo tempo que esboça uma teoria do poético.

O MITO

Em As Metamorfoses, Ovídio introduz a história de Eco e Narciso aparentemente para confirmar a infalibilidade das profecias do adivinho Tirésias. Vejamos:

Tirésias, cuja fama se espalhara pelas cidades da Beócia, dava respostas infalíveis às pessoas que o consultavam. A primeira a experimentar a veracidade de suas palavras foi a ninfa Liríope, que outrora Céfiso enlaçara nas curvas de seu curso e, uma vez presa, violentara. Quando seu tempo chegou, a ninfa deu à luz um filho, a quem chamou Narciso. Consultado a seu respeito, se o menino viveria muito, (……) o adivinho respondeu: “Se não se conhecer”.

Narciso, portanto, é filho de um rio – Céfiso – , e de uma ninfa cujo nome lembra os lírios.

O jovem Narciso, celebrado por sua beleza extraordinária, desprezou o amor de uma ninfa, a “ressonante Eco”, que fora punida pela deusa Juno, mulher de Júpiter, porque esta, detida maliciosamente pela loquacidade de Eco,  perdera muitas oportunidades de surpreender seu marido infiel com as outras ninfas.

–       Com essa língua , que tanto me fez ser iludida , pouco poderás fazer e terás um uso brevíssimo das palavras.

Daí em diante, Eco só pôde repetir os últimos sons que ouvia.

Mais tarde, a ninfa é rejeitada por Narciso e, inconsolável, definha até morrer, transformando-se nos rochedos que dela só conservaram a voz.

Certo dia, durante uma caçada,  Narciso aproxima-se de uma fonte. E é nessa fonte misteriosa, onde se espelha um aspecto paradisíaco da natureza, que Narciso vai se encontrar com o próprio reflexo. Lemos em Ovídio:

Havia uma fonte de água  muito pura, brilhante e prateada, da qual jamais haviam se aproximado os pastores nem as cabras que pastavam na montanha, nem qualquer outro gado, que jamais fora perturbada por qualquer ave, por qualquer animal selvagem, por qualquer ramo caído de uma árvore.

À beira da fonte, ao perceber a própria imagem no espelho das águas, o jovem entrou em êxtase amoroso. E atormentado por não poder tocar e abraçar esse outro si-mesmo de quem se enamorara, por sua vez enlanguesceu e esqueceu-se de comer e de beber, criando ali raiz e transformando-se na flor que leva seu nome e desde então se mira em fontes e lagos na bela estação para perecer a cada outono.

A riqueza poética e a densidade filosófica do mito de Narciso o fizeram percorrer toda a história da literatura européia ocidental. Louise Vinge, especialista no assunto, afirma que a interpretação de Ovídio é, de modo incomparável, a fonte mais importante para a compreensão do tema.

Existe, porém, uma outra versão da lenda, menos popular mas bastante difundida, que atribui ao filho de Céfiso e Liríope uma irmã: eles eram exatamente iguais, feições, cabelos,  tudo; usavam roupas semelhantes e caçavam juntos. O jovem teria se apaixonado pela irmã mas esta adoeceu e morreu. Enlouquecido de dor, Narciso passou a contemplar-se dia e noite nas águas de um lago, buscando na sua a imagem amada. Assim definhou e morreu.

O NARCISO CRIADOR

Dichter sind  doch immer Narcisse

(Poetas são, pois, sempre Narcisos)

A.W.Schlegel

Lou Salomé começa seu ensaio de 1921 afirmando que só pouco a pouco a noção freudiana de narcisismo veio a revelar todo o seu significado. E cita a Metapsychologie :

O termo “narcisismo” vem mostrar que o egoísmo é também um problema libidinal, ou, dito de outra maneira, o narcisismo pode ser considerado como o complemento libidinal do egoísmo.

Já se estava longe da concepção dos narcisistas como  indivíduos  que só conseguem obter satisfação sexual quando tomam seus próprios corpos como objetos eróticos. Traços narcisistas podiam ser encontrados em neuróticos, em crianças e até mesmo entre membros de tribos primitivas, e em Totem e Tabu, Freud acrescentara os amantes à lista cada vez mais longa de narcisistas.

Para Lou, se o narcisismo não mais se limitava a um estágio particular de desenvolvimento (da libido) a ser superado, mas acompanhava, sendo o amor de si, todos os estágios, ela agora podia voltar-se para o que realmente lhe interessava – para a dimensão macrocósmica do narcisismo ( na expressão de Jacques Le Rider ).Pois o pensamento de Lou jamais se afasta da idéia de Totalidade:

(…..)  é o outro aspecto, o que permanece na sombra para a consciência do eu, o da identificação intuitiva mantida com o Todo, da reunificação com o Todo como meta fundamental positiva da libido que eu gostaria de ressaltar em alguns pontos, exatamente em três pontos: em nossos investimentos de objeto, em nossos sistemas de valores, e na conversão narcísica em criação artística.

E é nesse terceiro ponto, a conversão narcísica em criação artística, que Lou Andreas-Salomé esboça o que entendo por sua teoria do poético. Quando se refere ao mito, a psicanalista adverte:

(…..) não devemos esquecer que o Narciso da lenda não se olha num espelho artificial, mas no da natureza:  talvez ele não tenha visto na água apenas a si mesmo, mas a ele mesmo como o todo, senão, por que não fugiu ao invés de permanecer? Não é verdade que seu rosto exprime tristeza além do maravilhamento? Como podem estar juntos esses dois elementos, a felicidade e a tristeza, o que escapa de si-mesmo e o que se encerra em si-mesmo, o dom de si e a afirmação de si?…

Narciso vê sua imagem inserida na totalidade, vê a si mesmo como o todo ou, podemos dizer, o todo refletido em si mesmo, em uma identificação ou reunificação que seria a meta fundamental positiva da libido, ou ainda: a condição de possibilidade da criação poética ou artística.

Décadas mais tarde, Gaston Bachelard escreve em A Água e os Sonhos:

…Narciso, na  fonte, não está entregue somente à contemplação de si mesmo. Sua própria imagem é o centro do mundo. Com Narciso, é toda a floresta que se mira, todo o céu que vem tomar consciência de sua grandiosa imagem.

Narciso vê a si mesmo no todo e o todo em si mesmo, como confirmam o texto de Lou Salomé, de 1921, e o de Bachelard, de 1942, distantes no tempo e no entanto tão próximos no espaço mágico da fonte mítica.

Que é que Narciso pode fazer com isto que vê: ele mesmo no todo e o todo em si mesmo? Se, como diz Bachelard…

diante das águas, Narciso tem a revelação de sua identidade e de sua dualidade, a  revelação de seus duplos poderes viris e femininos, a revelação, sobretudo, de sua realidade e de sua idealidade.?

Como se tivesse ouvido a nossa pergunta, a psicanalista responde:

O Narciso plenamente realizado é somente aquele que, como Prometeu, cria cultura para si mesmo, criando ao mesmo tempo uma outra existência humana como uma segunda realidade.

(Continua)

 

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