REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 20. ESQUEÇA O BREXIT, O VERDADEIRO RISCO PARA A UE PODERÁ VIR DE ITÁLIA…, por ROMARIC GODIN

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E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

La tribune

Esqueça o Brexit, o verdadeiro risco para a UE poderá vir de Itália …

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La Tribune, Romaric Godin,

Romaric Godin, Oubliez le Brexit, le vrai risque pour l’UE pourrait venir d’Italie…

La Tribune, 5 de Julho de 2016

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Matteo Renzi criou um tal vazio em redor de si no seio do próprio partido, o Partido Democrático, que será impossível substitui-lo por um outro homem para a presidência do Conselho. (Créditos: Reuters)

 

Matteo Renzi deve ter de enfrentar duas crises: a necessidade de capitais para os bancos e um referendo de alto risco em Outubro sobre as suas reformas constitucionais. A sua posição é muito frágil sobre as duas frentes, o que é um desafio para a UE.

O Brexit não é talvez o único desafio de grande amplitude que a União europeia vai ter de enfrentar este ano. Em outubro – a data exata ainda não está afixada – os Italianos serão chamados às urnas para se pronunciarem por referendo sobre a reforma constitucional proposta por Matteo Renzi. Um voto crucial, porque o presidente do Conselho fez um verdadeiro voto de confiança na população para com a sua ação. É um ponto importante, porque convém recordar que o antigo presidente da câmara municipal de Florença chegou ao poder em Dezembro de 2013 na sequência “de um golpe de Estado militar” interno contra o chefe do governo de então, Enrico Letta. Matteo Renzi nunca “foi escolhido” pelos Italianos. No caso de derrota, será difícil que o hóspede atual do Palácio Chigi, o nosso S. Bento, fazer como nada se tenha passado .

A caminho de novas eleições?

Ora, Matteo Renzi criou um tal vazio em redor de si-mesmo no seu próprio partido, o Partido Democrático, que será impossível substitui-lo por um outro homem na presidência do Conselho. Neste caso, a dissolução do Parlamento deveria aparecer como a única saída possível. É de resto o que indicou: no caso do “não”, haverá novas eleições legislativas que serão de muito elevado risco. As últimas sondagens revelam que a formação eurocética do Movimento 5 Estrelas (M5S), criado por Beppe Grillo, aproveitou plenamente as suas duas vitórias espantosas para os municípios de Roma e Turim. Pela primeira vez, está pois à frente das sondagens com mais de 30%. A sondagem realizada por EMG Acqua para La7 dá-lhe 30,7% das intenções de voto contra 30,2% ao Partido democrático (PD) de Matteo Renzi. No caso de vitória nas legislativas, o M5S arrisca-se a agitar a União europeia, nomeadamente com a sua promessa de referendo sobre a manutenção do país no euro.

O “Não” à frente nas sondagens

Este cenário está longe de ser impossível. Euromedia realizou uma sondagem sobre o referendo constitucional. Indica uma forte proporção de indecisos (19,4% ignora em quem votarão; 17,7% ignoram se irão votar), mas, de momento, o “Não” ao projeto Renzi está à cabeça com 54,1% dos que sabem que votarão. O “Não” está à cabeça desde meados de Abril e o seu avanço parece alargar-se à medida que os indecisos recuam. Resumidamente, Matteo Renzi tem razões para estar a tremer antes desta votação. Ele que tinha querido fazer deste referendo um plebiscito sobre o seu nome e sobre a sua “ação reformadora”, como David Cameron no Reino Unido, estimou de forma bem ligeira, sem dúvida, o valor das suas forças. As municipais de Junho foram um golpe de punição , o referendo poderia ser um golpe de graça.

O projeto de reforma constitucional

Qual é o conteúdo desta reforma constitucional? É extremamente rica, mas tem numa linha forte. Trata-se de pôr fim “ao bi-camarismo perfeito”, ou, por outros termos à igualdade das duas câmaras, a câmara dos deputados e o Senado. A partir de agora, somente a primeira assembleia poderá derrubar o governo. Como esta será eleita de acordo com um sistema eleitoral definido por uma lei que atribui a maioria seja ao partido que tem mais de 40% dos votos à primeira volta, a quem será então atribuída uma maioria de 340 lugares. SE nenhum partido ou formação obtiver à primeira volta os 40% dos votos haverá então uma segunda volta entre os dois primeiros e o que ganhar terá então um bónus de 15% dos lugares. O governo italiano deveria assim ficar mais estável. O Senado será reduzido a uma câmara composta de 100 membros (contra 351 hoje), principalmente nomeados pelos conselhos regionais, e não será competente senão para as reformas constitucionais e para as leis territoriais.

Este projeto, que consagra uma certa recentralização do poder (as competências das regiões são reduzidas) dá razões para o descontentamento de muitos Italianos, mas a implicação de Matteo Renzi na campanha fez claramente cair o projeto ele mesmo para um segundo plano. Ora, o presidente do Conselho italiano tem cada vez mais dificuldade em unificar fora do seu próprio campo que, além disso, tem estado sujeito a clara redução de apoios. É a lição principal das eleições municipais de Junho: o PD sofre desta incapacidade de criar maiorias à segunda volta. De imediato, no âmbito de um plebiscito sobre o nome de Matteo Renzi, esta incapacidade pode custar extremamente caro.

Revolta interna no PD

A atmosfera começa por conseguinte a tornar-se irrespirável no interior do PD onde a oposição interna a Matteo Renzi está a levantar a cabeça. O seu chefe de fila, Gianni Cuperlo, considerou que “a experiência do primeiro-ministro falhou”. E critica fortemente o presidente do conselho: “hoje, és visto como um inimigo por uma parte da direita, e é bem assim, mas também por uma parte da esquerda e, isto é um drama. Sem mudança de estratégia, a esquerda vai ser derrotada”. Isto é mais preocupante para Matteo Renzi e por várias razões. Primeiro, porque o partido, que ele tinha querido disciplinar começa a dividir-se e isto não augura nada de bom para a campanha referendária. Seguidamente, porque, no caso “de não”, uma destituição de Matteo Renzi não é de excluir. Para já, os seus adversários evocam o nome de Dario Franceschini, ministro da Cultura, e um dos artesãos “do golpe de Estado militar” de Matteo Renzi em 2013, como seu eventual sucessor.

O malogro “das reformas”

O hóspede do palácio Chigi, coqueluche de uma parte “dos reformadores” europeus, está por conseguinte numa posição muito difícil e com pouca margem de manobra. Porque, apesar de uma atividade legislativa intensa e de um sentido inato da comunicação, os Italianos não vêem uma melhoria notável do seu destino. A economia italiana é frágil, o seu crescimento, já fraco, parece ainda enfraquecer-se mais nestes últimos meses. “Job Acts” tanto elogiado, até na França, por Matteo Renzi, permitiu certamente reduzir a taxa de desemprego, mas este último fica superior à 11,5% da população ativa, muito longe portanto dos níveis de antes da crise e enquanto que, por seu lado, a precarização progrediu fortemente. Globalmente, a Itália permanece na cauda do pelotão da retoma e realmente não ganhou nada com a sua entrada na UE. Os Italianos parecem cansados do discurso sobre o futuro brilhante graças “às reformas”, enquanto que fazem “esforços” desde há cinco anos e que os resultados são fracos. O discurso triunfante de Matteo Renzi choca-se com uma realidade contrária e torna-se por conseguinte inoperante. Pelo contrário, o discurso de crítica da União europeia e do euro ganha naturalmente uma maior dimensão.

O nó da crise bancária

A última etapa do drama italiano poderia evidentemente ser a crise bancária que está a ameaçar o país. Os bancos italianos são agravados por 360 mil milhões de euros de créditos de cobrança duvidosa, fruto da dura recessão de 2011-2013 e da fraca retoma que se seguiu. Isto conduz à uma necessidade de capitais de aproximadamente 40 mil milhões de euros. Ora, ninguém quer emprestar aos bancos italianos na medida em que estas necessidades de capitais puderem aumentar no caso de nova recessão conjuntural. A maior parte dos estabelecimentos da Península dirige-se por conseguinte para uma inevitável falência (com 20% de perdas, só Unicredit estaria ainda solvável) e, de acordo com as regras de resolução da união bancária, credores, acionistas e depositantes serão obrigados a contribuir. Mas na Itália, os credores dos bancos são frequentemente particulares. Em novembro, a reestruturação de quatro pequenos bancos tinha produzido um levantamento de fortes críticas depois do suicídio de um aforrador reformado. Matteo Renzi não pode a preço nenhum lançar-se numa tal operação, e isso selaria o fim da sua carreira política.

A fraca margem de operação de Matteo Renzi

Também negocia ele o direito de ajudar diretamente os bancos por um apoio estatal, o que doravante é completamente proibido na zona euro. Ao nível europeu, e particularmente na Alemanha, recusa-se esta opção que reduziria a nada qualquer credibilidade de uma união bancária já bem frágil. Sobretudo, uma tal ajuda conduziria a um aumento da dívida italiana, já ela de 132,7% do PIB neste momento e conduziria à exigência de novos cortes orçamentais na Itália. Resumidamente, Matteo Renzi não dispõe de reais soluções e, além disso, todas as soluções que se apresentam parecem más e destinadas à enfraquece-lo. Porque, sem saneamento do sistema bancário italiano, o crescimento não arrancará novamente, porque a concessão de crédito permanecerá sempre demasiado fraca.

Neste labirinto, o futuro político de Matteo Renzi anuncia-se muito sombrio. Para retomar forças, ousará desafiar a UE e a Alemanha impondo uma recapitalização estatal dos bancos apesar das regras europeias? Ousará também, aquando do conselho europeu de Setembro à Bratislava, defender contra Berlim uma reforma da zona euro que caminhe para uma Europa de mais solidariedade? E será isso suficiente? Nada está menos certo.

As duas próximas crises

Em todo caso, dez dias depois do Brexit, a Itália está  prestes a tornar-se um enorme problema para a União europeia que vai ter de enfrentar duas crises essenciais que ela bem ajudou a criar. A primeira, terá já começado com o desmoronamento dos títulos bancários na Bolsa após o Brexit, é a da união bancária que tem sido desde o início apenas uma construção coxa, fruto de um compromisso laborioso com a Alemanha que nunca tem tido em conta a realidade italiana.

A segunda próxima crise é a da emergência de um governo eurocético na Itália, a partir de agora claramente possível. Ainda aí, a violência do tratamento deste país pela União Europeia não é estranho a este risco. E isto tem sido assim, desde a substituição do governo Berlusconi em 2011 sob a pressão do BCE até às políticas sempre renovadas “de reformas” que estão na base de uma recessão severa e pouco conclusiva, reformas estas conduzidas sob os aplausos europeus. A UE frequentemente jogou o mau papel para os Italianos. Recordemos a diferença entre os elogios a Mario Monti antes das eleições de fevereiro de 2013 e o resultado do partido deste presidente do conselho (8,30%). Esta incompreensão devia desembocar numa revolta, a menos que houvesse uma mudança de orientação. Matteo Renzi tentou uma via média, mas encalhou. Os Italianos por conseguinte estão tentados por outras alternativas. O Brexit poderia não ser mais do que um bom petisco, porque a Itália, terceira economia da zona euro, é um grande peso com a sua dívida de 2.300 mil milhões de euros

La Tribune, Romaric Godin, Oubliez le Brexit, le vrai risque pour l’UE pourrait venir d’Italie…, texto disponível em:

http://www.latribune.fr/economie/union-europeenne/oubliez-le-brexit-le-vrai-risque-pour-l-ue-pourrait-venir-d-italie-584582.html

 

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