REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 27. BREXIT: SÃO DE ESPERAR EFEITOS POSITIVOS NO CRESCIMENTO BRITÂNICO, por MAXIME IZOULET

europe_pol_1993

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Brexit: são de esperar efeitos positivos no crescimento britânico

 

Maxime IZOULET, Brexit: des effets positifs sur la croissance britannique à prévoir

Sítio L’ESPOIR, 21 de Julho de 2016

 Izoulet - I

Enquanto o FMI revê e em baixa a previsão de crescimento no Reino Unido e dos países da zona euro 1, sucumbindo à campanha publicitária, é interessante considerar a evidência real, a de que temos de prever o efeito do Brexit sobre o crescimento britânico.

Na verdade, é importante ter em mente que ninguém pode prever com precisão a evolução das variáveis macroeconómicas e, a fortiori, financeiras. Os dados macroeconómicos, devido a uma certa inércia ao tempo, ou seja, devido ao facto de que eles se comportam seguindo tendências, podem ser mais ou menos apresentados a curto prazo, em particular, usando modelos auto-regressivos (as variáveis passadas são usadas para prever as variáveis futuras). Isto é o que permite, na prática, a Instituições como o Banco da França, o FMI e o INSEE, apresentarem previsões de crescimento, desemprego, inflação, etc… Mas estas previsões fazem-se sistematicamente a curto prazo, de 3 meses por exemplo e no máximo a um ano. …

Para os dados financeiros, os desenvolvimentos são tão erráticos (ou tão ao acaso), que é difícil prever como irão evoluir, mesmo no curto prazo, porque esses dados não mostram qualquer tendência, eles parecem perfeitamente aleatórios. É sobre este fato fundamental que é baseada a “teoria” da eficiência dos mercados, que não nos diz nada mais do que isso: os dados financeiros são imprevisíveis, e ninguém pode dispor de uma vantagem para antecipá-los. Há também alguma ironia em conceber o exército dos especuladores e analistas de mercado a fazerem mentir este estado de coisas que eles reconhecem, construindo cada vez mais complexos e refinados modelos para “bater o mercado”, ou seja construindo modelos para tentarem ser melhores que o mercado, a antecipar o próprio mercado . É necessário reconhecer que a sua luta insistente nem sempre é em vão, em todo o caso para alguns mas não para todos, porque é possível estar melhor informado, mais lúcido no meio do pânico, e assim distinguir informações críticas no fluxo do acessório e consequentemente de prever o que pode acontecer, e com isso obter lucros. Mas essa capacidade de antecipação dos melhores especuladores não é finalmente senão o resultado direto das estatísticas.

Mas, voltemos aos efeitos do Brexit. O caso é particularmente interessante porque ele combinava antes da votação uma incerteza do referendo sobre a reação dos mercados, ou seja sobre a evolução financeira (incluindo a evolução do valor da libra esterlina) e uma incerteza sobre a evolução dos dados macroeconómicos (desemprego, crescimento e inflação…) que foram submetidos a debate democrático, uma vez que são essas variáveis que afetam a vida dos eleitores. Claro, as piores catástrofes foram anunciadas pelos defensores do Remain, como inevitavelmente acontece durante cada uma destas eleições europeias e inclusive debitadas por jornais ou instituições veneráveis e respeitadas pelas elites, no Reino Unido e em todo o mundo. No entanto, os defensores mais inteligentes do Brexit assinalaram-no bem, que o que era mais importante no caso de saída era a incerteza e era esta incerteza que era necessário afrontar para quem quer reencontrar a  soberania do seu país.. O que criou esta impressão de fim dos tempos no momento da votação a favor do Brexit, é que uma boa parte das elites estava convencidos de que o desastre geral estava desencadeado. .

Mas para quem quer manter a cabeça fria, o que pode ser observado é que a votação não foi é um desastre, pelo menos não o foi para o Reino Unido. Primeiro, o efeito mais incerto e por um lado mais perigoso, ou seja, a reação dos mercados, foi em grande parte desativada. Depois de um ligeiro movimento de pânico, todas as bolsas de valores do mundo amplamente reencontraram os seus níveis de antes do Brexit, mesmo que isso tenha custado uma volatilidade um pouco mais elevada. Na realidade, o único efeito duradouro tem sido o de uma queda da libra esterlina, que obviamente foi preparada pelo Banco de Inglaterra. Enquanto o valor da libra era geralmente cerca de 1,45 dólares, a libra de repente caiu, tendo-se então estabilizado em torno de 1,30 dólares depois do Brexit, ou seja, tinha-se depreciado 10% (2). Aqui está resumido o primeiro resultado concreto do Brexit. O resto, em especial as alterações de comércio ou do investimento nas decisões do Reino Unido permanecem largamente desconhecidas ´de momento, embora como o iremos ver estas variáveis podem estar ligadas à evolução económica geral.

Se se quiser tentar tirar conclusões ou previsões para amanhã, é pois a partir desta queda da libra. No entanto as estatísticas, aqui, podem-nos ser muito úteis, porque existem regularidades claras na relação entre a taxa de câmbio e o crescimento do PIB. Assim, se olharmos para os dados trimestrais da taxa de câmbio da libra (valor em dólar / valor da libra) e a taxa de crescimento do PIB no Reino Unido desde 1975, chegamos a este gráfico:

Izoulet - II

É claro que ambos os dados parecem correlacionados. Note-se que a OCDE fornece para a taxa de câmbio uma estatística que corresponde ao dólar dividido pela libra (1/valor da libra em dólares), o que faz com que quando a libra desvaloriza, esta proporção aumenta e é por isso que temos uma correlação positiva no gráfico. Isso pode ser determinado estatisticamente usando regressões lineares convencionais. Mas podemos também interrogarmo-nos sobre a natureza dessa correlação ao responder a esta pergunta: “qual a variável que determina a outra?”. A resposta a esta pergunta também pode ser fornecida pelas estatísticas através do teste de causalidade de Granger. Na verdade, procura-se descobrir se uma variável está a mudar antes da outra, e neste caso podemos assumir que a primeira provoca a segunda enquanto que  a posição inversa não é verdadeira. Esta definição de nexo de causalidade pode parecer um pouco redutora mas como Clive Granger ele próprio elegantemente  o disse na sua conferência de entrega do prémio Nobel: “ eu gostaria e muito que me dessem uma verdadeira definição de causalidade mas nunca ninguém me respondeu. (3) Digamos, de toda a maneira que, em termos puramente estatísticos, a sua definição parece efetivamente boa.

Para praticar este teste , nós olhamos se a capacidade de prever de um simples modelo auto-regressivo (um modelos VAR) de uma variável (aqui, a taxa de crescimento do PIB), não pode ser melhorada pela adição de outra variável (aqui a taxa de câmbio e os seus valores no passado). Se for o caso, se o modelo, incluindo a taxa de câmbio é mais eficiente que o modelo auto-regressivo simples, é porque a taxa de câmbio é uma variável explicativa, ou seja que provoca, no sentido de Granger (poderíamos dizer “que isso é causa de um ponto de vista estatístico “) a taxa de crescimento. O inverso também pode ser verificado para ver se se trata de uma relação causal, unilateral ou bilateral.

No caso que aqui nos interessa, a aplicação em testes de causalidade de Granger em R4 dá os seguintes resultados:

 

1975-2016 (dados trimestrais) Reino Unido
Taxa de câmbio → taxa de crescimento L= 1 (+) ***

Valor efeito : + 2.51

Taxa de crescimento → taxa de câmbio Não significativo

O resultado é claro desde 1975 até ao presente, a taxa de câmbio da libra esterlina (1/valor da libra em dólares) tem um impacto positivo sobre o crescimento do PIB britânico com atraso de um trimestre , este resultado sendo estatisticamente significativo em mais de 99%. Por outro lado, o impacto da taxa de crescimento do PIB sobre a taxa de câmbio não é verificado. Nos últimos 40 anos no Reino Unido, uma depreciação da libra esterlina causa um aumento do PIB sem retroação. A intensidade desta relação é a seguinte: se nós (aleatoriamente), considerarmos uma depreciação de 10% da libra esterlina (um aumento de 12% da taxa da OCDE), teremos um aumento de 0,28% do PIB trimestral.

Assim, vê-se que o alarmismo de um grande número de analistas dificilmente se justifica, porque do ponto de vista estatístico, a situação atual tem todas as possibilidades de produzir uma melhora no crescimento econômico do Reino Unido. Claro, sempre é possível dizer que o período atual é diferente do passado, e que a relação identificada pode não ocorrer por este motivo. É então que a análise das instituições deve completar a análise estatística.

Pode-se aliás reproduzir o teste Granger para um período mais recente, por exemplo, desde a introdução do euro a partir de 1999, dizendo que os fundamentais económicos e institucionais são diferentes, ou que os modos de regulação divergem, ainda que indiretamente, para a Grã-Bretanha. Aqui estão os resultados:

1999-2016 (dados trimestrais) Reino Unido
Taxa de câmbio → taxa de crescimento L= 1 (+) *

Valor efeito : + 1.86

L= 2 (+)*

Valor efeito  : +2.33

Taxa de crescimento → taxa de câmbio L= 1 (-) **

Valor efeito : -0.01

 

Observa-se que se a causalidade é um pouco menos evidente do que para o período anterior, ela continua a ser significativa para mais de 90% e com uma intensidade pouco menos forte mas comparável, especialmente com dois trimestres de atraso. Uma relação bilateral negativa aparece partindo da  taxa de crescimento para a taxa de câmbio (a libra aprecia-se quando aumenta o crescimento), mas esta relação causal é bastante baixa em intensidade e só com atraso de um trimestre.

A estabilidade da relação taxa cambial – taxa de crescimento, independentemente do período considerado, é pois altamente marcante no caso britânico: mesmo desde 1999, a depreciação da libra é um acelerador de crescimento.

Portanto, se quisermos bem refletir novamente sobre a situação do post-Brexit, conclui-se que a evolução atual da libra é uma conquista para os britânicos. Se eles conseguirem mantê-la a este nível, eles devem beneficiar de uma melhoria no seu crescimento, e todos nós sabemos que o desemprego está intimamente relacionado. Além disso, se isso acontecer, vê-se com muita dificuldade o que levaria à diminuição das decisões de investimento que deveriam ser reduzidos de acordo com muitos analistas e especuladores. A vantagem que pode ser extraída de uma desvalorização da sua moeda, quando está sob controlo, é, precisamente, que esta desvalorização pode produzir um choque positivo para o crescimento que arrasta na sua esteira, muitos atores, o que não acontece com a política de austeridade salarial.

Mas se o Reino Unido é capaz de sair fortalecido deste período de turbulência, e para obter uma melhoria da sua situação económica, é no coração da zona euro que a incerteza vai estourar. Porque as representações de boa parte das nossas elites serão abaladas e a sua capacidade em tirar conclusões ou ao contrário em suprimir os fatos, vai depender da sequência de eventos. Com efeito, se o Brexit levar a um desenvolvimento positivo, a desconfiança popular só poderá aumentar para com as instituições Europeias e é o euro que será contestado nas bases da sua própria arquitetura.

Maxime IZOULET, sitio L’Espoir, Brexit: des effets positifs sur la croissance britannique à prévoir. Texto disponível em:

http://lespoir.jimdo.com/2016/07/21/brexit-des-effets-positifs-sur-la-croissance-britannique-%C3%A0-pr%C3%A9voir/

________

  1. http://www.lemonde.fr/economie-francaise/article/2016/07/12/le-brexit-devrait-couter-0-25-point-de-pib-a-la-france-en-2017-selon-le-fmi_4968452_1656968.html

         2.http://www.bloomberg.com/quote/GBPUSD:CUR

  1. http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economic-sciences/laureates/2003/granger-lecture.html
  2. https://cran.r-project.org/web/packages/MSBVAR/MSBVAR.pdf

Maxime IZOULET

Leave a Reply