UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (146)

carta-do-porto

PRAÇA D. FILIPA DE LENCASTRE

 

A Praça D. Filipa de Lencastre existe há pouco mais de 70 anos.

Prevista aquando da abertura da Avenida dos Aliados, em conjunto com a Praça D. João I. homenageia, em conjunto com esta, duas das figuras mais gradas da cidade do Porto.

De facto, quando em Fevereiro de 1916 começou a ser aberta a Avenida da Cidade,

(como era inicialmente designada, sendo depois rebaptizada como a Avenida das Nações Aliadas – por causa da participação portuguesa na 1ª Grande Guerra – mais tarde abreviado para o actual, Avenida dos Aliados)

marcada simbolicamente com o início da demolição da então Câmara Municipal que estava instalada no Palacete dos Monteiro Moreira, sob projecto de Barry Parker baseado num estudo dos Serviços Municipais da cidade,

(inspirado num projecto que Carlos Pezerat havia elaborado e oferecido à Câmara Municipal em 1889, e que contemplava a abertura da Praça Nova, ou de D. Pedro, mais tarde Praça da Liberdade, em avenida, para Norte)

já as duas Praças, a de D. João I e a de D. Filipa de Lencastre lá estavam previstas. E ao contrário da arquitectura clássica e tradicional da Avenida, para estas duas Praças estava previsto o uso de novos materiais e de novas ideias modernistas.

Um bom exemplo dessas novas ideias é-nos dado pelo Arquitecto Rogério de Azevedo que, quando projecta o edifício do Comércio do Porto, o faz de duas formas. Na fachada virada para a Avenida dos Aliados segue a imposição da Câmara Municipal, traçando linhas clássicas e utilizando o granito, mas, para a fachada virada para a que viria ser a Praça de D. Filipa de Lencastre, utiliza o betão e linhas simples e modernistas.

 

GARAGEM COMÉRCIO DO PORTO
GARAGEM COMÉRCIO DO PORTO

 

GARAGEM O COMÉRCIO DO PORTO na actualidade
GARAGEM O COMÉRCIO DO PORTO
na actualidade

Para a implementação da Praça, foi necessário demolir o casario existente na área. Só o topo Norte, entre as ruas do Almada e da Picaria, se salvou do camartelo.

ABERTURA DA PRAÇA FILIPA DE LENCASTRE
ABERTURA DA PRAÇA FILIPA DE LENCASTRE

 

CASARIO ``a direita) QUE IRIA SER DEMOLIDO PARA A ABERTURA DA PRAÇA
CASARIO “a direita) QUE IRIA SER DEMOLIDO PARA A ABERTURA DA PRAÇA

 

PRAÇA NOS ANOS 40
PRAÇA NOS ANOS 40

 

E ainda bem, já que no nº 178 tinha funcionado o Tribunal Criminal do Porto, sendo por isso um edifício histórico e de interesse Municipal. Foi nesse Tribunal que Camilo Castelo Branco e Ana Plácido foram julgados e absolvidos, acusados de adultério, numa tarde de tão grande tempestade que o povo dizia que “era Deus que não queria a sua condenação”.

Há quem diga que o famoso assaltante e companheiro de prisão de Camilo, “Zé do Telhado”, lá terá sido ouvido, apesar de outros o colocarem a ter sido julgado no Marco de Canavezes.

Este prédio serviu também para algumas cenas do filme “Porto da Minha Infância” de Manoel de Oliveira.

Aqui também funcionou um famoso Cabaret, o “Primavera”, e agora, é um bar, seguindo a moda dos espaços devolutos do centro da cidade.

 

TRIBUNAL CRIMINAL DO PORTO
TRIBUNAL CRIMINAL DO PORTO

 

PRÉDIO ONDE FUNCIONOU O TRIBUNAL CRIMINAL DO PORTO actualidade
PRÉDIO ONDE FUNCIONOU O TRIBUNAL CRIMINAL DO PORTO
actualidade

Lamentavelmente, este prédio, de grande valor histórico e patrimonial, não tem uma simples placa a dizer aos passantes e curiosos o que foi e para que serviu.

Outro edifício histórico é o que tem acomodado o primeiro Hotel de Luxo da cidade, o Hotel Infante Sagres. Mandado construir em 1945 (e inaugurado em 21 de Junho de 1951) pelo comendador Delfim Ferreira, teve como autor do projecto o Arquitecto Rogério de Azevedo, sendo um exemplo da fase de transição para o modernismo na cidade do Porto.

 

HOTEL INFANTE SAGRES
HOTEL INFANTE SAGRES

O Hotel, é ainda hoje considerado um dos mais belos e conceituados hotéis da cidade, apreciado pelo seu design de interiores sofisticado e pelo ambiente intimista. Está em vias de entrar em obras de reabilitação e restauro.

Nos dias de hoje, pertence à empresa The Fladgate Partnership que é proprietária das casas de vinho do Porto Taylor’s, Fonseca, Croft e Krohn e dos hoteis The Yeatman e The Vintage House.

A Praça Filipa de Lencastre tem uma outra particularidade. Aqui existe, há alguns anos, a entrada para o túnel rodoviário que mais polémica criou na cidade, tendo provocado a paragem das obras, já quase concluídas, durante vários anos.

Polémica que existiu não pela existência do túnel, que era muito necessária e consensual, não pela sua localização, que estará perfeita para as necessidades, mas pela saída, dupla, que existe na outra extremidade. Uma dessas saídas coincide com a entrada principal do Museu Soares dos Reis, prejudicando-o grandemente.

Como em quase tudo, acabou por ficar assim mesmo, produto de acordos e re-acordos com o IPPAR, feitos pelo Presidente de Câmara seguinte, o Dr. Rui Rio. Se assim não fosse, ainda hoje estaríamos com aquele monstro  inacabado.

 

ENTRADA DO TÚNEL
ENTRADA DO TÚNEL

 

RUA DE CEUTA
RUA DE CEUTA

Nos primeiros anos da década de 1950, aparece a rua de Ceuta, que da Praça Filipa de Lencastre avança para poente, até à rua José Falcão. Passou a ser considerada um símbolo do Porto moderno “recém-saído da novidade arquitectónica” (Daniel Filipe, discurso sobre a cidade 1957), quer pela rapidez da abertura da edificação, conseguidas em menos de uma década, quer pela qualidade e modernidade dos seus edifícios, e onde o Café Ceuta e a Livraria Divulgação (mais tarde Leitura) foram marcos importantes da cidade.

A cidade entrava definitivamente numa época Moderna e Próspera.

 

 

 

 

3 Comments

  1. Obrigado por conceder-me este “tour” visual e histórico desta tua Cidade, que ainda terei a honra e a satisfação de conhecer.

Leave a Reply