UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (147)

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O PALACETE DOS MONTEIRO MOREIRA

Em 1724, no topo norte da então Praça Nova das Hortas,

(ao longo do tempo foi denominada, Hortas do Bispo, Praça Nova, Praça da Constituição, voltou a chamar-se Praça Nova, Praça de D. Pedro, Praça da República (durante 14 dias), e a partir de 27 de Outubro de 1910 Praça da Liberdade)

começou a ser construído um palacete barroco projectado por António Pereira. Esse edifício, opulento, foi mandado construir por Monteiro Moreira, e, algumas décadas mais tarde, foi lá que se instalou o Senado da Relação.

 

PALACETE DOS MONTEIRO MOREIRA PRAÇA DE D. PEDRO

PALACETE DOS MONTEIRO MOREIRA
PRAÇA DE D. PEDRO

 

Em Agosto de 1819, devido à crescente centralidade da Praça Nova, a Câmara Municipal do Porto instalou-se no palacete,  adquirindo-o e abandonando a Torre Medieval (Torre da Rolaçam, como era conhecida na altura), junto à Sé, que até então lhe servira de sede. Mandou construir um frontão com as armas da cidade, rematado pela estátua de um guerreiro intitulada “O Porto”, colocando-os no topo da frontaria do edifício.

Da varanda destes Paços do Concelho foi proclamado, a 24 de Agosto de 1820, o liberalismo, D. Pedro IV proclamou, em 1832, a Carta Constitucional, pouco tempo antes do Cerco do Porto, e os revoltosos do 31 de Janeiro de 1891, anunciaram a República (de muito curta existência…).

O palacete começou a ser demolido em 1 Fevereiro de 1916, para que se efectuasse a abertura da Avenida dos Aliados.

No entanto, nem todo o edifício desapareceu dos olhares dos portuenses. Partes houve que se espalharam pela cidade, sem que no entanto, disso, hoje, haja notícia ou relato de conhecimento público e generalizado.

 

Estátua "O PORTO"

Estátua “O PORTO”

 

A estátua “O Porto”, feita pelo Mestre Pedreiro João da Silva, que encimava o edifício, deambulou por diversos pontos da cidade. Esteve junto ao Paço Episcopal (onde a Câmara se instalou aquando da demolição do Palácio dos Monteiro Moreira), no Largo Actor Dias (junto à Muralha Fernandina), foi para o Palácio de Cristal, foi posta de costas para a cidade, face à Torre Medieval (ideia do Arquitecto Fernando Távora) e hoje, encontra-se em frente ao Banco de Portugal, nas proximidades da sua localização original, olhando a Praça da Liberdade e a Avenida dos Aliados (a única peça, oriunda do Palacete, com direito a uma placa explicativa).

 

ARMAS DA CIDADE (1816)

ARMAS DA CIDADE (1816)

 

As armas da cidade do frontão do palacete (na altura ainda sem que houvesse lugar ao Dragão (1) que durante cerca de cem anos delas viria a fazer parte), feitas pelo Mestre Pedreiro Manoel Luiz, ornamentam hoje os jardins do Palácio de Cristal, numa espécie de “Museu ao Ar-Livre” (assim lhe chama o Prof. Germano Silva), o Roseiral, onde também se encontra uma fonte, lindíssima, que estava no átrio de entrada do edifício da Câmara.

 

FONTE DA ENTRADA DO EDIFÍCIO DA CÂMARA MUNICIPAL

FONTE DA ENTRADA DO EDIFÍCIO DA CÂMARA MUNICIPAL

 

 

DUAS DAS TRÊS JANELAS DO PALACETE

DUAS DAS TRÊS JANELAS DO PALACETE

 

JANELA DO PALACETE

JANELA DO PALACETE

 

Também as janelas do palácio, três, foram parar ao Roseiral, e, colocando-me na do meio, tento imaginar-me como salvador da Pátria a discursar para o povo atento e sedento das minhas palavras, dando-lhe boas-novas, coisa de que bem precisamos nos dias difíceis dos tempos que vivemos, sendo que agora, não o poderia fazer com o Palácio das Cardosas como pano de fundo, nem olhando a garupa do cavalo de D. Pedro e as costas do Rei distraidamente parecendo ignorar as minhas palavras, mas com a beleza imensa da vista sobre a parte ribeirinha da cidade e sobre o nosso rio Douro.

 

VISTA DOS JARDINS DO PALÁCIO DE CRISTAS SOBRE O RIO DOURO

VISTA, DOS JARDINS DO PALÁCIO DE CRISTAL, SOBRE O RIO DOURO

 

Não há, no entanto, bela sem senão; o turista, acidental ou não, o interessado, o curioso, ou o simples passante, de nada fica a saber ao ver estas maravilhas antigas. Não há nada que o informe do que está a ver. Não há uma placa, uma descrição, uma informação, ligeira que seja, que conte o que aquelas pedras significam.

A História da nossa cidade mereceria mais!

 

(1) – Ver, sobre este assunto, a crónica nº 33 – AQUI

 

 

About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

2 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (147) | joanvergall

  2. Muito obrigada pela informação tão preciosa! Conheço, apenas, o Porto de passagem e, quem vê os monumentos, não faz ideia do que se terá passado anteriormente. Sem a sua “ajuda” a minha publicação não estaria tão completa! Deixo aqui o link, onde faço referência a esta sua publicação, caso queira acrescentar ou corrigir algo: https://asfontesdaminhavida.blogs.sapo.pt/fonte-da-antiga-camara-municipal-do-90873

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