CONTOS & CRÓNICAS – A VOZ AO LONGE – UMA NOVA EXPOSIÇÃO DE ADÃO CRUZ – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

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A Voz ao Longe

Uma nova exposição de Adão Cruz

por António Gomes Marques

Foi no dia 17 de Setembro, no Museu de Ovar, que se inaugurou uma exposição que o próprio Adão Cruz, no convite, designou como «uma singela exposição de pintura da minha autoria», a que deu o título de «A Voz ao Longe», convite esse ilustrado por um seu poema com o mesmo título:

Quase diríamos que

as paredes brancas

nascem da terra.

 

Quase diríamos que

o sol vermelho

e quente

é um beijo ardente

na misteriosa face

da planície inocente.

 

Quase diríamos que

a vida não se inscreve

nas copas

dos chaparros,

quietos e mudos,

antes se deita

na sua sombra doce.

 

Quase diríamos que

o chão se veste

e reveste de cores,

vozes e cheiros,

que dão à vida

algum sentido.

 

Quase diríamos que

a vida não se aninha

na erva daninha,

antes baloiça

no ondular da seara

como navio

de esperança

num mar de trigo.

 

Quase diríamos que

a voz ao longe

não é do vento

nem da descrença

de um outro amanhã.

 

Quase diríamos que

a voz ao longe

é o voar sereno

de uma nuvem branca,

trazendo no bico

um livro enorme

e um ramo de paz

para o ninho

dos homens.

Os quadros ali expostos, de pequena e média dimensão para atender ao espaço que o Museu disponibiliza para as exposições temporárias, são, quase na totalidade, acompanhados por poemas do Adão, os quais nos podem dar a entender uma possível interpretação das respectivas pinturas, mas que não limitam a imaginação do próprio observador, direi mesmo que a estimulam a ir muito para além do que os seus olhos vêem e lêem.

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Estive presente na inauguração da exposição, não apenas por amizade, mas também por me sentir em diálogo com a pintura do Adão desde que, em Espinho, tive a felicidade de ver a sua pintura ao vivo pela primeira vez, pintura essa que apenas conhecia por reproduções no blogue em que ambos escrevemos, conhecimento esse que, de seguida, complementei ao adquirir duas das obras que dão a conhecer a sua obra pictórica, «Hora a hora rente ao tempo» (edição Campo das Letras, 2007) e «Um gesto de silêncio» (Ed. Engenho, 2010). Sentia que não podia faltar, sentia mesmo a necessidade de estar presente em Ovar, embora isso só tivesse sido possível por um compromisso anteriormente assumido ter sido anulado.

Licenciado em Medicina e Cirurgia, a que seguiu a especialização em Cardiologia, tornando-se mais tarde num dos pioneiros de ecocardiografia em Portugal, fazendo da sua profissão um bem ao serviço dos outros, com dedicação profunda ao serviço público, que sempre privilegiou, sendo o seu consultório em S. João da Madeira um complemento no exercício da sua especialidade.

Mas o turbilhão que nele sempre viveu, como ele confessou na inauguração da exposição em Ovar, provocado pela consciência que nele foi crescendo desde muito novo de que o Mundo em que vivemos pode ser bem melhor e que não podemos deixar de nos entregar à luta contra todas as injustiças, consciência essa que o exercício da sua profissão ajudou a cimentar, levaram-no a outras formas de intervenção, usando o talento que possui e que se tem expressado na pintura, na poesia e na ficção com superior qualidade.

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Se a sua poesia e os seus contos me encantam, é a sua pintura o que mais me atrai na sua multifacetada obra, uma pintura que, na minha modesta opinião, na opinião de quem não é crítico de pintura, me atrevo a qualificar de profundamente pessoal. Será que esta atracção é também provocada pela paixão que ambos temos pelas obras pictóricas de Van Gogh, Chagall e Picasso, para apenas citar alguns dos maiores?

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A obra artística de Adão Cruz, seja qual for a sua vertente, foi e é um dos caminhos que escolheu para intervir no mundo que o rodeia, utilizando a arma que o seu talento permite, com a consciência de que nenhum cidadão pode ficar indiferente a esse mundo, agindo, portanto, contribuindo, como ser consciente, nessa necessidade de transformação, sabendo que é da acção do Homem sobre a natureza que essa transformação se torna possível e que, em simultâneo, o próprio Homem se vai transformando. O médico que nunca deixou de ser, o pintor, o poeta, o contista sente os acontecimentos que vai vivendo, despertando na sua consciência a necessidade de intervenção, servindo-se do seu talento, e assim actuando em prol do humano, com a certeza do poder que a sua arte tem nessa necessária transformação, dando-lhe, nessa sua acção, também uma componente política e social.

Tudo o que por mim acaba de ser escrito pode ser justificado analisando qualquer dos seus quadros expostos em Ovar -e até com as poesias que os acompanham-; no entanto, na impossibilidade de me pronunciar sobre cada um deles, destaco os 4 quadros que o Adão dedica à Palestina, aqui reproduzidos, por terem sido aqueles que, entre todos, mais sentidos foram pelo meu próprio turbilhão.

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Como já referi, estes quadros eram acompanhados por um outro poema do Adão, intitulado «Palestina», a cuja transcrição não resisto:

Não há sol nos céus da Palestina

            não há luz nos olhos da Palestina.

            Roubaram o sorriso à Palestina!

São de sangue as gotas de orvalho da madrugada

            e o vento só é vento quando as balas assobiam.

            Roubaram as manhãs à Palestina!

O céu de chumbo esmaga as almas e os ossos

            e é de lágrimas a chuva quando cai.

            Não há sol nos céus da Palestina!

Do ventre da lua cheia-cheia de aço e de amargura

            nasce a cada hora

            um menino com bombas à cintura.

Mataram a infância na Palestina!

Rasgam as mães os seios com arroubos de ternura

para alimentar a raiva

– por cada filho que perdem outro nasce da sepultura -.

            Semearam a dor na Palestina!

Nas casas esventradas rompem por entre as pedras leitos de sofrimento

            onde à noite se acoitam os amantes

            queimando a dor na paixão de um momento.

            Fizeram em pedaços o amor na Palestina!

Cada instante é uma vida na vida da Palestina

            cada momento uma taça de vingança clandestina

            cada gesto um vulcão de raiva que nem a morte amansa.

            Roubaram a paz à Palestina!

Na sombra do dia ou na calada da noite

            cravam os vampiros seus dentes de ferro no coração da Palestina

            – não há sangue que farte a fúria assassina –

            Sangraram cobardemente a Palestina!

Para atirar contra os tanques uma pedra

            agiganta-se o ódio a cada bater do coração.

            Por não haver sangue de tanto sangue vertido

            outra força não há para erguer a mão…

            e dar à Palestina algum sentido.

Obrigado, Adão, por mais esta oportunidade que me deste de contigo e com a tua obra dialogar.

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Portela (de Sacavém),

no 106º aniversário

do 5 de Outubro.

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