UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (154)

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O ILHÉU DO FRADE

São Lendas, senhores, são Lendas, e fazem parte das nossas memórias, arqueológicas e culturais, e também da nossa História.

 

ILHÉU DO FRADE

ILHÉU DO FRADE

O ilhéu do Frade, sapal de aves do rio Douro, fica em frente à foz da Ribeira da Granja (que já foi Ribeiro do Ouro, junto à sua foz, e que a meio do seu percurso foi também Ribeiro de Penoucos) e ao Largo António Calem (antigo Largo do Ouro). Mesmo ali onde, nos dias de hoje, existe um “observatório de aves”.

Esta ilhota já esteve mais para o meio do rio, e já não está, não porque se tivesse deslocado, mas porque, naquele local, o rio era consideravelmente mais largo. O, hoje Jardim António Calem, assim como a marginal que “do Porto vai para a Foz”, foram conquistados ao rio através de um grande aterro.

 

ILHÉU DO FRADE

ILHÉU DO FRADE

Tem um estranho nome, esta ilhota, mas, como em quase tudo, há uma explicação. O nome “Frade”, tem origem num mosteiro que se supõe que existiu na margem esquerda do rio Douro, em frente da Alfândega (Massarelos), de seu nome Mosteiro de Santo António do Vale da Piedade, pertença de frades franciscanos. Não há qualquer vestígio deste mosteiro, só se falando da sua existência por causa desta história.

E porque as Lendas, para serem credíveis, têm de ter alguma ponta de verdade, eis que, no O Tripeiro de 1 de Maio de 1919, 2ª Série – nº 9, José de S. João Novo, nos aparece a contar a história do Frade e da ilhota, e diz ter conhecido quem, em primeira mão, conhecera o Frade em questão.

Tudo se teria passado nos primeiros anos do século XIX.

 

IKHÉU DO FRADE SAPAL DO RIO DOURO OBSERVATÓRIO DE AVES

ILHÉU DO FRADE
SAPAL DO RIO DOURO
OBSERVATÓRIO DE AVES

O Mosteiro de Santo António do Vale da Piedade, que tinha a invocação de Santo António mas pertencia à ordem de S. Francisco, tinha, como todos os Mosteiros, um irmão porteiro, e este, apesar de leigo, vestia quando de serviço, o burel franciscano. Era, este irmão porteiro e leigo, o principal relações públicas da época, sendo-lhe confiada a interacção com a vida exterior.

Dos diferentes mensageiros que diariamente chegavam à portaria, destacava-se pela sua enorme beleza, o que ao pobre porteiro não era indiferente, uma moçoila das terras de Lordelo.

O irmão leigo não era feito de pedra, e tanto magicou, tanto , mas tanto, que após algum tempo ganhou coragem e falou à rapariga, contando-lhe que não estava preso à igreja, que era leigo e que, estando totalmente apaixonado, se propunha a casar com ela, embora, entretanto, se limitasse a viver maritalmente, enquanto esperassem pelos papeis do casamento.

A “pequena” tinha namorado e, malandra e má, aparentou não lhe desagradar a ideia proposta, avisando-o no entanto de que só lhe diria da sua decisão quando, passados alguns dias, voltasse ao mosteiro.

Dias passados a moçoila regressou e disse ao frade leigo que aceitava a sua proposta e que, no dia a seguir, um barco a remos ali viria para o ir buscar e o levar rumo à fuga. O pobre do frade nem conseguiu dormir direito e na madrugada seguinte, envolto em densas brumas, lá apareceu o barquito. Sem uma palavra o barqueiro remou em direcção ao meio do rio e passado algum tempo fez-lhe sinal para saltar para terra, afastando-se mal o frade pisou solo firme.

 

ILHÉU DO FRADE (na maré baixa)

ILHÉU DO FRADE
(na maré baixa)

O nevoeiro estava de cortar à faca. Alguns passos andados e o bom do ingénuo frade notou que regressava à borda da água. Estava afinal numa língua de areia, uma pequena ilhota no meio do rio. E, estava só, conforme notou pela não resposta ao seu continuado chamamento pela sua amada, e horas depois assim o confirmou, quando o sol raiou, levantando-se, e fez desaparecer o nevoeiro. Só que nas margens do rio estava gente a olhar, a olhar, e a gracejar maldosamente, e alguns barcos fizeram romagem para o ver, que não para o salvar, todos fazendo saber que estavam cientes das razões que o levaram àquele lugar. Tudo teria sido preparado pela rapariga e pelo seu namorado, que também eles, da margem gozavam o espectáculo.

 

ILHÉU DO FRADE

ILHÉU DO FRADE

 Por não saber nadar, o frade porteiro e leigo teve de esperar que do mosteiro lhe chegasse uma embarcação para o salvar, o que só aconteceu muitas horas depois.

O povo, maledicente, passou a chamar à pequena ilhota do meio do rio, a ilha do Frade, e ainda hoje assim lhe chama.

 

 

Germano Silva recebe título Doutor Honoris Causa da Universidade do Porto

 

 

 

About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

3 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (154) | joanvergall

  2. Nem sabia o nome desse ilhéu, quanto mais a lenda com ar de ser real.
    Uma pergunta . então o mosteiro era do lado de Gaia ?
    Como fala da margem esquerda…

    Um abraço.

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