UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (158)

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A FONTE DA PRAIA DO OURO

 

FONTE DA PRAIA DO OURO
FONTE DA PRAIA DO OURO

 

Lordelo do Ouro, integrada na cidade do Porto em 1836, é uma Freguesia cheia de declives acentuados, bordejada pelo rio Douro e com o mar ali à beira. A sua situação privilegiada contribuiu enormemente para a sua expansão.

Terra de pescadores, de rio e de mar, ali viviam muitos dos Capitães, Mestres e Contra-Mestres, Carpinteiros e Marinheiros dos navios que ali abarcavam.

Com naturalidade, na Praia do Ouro, ali existente mesmo encostada à Ribeira da Granja, criou-se um Estaleiro para a construção de barcos em madeira, em tempos tão antigos que se perdem na memória, chegando a ser o mais importante do Porto.

Tendo excelentes condições, todo o tipo de embarcações ali chegavam e partiam, algumas delas enormes.

No Estaleiro do Ouro terão sido construídas as embarcações que seguiram para o Cerco de Lisboa, da Armada que partiu para a conquista de Ceuta e de Alcácer-Ceguer, bem como as naus que participaram na primeira Viagem Marítima à Índia.

Também lá foi construída em 1867, uma Galera, com 1100 toneladas, de seu nome América, que era, à época, o maior navio construído em Portugal.

Funcionou até 2005, altura em que, como muitas outras coisas, foi abandonado, transformando-se num centro de degradação física e ambiental, embora, pelo menos desde 1999 se falasse de uma requalificação de todo aquele espaço.

Entretanto, em 2007, durante a Presidência do Dr. Ricardo Fonseca na Administração dos Portos do Douro e Leixões, foi lançado um concurso de ideias para a requalificação de todo o espaço do Ouro. Formado o júri, composto pela CMP, a Ordem dos Arquitectos e a APDL, venceu o concurso, de entre os setenta apresentados, o projecto, muito interessante, dos Arquitectos Tiago Vidal e Isabel Carvalho.

A peça-chave desse projecto, que contemplava a criação de um novo edifício para o Instituto de Socorros a Náufragos, um anfiteatro suspenso sobre o Douro e dois espaços para cafetaria, aluguer de bicicletas e posto turístico, era o “Respirad’ouro”, um instrumento musical (uma espécie de órgão) que transformaria a força das águas em sons. As marés determinariam a música que se ouviria na margem, assemelhando-se a “um órgão de catedral, um canto de ave ou um vapor à distância”, como pode ler-se na memória descritiva.

Infelizmente, e mais uma vez, duvido que o “Respirad’ouro” se venha a concretizar (à semelhança do aproveitamento das ondas para criar energia, aquando da construção do molhe norte da barra do Douro), ou o posto turístico, ou as cafetarias ou o aluguer das bicicletas, muito embora a esperança seja a última a falecer.

PRAIA DO OURO
PRAIA DO OURO

 

Aconteceu entretanto, algo de quase inovador no panorama dos projectos que geralmente ficam no papel. Há alguns meses, começaram, primeiro um depois o outro, a desaparecer os dois barcos de pesca que estavam a apodrecer no estaleiro. Mais tarde, desapareceu a Fonte da Praia do Ouro, cuja água vinha da mina existente no Gás, assim como os tanques que ali existiam e que serviam para os locais lavarem as suas roupas. Disseram-me até, que tanto as pedras da fonte como as dos tanques foram numeradas para posterior reconstrução.

Mais tarde começaram as obras, a cargo da APDL. Chegaram calhaus e mais calhaus para a construção do alargamento do passeio sul da Rua do Ouro, entre a rampa de acesso ao rio existente em frente da entrada do edifício pertencente ao Exército, até à curva anterior ao cais do Gás (será que se respeitaram os três metros de largura previstos no projecto?). Aos bocadinhos lá fomos vendo a azáfama das obras, até que, agora já perto do final das obras, começaram a reconstrução da Fonte.  

O espaço, que não ultrapassa os duzentos metros,  está a ficar interessante.

 

PRAIA DO OURO
PRAIA DO OURO

 

Que bom, pensei, e vai ter água? Que sim, disseram, já não da mina do Gás, mas da rede pública. Óptimo, disse eu para os meus botões, é que uma fonte sem água não tem qualquer serventia, como podemos ver por essa cidade fora, sendo a do Gás, mesmo ali à beira, um exemplo a reter.

Mas como em tudo, não há bela sem senão.

A Fonte, está a ser colocada de um modo estranho, pensei, e logo me pus a caminho a falar com os habitantes locais. Todos, sem excepção, foram de opinião que a Fonte está mal posicionada.

 

A FONTE, DE COSTAS PARA A FOZ E O MAR
A FONTE, DE COSTAS PARA A FOZ E O MAR

 

Acontece que a dita está de costas para a Foz e de frente para Nascente, em vez de, por exemplo, estar de costas para o rio e de frente para as casas e para as pessoas que ali passam.

Que ideia foi aquela de a colocar naquela posição? Ideia de Arquitectos, pensei, cuja visão é, normalmente, divergente da nossa, embora o não devesse ser. Alguém terá ouvido as gentes antes de elaborar os planos que acabaram por se concretizar? Houve consulta pública? Fizeram-se estudos prévios sobre estes pormenores?

Duvido!

E lá vamos nós ter de gramar com isto assim!

E já agora, onde param os tanques? E o “Respirad’ouro”?

 

Série Fotográfica da Praia e Estaleiro do Ouro, de há cerca de 40 anos,  gentilmente cedida por Casimiro Calisto – NDMALO-GE

ARQUIVO DE CASIMIRO CALISTO NDMALO-GE
ARQUIVO DE CASIMIRO CALISTO
NDMALO-GE

 

 

 

 

6 Comments

  1. Confesso que não tenho ideia da Fonte da Praia do Ouro, embora tenha bem presentes os lavadouros, meu caro amigo.
    Lógico que se reconstruirem os lavadouros eles ficarão ao longo do cais.
    Já a fonte, confesso que, tirando a sua implantação histórica, não me parece bizarra a sua nova orientação.
    Talvez até seja mais lógica, pois fica mais abrigada dos ventos ali predominantes.
    Felicito-o pela notícia da possível construção do “instrumento musical” manipulado pelas marés.
    Será, por certo, mais um ícone para a nossa cidade !

    Um abraço.

  2. *Adorei rever os lavadouros do passado presentes nas fotografias.*

    *Muito interessante o historial de Lordelo como o Estaleiro das barcas para as descobertas .*

    *Que pena estes registos não chegarem às escolas ,que mais não fosse uma exposiçao para dinamizar as aulas de História ,uma discplina deixada ao abandono da memória .*

    *Maria*

  3. Adorei rever os lavadouros do passado presentes nas fotografias.
    Muito interessante o historial de Lordelo como o Estaleiro das barcas para as descobertas .
    Que pena estes registos não chegarem às escolas ,que mais não fosse uma exposiçao para dinamizar as aulas de História ,uma discplina deixada ao abandono da memória .
    Maria

  4. Caro amigo
    Ainda bem que lá foi ver, pois mesmo que o Engº João Menéres não ache bizarra a nova localização, eu permito-me considera-la completamente errada.
    Um abraço

  5. Caro José Magalhães,
    Quero agradecer-lhe o excelente trabalho sobre um tema que me querido.
    Bem haja.
    Um abraço.
    Casimiro Calisto.

    NI: As fotos que cedi são da autoria de José Maria Calisto Gomes (extraídas do documentário Olhar Lordelo elaborado pelo Grupo Sigárrusga)

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