ITÁLIA: UMA MANOBRA LIGUISTA NA REGIÃO VÉNETA. FALAR ITALIANO COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA?  – por ANNA ROSA SCRITTORI – tradução de MANUEL SIMÕES

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Nas últimas semanas causou um grande espanto a deliberação com que o conselho regional do Véneto (de maioria liguista) quis proclamar o dialecto véneto como língua oficial da mesma região. Depois que o voto referendário rejeitou sonoramente as alterações à lei constitucional italiana, propostas pelo governo, o conselho regional do Véneto aperfeiçoou a sua precedente deliberação e pediu oficialmente, para o povo véneto, a qualidade de minoria nacional e, para a língua véneta, o estatuto de língua oficial de tal minoria.

Segundo o governo regional, a vida, no Véneto, deve ser regulada por um rigoroso bilinguismo entre o véneto e o italiano. Nas escolas será indispensável o ensino do véneto, para além, talvez, do italiano; nas repartições públicas será obrigatório usar a língua véneta, de tal maneira que os funcionários deverão munir-se de um cartão que ateste o conhecimento dessa língua.

As razões de tais insensatas propostas são várias: é verdade que a partir da Idade Média “o véneto” foi ao mesmo tempo fala popular e língua das elites culturais, como demonstram os poemas franco-vénetos ou as relações de muitos embaixadores da Sereníssima, ou, em tempos mais recentes, as comédias de Goldoni e, entre os contemporâneos, as obras poéticas de Andrea Zanzotto e Biagio Marin; é também verdade, porém, que todas as regiões italianas, nas quais o sentido da comunidade local era, durante séculos, o único valor identitário reconhecido, conhecem a riqueza do bilinguismo na permuta contínua entre a língua nacional (a ideia de nação é muito tardia em Itália) e os idiomas locais ou familiares, “os dialectos” formados por substratos linguísticos antigos (grego e latino) ou por influxos das línguas dos conquistadores (francês e espanhol).

Todos estes idiomas são também línguas literárias como o napolitano ou o sardo, etc.. Com a afirmação da unidade de Itália (1861) e, mais ainda, durante todo o século XIX, há uma contaminação contínua entre algumas formas dialectais (cada vez mais próximas às do italiano) e a língua nacional, que frequentemente conserva algumas expressões dialectais, mas tem regras canónicas imprescindíveis para quem fala e escreve em italiano.

O pedido do conselho regional do Véneto, mais do que o resultado de subtis análises sócio-linguísticas, pretende fazer reconhecer ao Véneto a classificação de Região com estatuto especial, semelhante aos que estão em vigor no Trentino Alto-Ádige ou no Valle d’Aosta, que gozam de oportunos financiamentos. Naquelas regiões o estatuto especial justifica-se como consequência de uma difícil batalha diplomática, pela qual o estado italiano não poupou meios para manter juntos, naqueles lugares de confim, grupos étnicos e linguísticos diversos (os cidadãos de língua alemã são maioritários no Alto Ádige-Sud Tyrol).

Nestas regiões o bilinguismo é uma civilizada e lucrativa forma de convivência consolidada, enquanto a deliberação dos administradores vénetos parece, no melhor dos casos, uma anedota, porque o povo véneto, como há muito tempo estabeleceu a Corte Constitucional, não é uma minoria nacional com uma língua própria. De facto, é assaz difícil falar de uma língua véneta porque o falar de Pádua não é o de Veneza,  nem sequer o de Treviso e, muito menos, o de Belluno (províncias da região véneta).

(trad. de Manuel Simões)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Anna Rosa, Manuel. queridos Amigos. Não conheço a realidade política do Véneto – não sei até que ponto o povo da região aceitou a unificação e se essa exigência de dar ao italiano o estatuto de língua segunda é histórica e filologicamente defensável -ou seja, se a integração no Estado italiano correspondeu a um anseio popular ou uma imposição manu militari; Por outro lado, ignoro se a língua falada na região é uma variante dialectal do italiano ou se é um idioma diferente, Ou seja, estamos perante uma situação semelhante à da Catalunha, onde é perfeitamente legítimo que o castelhano seja idioma opcional ou se se trata de usar o dialecto como arma política. Beijo e abraço do Carlos.

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