A CRISE DA FINANÇA – O CASO ITALIANO – 21. DAVID ROSSI – FINALMENTE A PROCURADORIA COMPREENDE QUE ARQUIVAR O PROCESSO DE SUICÍDIO NÃO É SUSTENTÁVEL, por RITA PENNAROLA

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

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David Rossi – finalmente a procuradoria compreende que arquivar o processo de suicídio não é sustentável.

Por Rita Pennarola,  DAVID ROSSI – FINALMENTE LA PROCURA SI ACCORGE CHE L’ARCHIVIAZIONE PER SUICIDIO NON PUO’ REGGERE

Voce delle voci, 17 de Novembro de 2015

 

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À direita, David Rossi. À esquerda, Adamo Bove.

 

Introdução

O Ministério Público de Siena decidiu reabrir a investigação sobre a morte de David Rossi, o diretor do departamento de comunicação do banco Monte dei Piaschi di Siena, que se terá atirado, a 6 de março de 2013, da janela do seu gabinete em Rocca Salimbeni. O delegado do Ministério público, Salvatore Vitello recebeu relatórios e documentos de peritos que foram sendo incansavelmente compilados pela viúva de Rossi, Antonella Talbot e pelo seu advogado, Luca Goracci, após o arquivamento do caso como sendo um suicídio. Elementos que saltam aos olhos, mesmo numa primeira reconstrução: naquela que tinha sido publicada pelo jornal VOCE em março de 2014, na última edição do jornal em papel, antes de Antonio Di Pietro determinar o seu encerramento.

As investigações foram retomadas, escreve hoje Vitello, porque “os aspetos assinalados na instância de reabertura, completados com consultoria especializada em dados itens leva a que se proponha a necessidade de aprofundamento “.«Da análise pericial sobre a sua caligrafia, do médico legista e da dinâmica física na queda, “-diz Goracci- emerge a ideia de que David Rossi teria primeiramente sido espancado na testa e depois teria sido atirado da janela por pelo menos duas pessoas».

Apresentamos novamente, de seguida, os dois textos editados por Voce e dedicados ao caso David Rossi, uma página entre as mais sombrias do sistema económico e financeiro, mas especialmente do sistema de justiça italiana. Uma justiça que pelo menos sobre a morte de David poder-se-ia redimir agora, desde que as novas investigações não voltem a bater na parede de silêncio das excelentes omissões, como foi o caso há alguns dias com a lápide posta pela Procuradoria romana, depois da reabertura das investigações esperadas desde há décadas num outro caso que continua a pesar na consciência dos italianos: o desaparecimento de Emanuela Orlandi e Mirella Gregori.

A) Monte Paschi – ROSSI e o emaranhado harmonioso no Monte dei Paschi de Siena

Rita Pennarola, 15 de março de 2014

Terá havido a mão “iluminada” de maçons toscanos, por detrás do voo de 30 metros do responsável pelas relações públicas do banco MPS, Davide Rossi, de cabeça para baixo, na base da decisão de há poucos dias em que o Magistrado decidiu o arquivamento do processo de investigação? Aqui reconstituímos os laços entre Rossi e o seu colega, como ele um jornalista profissional, Stefano Bisi. E isto porque na mesma altura em que se escreve a palavra Fim sobre a investigação à volta da morte de David Rossi, ele aparecia como o membro de topo do Grande Oriente da Itália, ou seja, como o seu novo Grão-mestre.

Lápide colocada. Caso encerrado. A morte do chefe de comunicações do MPS, David Rossi, que voou janela fora do seu próprio gabinete, na altura em que, março de 2013, alastrava o escândalo do banco de Siena, foi considerada um suicídio. Escreve-o há alguns dias atrás ao arquivar o processo, a juíza de Siena, Monica Gaggelli. A família não aceita a posição e anuncia a apresentação de recurso, mostrando elementos que deixam de pé muitas interrogações sobre o suposto suicídio. Assim, o caso de David Rossi começa a entrar nas fileiras dos mistérios que permanecem sem culpados. Como o de Adam Bove: um gestor da Telecom, há anos na Direzione Investigativa Antimafia (DIA), que voou com o corpo morto de uma ponte da circular de Nápoles em plena história de espião que percorreu o gigante das Telecomunicações. Foi a 26 de julho de 2006 e Bove, que desde há dias andava a ser perseguido, estava prestes a fazer novas declarações na Procuradoria. Suicídio, é o que dirá, por fim, o Ministério Público. No caso de Rossi, no entanto, os detalhes que estão a incomodar são outros. A começar pelo Delegado do Ministério Publico responsável pelo inquérito, Aldo Natalini, que também pediu e obteve o arquivamento do processo.

UMA CHAMADA TELEFÓNICA A MAIS

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À direita, David Rossi. À esquerda, Adamo Bove.

Trinta e oito anos, nascido em Viterbo, em 2013 o procurador adjunto de Siena Natalini foi, por acaso, intercetado no âmbito de um inquérito conduzido pelo Ministério público de Viterbo sobre contratos truncados no Lazio, enquanto se alonga ao telefone com um dos suspeitos. É um seu amigo e colega de Universidade, Samuel De Santis, advogado. Ao seu amigo Samuel, Natalini não só fornece detalhes sobre a investigação judicial em Siena a respeito da iminente falência do Monte Paschi Siena, como também explica que estratégias defensivas poderiam ser adotadas a favor dos líderes do Partido Democrático envolvidos na situação dramática do banco, para além dos altos dirigentes do banco como Giuseppe Mussari e Fabrizio Viola.

Uma chamada privada, é certo. Mas que levantou a suspeita do procurador de Viterbo Massimiliano Saidi, que, em agosto de 2013 entrega pessoalmente a Natalini um aviso de investigação com a hipótese de violação do segredo de justiça. Algumas horas mais tarde o processo vai ser arquivado.

No entanto, a interceptação, realizada casualmente, permanece essencialmente como algo único, a partir do momento em que o juiz de instrução de Siena Ugo Bellini, que dirigia a investigação sobre o Monte Paschi, se tinha recusado a autorização de interceptar os suspeitos principais, incluindo o prefeito de Siena Franco Ceccuzzi, se bem que tenha reconstruído o cenário da reunião em que os grandes do PD decidiam o destino do banco, desde Piero Fassino a Francesco Rutelli, de Massimo D’Alema a Walter Veltroni, até Pierluigi Bersani.

QUEDA AO CONTRÁRIO

Nascido em 1961, jornalista profissional, David, que não estava entre os suspeitos na investigação do MPS e não estava em perigo de perder o emprego – como foi confirmado no momento da morte pela direção do banco – fez um voo de trinta metros ao contrário, de costas, a partir da janela atrás da secretária no seu gabinete do terceiro andar em Rocca Salimbeni. Em cima da mesa os investigadores encontraram os óculos e os telemóveis. Um pouco antes tinha telefonado à sua mulher para lhe dizer que estaria em casa por volta das 20h30.

Mas para o juiz de instrução Gaggelli, “não pode subsistir nenhum ponto obscuro nem nenhuma dúvida ” sobre a morte de Rossi, que se atirou “voluntariamente” e não foi “empurrado para baixo violentamente por terceiros através da janela.” Uma “sobrecarga emocional”, é a explicação para o juiz de instrução, para o caso deste jornalista, que se tornou “uma obsessão” depois do inquérito que se realizou a 19 de fevereiro de 2013. Uma decisão que, para a esposa de Rossi, Antonella Tognazzi, e para o seu advogado, Luca Goracci, não explica como é que o voo foi feito rasante à parede do edifício, uma circunstância pouco credível para um lançamento autónomo para o espaço, sem contar as marcas nos sapatos, o que não seria compatível com as encontradas no parapeito da janela, ou ainda os sinais sobre o seu corpo. Isto é o que declarou Antonella aos microfones da TG1 poucas horas depois da informação de que se ia arquivar o inquérito, recordando que David amava a vida e não tinha nenhuma razão para acabar com ela.

DAVID E O GRÃO-MESTRE BISI

Mas há detalhes que nunca encontraram lugar na investigação do juiz de Siena. E estes detalhes vêm à superfície com força explosiva no rescaldo da eleição do novo Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália (coincidentemente, ocorreu na mesma hora em que se informava que a investigação sobre a morte de David Rossi tinha sido arquivada). E no dia 5 de março passado, os maçons italianos decidiram que o trono deixado vago por Gustavo Raffi seria ocupado por Stefano Bisi, um jornalista profissional, natural de Siena e diretor do Corriere di Siena. A sua lista obtém 46,26% das preferências dos 11.490 votantes em 16.059 maçons com direito a voto, numa eleição com 71,55% dos membros votantes.

Bisi era apenas um colega, como muitos outros, do pobre David Rossi? Não propriamente.

Para entender como Bisi e Rossi se conheciam e tinham trabalhado durante muito tempo juntos, até mesmo dentro do emaranhado MPS, relatamos a longa passagem do blog “Fratello Illuminato”, gerido e escrito por confrades que se opunham à dominação dos maçons na órbita do Partido Democrático, em Siena e não só. O diferendo remonta a tempos não suspeitos, junho de 2012.

“O início da era Mussari no banco coincide com o início do emaranhado harmonioso liderado por Stefano Bisi. São suposições? Não, os fatos falam por si e sem ser necessário nenhum comentário. Obviamente que os administradores municipais e provinciais têm as suas responsabilidades, mas dito isso, devemos sublinhar que a influência da gestão Mussari, suportado pelos dois comunicadores David Rossi e Stefano Bisi, condicionou os partidos, as direções comunais e as informações citadinas.”

Mais à frente vem explicado como e porque é que isso aconteceu. “De 2006 a 2011 o banco MPS gastou 355 milhões de euros em publicidade através da área de comunicação gerida por David Rossi. Quantos órgãos de informação terão beneficiado com a publicidade? Talvez seja apenas uma coincidência, mas já quase no final da direção Mussari foram contratados para a área de comunicação do MPS a namorada de Bisi e um outro colaborador do Corriere di Siena. E estranhamente o gerente de comunicação do MPS (David Rossi, ed) não perdeu tempo em lançar através de um vídeo publicado por Siena Notícias palavras de elogio para o mesmo jornal on-line (sendo Stefano Bisi o editor-chefe) “.

Depois, ainda a propósito do já poderoso Bisi, os bloggers maçons continuam: “Querem falar sobre os estreitos laços de Bisi com os ex-diretores do aeroporto Ampugnano ou com o conselho de administração da Universidade? Querem lembrar os artigos de louvor escritos por Bisi na compra do banco Antonveneta? O emaranhado harmonioso colocou a cidade de joelhos. E agora que estratégia inventaram os dois comunicadores, David Rossi e Stefano Bisi? Minimizar e tentar salvar o destino de Ceccuzzi, não porque gostem de Ceccuzzi, mas apenas com a esperança de ocupar o seu papel. “

Atitudes que, na época, não agradaram ao grupo dos dissidentes maçons. Os quais, de seguida, irão chegar a recomendações mais suaves (veja-se a eleição de Bisi em 2014), ou permanecem uma pequena minoria. Porquê? Enquanto isso, vejamos o que escrevem no blog de junho de 2012, a propósito do futuro Grão-Mestre.

«Todo este protagonismo de Bisi cria embaraços dentro da Maçonaria. Como prova disto, vejamos algumas declarações feitas por um membro do Grande Oriente da Itália, o histórico Delfo Del Bino, que assumiu o papel de Grande Vigilante com o então grão-mestre do Grande Oriente da Itália, Armando Corona. Para que conste, recordamos que que foi Armando Corona quem decretou a expulsão de Licio Gelli do grande Oriente da Itália». «Nós amamos a Europa dos povos e dos saberes, não a dos bancos”, foi a afirmação de Del Bino. Destas palavras ficamos a saber também que «o grande Oriente da Itália em todos os locais, e mesmo especialmente no contexto europeu, onde desde há dois anos temos participado em Organizações filosóficas não confessionais organizadas em Bruxelas junto da Comissão Europeia presidida por José Manuel Durão Barroso, sempre insistiu sobre a centralidade dos princípios fundadores da União entre os povos europeus, sobre a cultura e sobre a defesa dos direitos humanos que precedem e estão acima das razões estritamente económicas».

A INFLUÊNCIA MAÇÓNICA

Poderá ter desempenhado um papel importante, na morte de David Rossi, a estreita proximidade deste com o futuro chefe da Maçonaria? Ou o jovem jornalista amante da cultura e da arte tinha sido atirado para um jogo muito maior do que ele, do qual não conseguiria sair?

O blog Voce tinha-se ocupado de Bisi num texto de julho 2013 dedicado a analisar a densa floresta da maçonaria vermelha da Toscana. A começar pelos interesses do Grande Oriente Italiano (GOI) na Urbs, a empresa imobiliária gerida pelo tesoureiro do Grande Oriente Enzo Viani, florentino e antigo empregado do MPS. “ Embora passando por conservador – escrevíamos – Viani não hesitou em apoiar a candidatura a prefeito de Florença do antigo membro do Partido Comunista Graziano Cioni, que mais tarde foi derrotado pelo moderado Matteo Renzi. Viani, de resto, tinha sido escolhido como presidente do aeroporto de Siena Ampugnano por Franco Ceccuzzi, deputado do Partido Democrático e durante anos prefeito de Siena, antes de renunciar, em maio de 2012, face ao escândalo do MPS”.

Sobre esta história incide então o trabalho de Report, ao analisar dois dos principais executivos de GOI: precisamente «Enzo Viani, presidente da Urbs, o cofre do Grande Oriente Italiano » e Stefano Bisi, Presidente do Conselho dos Veneráveis Mestres da Toscana. «Jornalista do Corriere di Siena – escreve Voce –em 1 Junho Bisi presidiu na Massa Marittima a conferência intitulada “Maçonaria e compromisso social”, a que deu o seu apoio o prefeito de Massa, a apoiante de Bersani, Lydia Bai”.

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Um inextricável emaranhado, entre os maçons e o poder financeiro, na região vermelha. Basta lembrar que tinha sido o apoiante de Bersani Franco Ceccuzzi, antes de se tornar prefeito de Siena, quem terá escolhido o maçon Viani como presidente do Aeroporto de Siena. E quando ele se tornou prefeito, Ceccuzzi recuperou de uma campanha eleitoral patrocinada pelo Corriere direto de Bisi. Como editor-chefe do Corriere di Siena está o antigo vice do Pdl Rocco Girlanda. Repetidamente intercetado quando fala ao telefone com o seu amigo Denis Verdini, Girlanda foi subsecretário para o transporte no governo de Enrico Letta, que também o escolheu para dirigir o CIPE, (Comitato interministeriale per la programmazione economica).

 

B) O “suicídio” de David Rossi no Monte dei Piaschi/ 3 peritagens irão reabrir o processo?

Andrea Cinquegrani, 30 de agosto de 2015

O clássico voo pela janela, imediatamente arquivado como “suicídio” pela ultrarrápida procuradoria de Siena, vítima pois David Rossi, o diretor de comunicação do banco Monte dei Paschi di Siena. A mesma celeridade que permitiu aos magistrados napolitanos encerrarem num abrir e fechar de olhos – em 2008 – um outro voo, da via circular de Nápoles, o processo de Adam Bove, o homem que sabia todos os segredos da Telecom e não só (e há um ano e meio atrás ainda um outro estranho enésimo “suicídio” na Security Telecom, o de Emanuele Insinna). Igual é o script para um outro acórdão relâmpago proferido pelo Tribunal de Ancona, em meados dos anos 90, sempre de arquivamento: Carmine Mahmoud “mergulha” de um ferry quando vinha da Grécia, ele que sabia tudo sobre as relações entre a Camorra e a política. E, sempre na cidade da Camorra, Nápoles, o incrível “suicídio” de Antonio Vittoia, presidente da Faculdade de Farmácia, que numa bolsa tinha as insígnias maçónicas, cremado em menos de 24 horas: Arquivado. Estranho mas é verdade: uma justiça que anda a passo de caracol, a nossa justiça, desperta repentinamente e envia tudo para o sótão, quando existem dados claros de sinal contrário, decididamente favoráveis a um maior aprofundamento do caso. Assim, uma linha vermelha acompanha sempre estas perturbantes histórias: depois de algumas horas, no máximo alguns dias, os “suicídios” (ou não) queriam ou teriam de ir falar com o promotor de justiça, ou como se costuma dizer na gíria, ” despejar o saco”. Calados a tempo. E sempre com uma mãozinha que ajudou. Há cerca de um ano, o arrependido Carmine Schiavone (tio de Sandokan) falou das mãozinhas dos serviços secretos, os Servizi, que teriam ajudado Mensorio no seu voo nas águas do Adriático: e, alguns meses depois, foi ele, Schiavone, que fez o mesmo voo contra uma árvore, perdendo a vida. Dir-se-á: são coincidências.

Mas é sobre o primeiro e muitíssimo complicado caso policial, o de David Rossi, que queremos focar a atenção. Porque algo de muito grande irá ser anunciado em breve. É que escreve a agência Askanews, num relatório em 25 de agosto: “A família de David Rossi, que morreu em 6 de março de 2013, depois de um voo do seu gabinete na sede do MPS, está a preparar-se, assistida pelo seu advogado Luca Goracci, para solicitar a reabertura do inquérito. O caso foi encerrado como tendo sido um suicídio”.

Dando alguns detalhes. o jornal on-line Lettera 43. “No final de setembro Goracci deve apresentar aos magistrados o resultado de três peritagens. A primeira é de um médico legista, encarregado de dar corpo às questões que inevitavelmente qualquer um de nós que tenha tido a coragem e a compaixão de olhar para a foto de Rossi na mesa de autópsia poderá ter posto a si-mesmo”.

A segunda perícia foi realizada por um dos amigos mais próximos de David Rossi, o engenheiro Luca Scarcelli, e “demonstrará – escreve Lettera 43 – que a filmagem de David quando cai no chão a partir de uma janela do Monte dei Paschi, feita por uma câmara de segurança do banco, foi adulterada, ou pelo menos cortada, faltando pois imagens. Um exame dos instantâneos, ditos frames pelos profissionais da fotografia e do cinema, feito com instrumentos de alta definição, poderiam confirmar a presença no beco de personagens suspeitos durante os mais de 20 minutos de agonia de David no chão”.

Mas ao que tudo indica, o centro das atenções está todo na terceira perícia, a da caligrafia. Realizada pelo professor Giuseppe Sofia sobre três notas que Rossi deixou à sua esposa Antonella, esta peritagem não deixa espaço a qualquer dúvida: Rossi escreveu esses bilhetes sob coação. “Basicamente alguém o segurou pelos braços, por baixo das axilas. Demonstram-no as impressões digitais de mãos, visíveis nas fotos da autópsia, que permaneceram marcadas na pele dos braços, precisamente sob as axilas”. E novamente: “a análise da caligrafia revela traços da escrita, em comparação com outros textos escritos por David em diferentes situações, visivelmente diferentes, que não são devidos a um momento emocional mas justamente devido a coerção física.”

Permanecem então por esclarecer os evidentes sinais, no corpo de David, de uma briga, evidentemente antes do voo, e que seguramente não foram causados pelo impacto da sua queda no chão. Além dos hematomas em ambos os braços e de um enorme hematoma à altura de estômago, típico de um forte murro no estômago, há ainda uma lesão na parte de trás da cabeça, arranhões no rosto.

E depois. Depois há a estranhíssima trajetória de voo, o relógio que cai incrivelmente “depois”, o telefone móvel, sempre “depois” que se reanima e inicia uma chamada telefónica: na realidade, disca um número – tão incrivelmente que pareça –é igual a uma conta “dormente” (ou seja na altura inativa) do Monte dei Paschi.

Por tudo isto e por muito mais ainda, é tempo de reabrir o inquérito que na altura foi encerrado. Sobre o qual caiu uma cortina, depois da juíza Monica Gaggelli, ter ordenado o arquivamento da investigação da morte de David Rossi, na sequência do pedido apresentado pelo procurador público, Aldo Natalini. O próprio Natalini recebeu uma notificação emitida em agosto de 2013, que lhe foi dirigida pelo procurador de Viterbo, Massimiliano Saidi, por “violação do segredo de justiça”, precisamente nas investigações sobre a praga que é o Monte dei Paschi. Uma praga nunca explorada até ao fundo. E que o próprio filão Natalini poderia, em alguns aspetos, esclarecer: porque motivo este magistrado fornecia detalhes confidenciais sob a falência iminente do MPS ao amigo e colega da Universidade, o advogado Samuele Santis? Porque é que ele explicava as estratégias defensivas que poderiam ser adotadas pelos dirigentes do PD envolvidos, pelo Presidente do MPS Mussari e por Viola? E porque razão o juiz responsável pela investigação sobre o MPS, Ugo Bellini da Procuradoria de Siena, recusou autorizar as escutas telefónicas sobre o prefeito Franco Ceccuzzi e sobre os grandes nomes do PD com quem estava a estudar a estratégia de saída para evitar uma avalanche de mais problemas?

Mas voltemos ao caso complicado da morte de David Rossi. No fundo há aqui uma grande interrogação. Porque motivo na investigação não aparece nunca a sombra da Maçonaria? E porque também na posterior reconstrução nunca se falou dos irmãos e amigos do avental do mesmo David Rossi? E, no entanto, naqueles dias, um grande amigo seu, Stefano Bisi, jornalista, há anos diretor do Corriere di Siena, assumia o papel de Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália. Assim o escreveu o jornal Voce num texto publicado em março de 2014, reportando passagens de um blog, ” Fratello Illuminato” que criticava, de uma outra linha maçónica, o abraço de irmãos maçónicos com os homens e as estratégias do PD: “O início da época Mussari no banco coincide com o início do emaranhado harmonioso liderado por Stefano Bisi. A influência da gestão Mussari, apoiada pelos dois comunicadores Bisi e Rossi, condicionou os partidos, os conselhos municipais e a informação citadina”. E ainda: “De 2006 a 2011 o banco MPS gastou 335 milhões de euros em publicidade através da área de comunicação gerida por Rossi. Quantas agências de notícias terão beneficiado com a publicidade? Talvez seja apenas uma coincidência, mas no final da Presidência Mussari foram contratados para a área de comunicação a namorada de Bisi e outro colaborador do Corriere di Siena. (…) E queremos recordar aqui os elogios escritos por Bisi sobre a compra de Banca Antonveneta?”.

Será que, finalmente, será reaberto o caso? Procurar-se-á lançar alguma luz sobre os muitos buracos negros, grandes como uma casa, ou melhor, como aquele grande palácio na via Salimbeni, de onde se terá “suicidado” David Rossi? Será que se vai começar a a desvendar o emaranhado que afinal não é assim ” tão harmonioso” como se diz?

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Para ler o original clique em:

http://www.lavocedellevoci.it/?p=3786

 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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