Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. 2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*). 2.3 – 6ª parte – Ainda dois comentários finais. Por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640
Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*)

Por Júlio Marques Mota

 

pluto POR ARISTÓFANES

2.3 – 6ª parte – Ainda dois comentários finais.

 

 

 

Primeiro comentário: Uma inquirição ao Presidente da Goldman Sachs feita no Senado americano

A reprodução de um excerto de audição no Senado do mais representativo dos Plutos de hoje, Lloyd Blankfein, ao ser inquirido, numa inquirição conduzida pelo Presidente da National Commission on the Causes of the Financial and Economic Crisis in the United States, Phil Angelides, também conhecida por New Pecora Commission. Lloyd Blankfein é o banqueiro de Goldman Sachs, o homem que afirmava andar a fazer o trabalho de Deus! Elucidativo.

Tenham em atenção a precisão de linguagem do Presidente Angelides e o cinismo das respostas de Lloyd Blankfein. Face a estas respostas, percebe-se ainda melhor a gravidade das pressões em curso para uma maior autonomia das instituições financeiras dirigidas por estes senhores, para uma maior desregulação de um mercado que, em grande parte e objetivamente, ninguém controla dada a opacidade que nele é permitida.

Impõem-se controlos rigorosos e reformas a sério sobre estes mercados, reformas estas que poderão e deverão passar a ser discutidas no quadro das Instituições do perímetro da ONU e em que o FMI deve reassumir as funções para que foi criado em Bretton Woods e não as de ser o catavento dos interesses financeiros globais como tem sido até aqui, e desde há duas décadas pelo menos. Só assim será possível evitar que as Democracias se mantenham capturadas pelos Pluto da modernidade.

Pela nossa parte esperamos que os textos da série nos sirvam a todos nós para obtermos uma visão mais clara sobre a opacidade do sistema e sobre o sentido que as reformas dos sistemas financeiros devem assumir.

Inquirição a Blankfein em 13 de janeiro de 2010 (ver aqui a pág. 25 e seguintes):

(…)

Presidente ANGELIDES:

Ok. Pode caracterizar-me – olhando agora para o que foi feito- e em retrospetiva clara, o que é que aconteceu? Mas ao olhar para trás veria alguns dos financiamentos feitos como tendo sido negligentes ou impróprios?

BLANKFEIN:

De novo, no contexto do mundo em que vivemos agora -e quando o senhor utiliza termos como os que utilizou, eu penso sempre sobre padrões de comportamento e no contexto em que foram praticados. Eu penso que se tratou de comportamentos muito típicos no contexto em que nós estávamos a trabalhar.

Presidente ANGELIDES: Deixe-me perguntar-lhe, fez algum tipo de investigação interna, do género de grande varrimento das suas atividades? E o que é que encontrou? E o que é que poderíamos ver?

BLANKFEIN:

Eu não sou, o senhor sabe, se tivermos algo, naturalmente, nós identificaremos para si e o senhor pode verificá-lo. Eu não estou a referir-me a algo de específico. Eu estou a referir-me ao facto de que nós olhamos para os nossos riscos e nós olhamos para as nossas posições de risco. E nas tensões e na área de crise, nós olhamos – para o nosso balanço e para a quantidade de posições ilíquidas que aí estão presentes. É a isso que eu me estou a referir.

Presidente ANGELIDES:

Bem, se, de facto, o senhor mandou fazer uma auditoria interna do tipo de olhar para as práticas, para os erros que ocorreram, nós gostaríamos de poder ter isso, gostaríamos de rever esse trabalho. Obviamente, os seus advogados, eu estou certo, quererão revê-lo antes.

BLANKFEIN:

Absolutamente.

Presidente ANGELIDES:

Mas talvez haja algumas coisas às quais podemos dar seguimento. Deixe-me falar sobre isso, o senhor sabe, a questão dos conflitos aparece em muitos aspetos no mercado.

BLANKFEIN:

Certamente.

Presidente ANGELIDES:

Falemos sobre as compensações. Estas aparecem associadas normalmente com as práticas comerciais. E eu quero perguntar-lhe sobre um exemplo muito específico, como uma forma de chegar ao modo como as coisas funcionavam e como é que as coisas poderão mudar no futuro. Baseados na releitura de documentos públicos, como sabe, a sua empresa vendeu uma quantidade significativa de obrigações colateralizadas por títulos de hipotecas subprime.

E parece, pelo menos de acordo com os documentos públicos e outros relatórios, que o senhor pode simultaneamente ter apostado contra os títulos que terá vendido aos seus clientes. De acordo com os relatórios, o senhor vendeu cerca de $40 milhares de milhões em 2006, 2007. Em dezembro de 2006, penso eu, o senhor terá chegado à conclusão que o mercado hipotecário se dirigia à baixa e começou a reduzir as suas próprias posições. E muitos dos títulos que o senhor vendeu aos investidores institucionais, outras pessoas passaram a estar em dificuldade logo no espaço de meses após a emissão. Ainda agora, um perito no financiamento em produtos estruturados disse, “a venda simultânea dos títulos aos clientes e a venda respetiva destes títulos a descoberto só porque acreditam que estão a entrar em situação de falência é a mais cínica utilização de informações de crédito que eu alguma vez vi.” O senhor acredita que isto era uma prática legal, eticamente apropriada? E que a empresa poderia continuar a utilizar essa prática? Ou o senhor acredita que este é o tipo da prática que mina a confiança no mercado?

BLANKFEIN:

Bem, como é… deixe-me – a resposta imediata e curta é que esta é a prática de um criador de mercado [prestador de liquidez]. E eu gostaria de explicar isso. Mas a resposta é que eu acho que o comportamento é impróprio e lamentamos o resultado – a consequência de que as pessoas perderam dinheiro, mas eu só quero explicar – e isto é muito importante – e agradeço a oportunidade de o poder fazer porque existe muita pressão em redor disto que na verdade quero – necessito explicá-lo.

Na nossa função de criação de mercado, de prestação de liquidez, somos um grande investidor das nossas posições por conta própria no mercado [5]. Representamos o outro lado do que as pessoas querem fazer. Não somos agentes fiduciários. Não somos um agente. Claro, temos a obrigação de divulgar completamente o que é um instrumento e de sermos honestos nas nossas negociações, mas não estamos a gerir o dinheiro dos outros.

Quando nós vendemos algo como um grande investidor (“as a principal”) – que é o que nós somos enquanto criador de mercado – no minuto seguinte, esse artigo terá subido – caso em que desejaríamos não o ter vendido naquele último minuto – ou descerá de valor – caso em que estaremos satisfeitos por melhorarmos a nossa conta de ganhos e perdas e lamentamos pela pessoa que o comprou. Mas nós somos criadores do mercado naquele produto. Na maioria destes casos, quem nos veio procurar fê-lo pela exposição ao risco que queria assumir.

Presidente ANGELIDES:

Mas, senhor Blankfein, o senhor está realmente a criar esses títulos. E deixe-me apenas dizer-lhe, como alguém que tem estado no negócio durante metade da minha carreira, a noção de que eu faria uma transação com o senhor e, em seguida, a pessoa com quem fiz essa transação apostaria contra essa transação de modo a que o seu valor explodisse, eu vê-la-ia como minha inimiga. E acho que a questão é que o senhor não era puramente um corretor. O senhor estava realmente na posse do produto subprime, empacotando-o e vendendo-o sob a sua marca. De acordo?

Blankefein: Deixe-me ser claro. Eu não sou um corretor, de modo nenhum.

Presidente ANGELIDES:

Correcto.

BLANKFEIN:

De modo nenhum.

Presidente ANGELIDES:

Sim, o senhor é um grande investidor no mercado.

BLANKFEIN:

Nós somos um grande investidor.

Presidente ANGELIDES:

OK.

BLANKFEIN:

O ato — não é como se estejamos a criar o produto, o produto existia necessariamente, e nós estávamos a vendê-lo a descoberto. O ato de o vender reduzia o nosso risco.

Presidente ANGELIDES:

OK.

BLANKFEIN:

Deixe-me ser claro acerca disto…

Presidente ANGELIDES:

O ato de os vender, os títulos – eu posso entender como é que o meu ponto de vista era de que o senhor tinha uma visão do mercado enquanto continuava a vender aqueles títulos. Acho que uma das perguntas que eu perguntei foi: como é que o senhor faz com as agências de rating, com quem eu lidei muito frequentemente enquanto Tesoureiro, e como é que o senhor as convence a dar a muitas das tranches as classificações mais altas – triplo A – ao mesmo tempo que o senhor tem informações de crédito que o leva a acreditar que, de fato, esses valores podem falhar?

BLANKFEIN:

Presidente, eu gostaria de …e um outro ponto. A hipótese subjacente à sua pergunta, nós não somos necessariamente… Eu sei, se o senhor tivesse olhado para dentro da Goldman Sachs, nós não estávamos a controlar o nosso risco. Quando o senhor ouve o testemunho que aqui chega, o maior problema que as instituições tinham era a acumulação de risco.

Nós não estávamos a trabalhar – um criador de mercado não controla o seu perfil de risco porque gosta de casas ou não gosta de casas. São coisas separadas. Temos várias áreas, de – desculpe-me. Temos várias áreas na Goldman Sachs que gostam de tomar uma posição ou não gostam. O que fazemos é gestão de riscos. Porque nós tínhamos esse risco, porque estávamos a acumular posições de risco, que, a propósito, nós tínhamos adquirido de clientes que no-las queriam vender, tivemos que sair nós mesmos e fornecer e ser a fonte do outro lado das transações para podermos gerir o nosso risco. Tudo isto se traduz em operações de gestão de risco.

Presidente ANGELIDES:

Bem, eu vou ser franco consigo. O senhor parece-me um pouco como quem está a vender um carro com travões defeituosos e, em seguida, compra um Credit Default Swap (CDS), sobre o carro que já não é seu, protegendo-se contra eventuais eventos que se possam dar com o carro. Não me parece que isso seja uma prática que inspire confiança nos mercados. Não estou a falar da sua própria…

Blankfein:

Cada comprador…

Presidente ANGELIDES:

Estou a falar de apostar contra…

BLANKFEIN:

… é uma instituição, provavelmente profissional, com apenas investidores profissionais dedicados, na maioria dos casos, a este negócio.

Presidente ANGELIDES:

Representando fundos de pensões que têm a poupança de toda uma vida, sejam eles polícias, professores…

Blankfein:

Estes são os investidores profissionais que querem esta exposição ao risco.

Deixe-me perguntar-lhe…

Presidente ANGELIDES:

Ok…

Blankfein:

Hoje no mercado atual, as coisas estão…

Presidente ANGELIDES:

Vamos seguir em frente. Vamos – porque está na hora…

Blankfein:

Acho que são assuntos importantes. Eu acho que esta é uma das questões mais críticas que se está a querer resolver por aqui.

Presidente ANGELIDES:

Okey. E então eu tenho uma pergunta a seguir.

BLANKFEIN: Não, eu entendo. Estamos sentados aqui hoje com pessoas a comentarem na imprensa, o mercado de capitais está a ser impulsionado por mais bolhas por causa da sua muita liquidez. Outros estão a dizer que o mercado das ações está certo e estamos já na recuperação. Ninguém realmente sabe, mas as pessoas continuam a dirigir-se a nós como sendo um criador de mercados -eu quero a exposição ao mercado de capitais; eu não quero exposição ao mercado de capitais. Estamos a lidar -temos que ter a certeza de que os produtos fazem o que os produtos dizem que fazem, que eles são honestos, que a sua divulgação e as suas leis- mas estamos a lidar-somos uma empresa institucional, e esta representa a maior parte do mercado institucional.

Mesmo hoje, a propósito, as pessoas estão a dirigir-se-nos para a exposição a muitos destes instrumentos, não a uma centena de cêntimos de dólar, mas a $0.08 sobre o dólar, porque eles pensam que vai valer a pena $0.12 enquanto outras pessoas estão a dizer isto porque eles pensam, a $0.08, que esta vai ser de $0.04. Isso é o que é um mercado. E o nosso papel como fabricante de mercado cria o…

Presidente ANGELIDES:

Eu sei o que é um mercado, mas quero fazer-lhe esta pergunta. O senhor sempre revelou a todos os investidores que, na verdade, você estava a tomar posições contrárias em face dos produtos que lhes estava a vender? Ou você está apenas-apenas quero sim ou não? Isso é consistentemente divulgado?

Blankfein:

Estávamos a vender por conta própria, como um grande investidor, (“as a principal”). Quando vendemos, estávamos a vender algo que tínhamos possuído.

Presidente ANGELIDES:

Então deixe-me fazer-lhe uma pergunta final.

Blankfein:

Agora pertenciam-lhes, não a nós.

Presidente ANGELIDES:

Deixe-me fazer-lhe uma pergunta final sobre este tema muito rapidamente em termos de- como grande investidor no mercado que é: em setembro de 2004, o diretor da divisão penal do FBI alertou que a fraude hipotecária estava a ser tão galopante neste país que podia resultar numa situação potencialmente, cito, “endémica” e que, mantendo-se descontrolada, resultaria numa crise equivalente à dos bancos de poupança e empréstimos (Savings and Loan crisis) dos anos 80. Deu o senhor alguns passos específicos na seguimento daquela crise [fraude] de 2004 para avaliar as hipotecas que o senhor vendia no mercado?

Blankfein:

Bem…

Presidente ANGELIDES:

Se não o fez…

BLANKFEIN:

Nós não somos criadores de hipotecas…

Presidente ANGELIDES:

Não, mas …

BLANKFEIN:

Nós comprávamos hipotecas.

Presidente ANGELIDES:

Correcto.

BLANKFEIN:

Nós fizemos — fomos auditados e inspecionados, temos boas práticas quanto à avaliação dos riscos que pensamos serem robustas. E a resposta é que as pessoas podem examinar que processos eram utlizados na nossa análise de riscos (devida diligência) mas quando me sento aqui, não tenho nenhuma razão para pensar que eles não eram robustos.

(…)

Presidente ANGELIDES:

Deixe-me levantar uma série muito rápida de perguntas sobre o risco. No seu depoimento escrito e, de facto, hoje, o senhor falou sobre a gestão de risco enraizada na prestação de contas. E, hoje, o senhor falou disso, é claro, nenhum de nós sabe para onde é que as coisas estão a ir, então temos que planear com prudência as nossas posições de risco. E eu acho que, o senhor sabe, o senhor referiu que tinha rentabilidade em 2008, mas eu quero pressioná-lo um pouco sobre isto, porque eu acho que isso talvez vá no contexto global do risco, tal como foi entendido e, talvez não venha a ser assim entendido da mesma forma agora.

No seu banco, o senhor triplicou os seus ativos, quase, de cerca de 403 mil milhões de 2003 a 2007 para 1,1 milhão de milhões. Cresceu a uma taxa de crescimento composto anual de 29 por cento quando o PIB foi crescendo entre 1 e 3%. A sua taxa de alavancagem, quando medido contra património tangível, era 26 para 1. Segundo alguns analistas, seria de 32 para 1 — em património próprio tangível. O senhor mesmo fez a observação — ou um par de pessoas aqui — sobre a dependência da liquidez a curto prazo, que agrava isso.

Então, por uma questão de balanço, houve uma extensa cobertura, presumo, por causa da alavancagem significativa e talvez pela opacidade ou o perfil de risco dos ativos que o senhor detinha. No final de tudo isto — e eu vou pressioná-lo sobre isso — parece-me que sobreviveu com a ajuda extraordinária do governo. Foram fundos de US $ 10 mil milhões em fundos do TARP [programa de apoio aos ativos tóxicos], US $ 13,9 mil milhões como contraparte através do resgate da AIG.

Pelo seu próprio formulário 10-K, o senhor disse que emitiu US $ 28 mil milhões em dívida garantida pelo FDIC, que o senhor não poderia ter feito no mercado pelas razões acima. O senhor recebeu o direito de aceder à janela de Fed e à capacidade de pedir emprestado a taxa quase de zero. O senhor tornou-se uma empresa de holding bancário no fim de semana. O senhor teve igualmente acesso à TALF [programa da Reserva Federal para estimular crédito ao consumo]. O senhor beneficiou de uma proibição de venda a descoberto, a que inicialmente se opôs e que o Sr. Mack tinha defendido. E o senhor beneficiou — de algum alívio das regras de avaliação a valores de mercado, ainda que eu entenda que foram assíduos sobre a marcação a valores de mercado.

Acho que quando o senhor olha para a quantidade de alavancagem que tinha e como obteve esse seu crescimento rápido, o senhor realmente acredita que a gestão de risco no quadro geral era suficiente para lhe ter permitido sobreviver senão fosse esse apoio do governo que expus?

(…)

BLANKFEIN:

Bem – como já disse, admito que sim [que, como disse anteriormente o Presidente Angelides, fundamentalmente estavam a ser assumidos riscos excessivos] – olhando agora, e mais uma vez tudo é conduzido dentro de um contexto, eu não podia ser mais claro. Após 10 anos benignos no contexto em que estávamos, repare, como olharia o senhor para o risco dos nossos furacões? Na época seguinte tivemos quatro furacões na costa Leste, o que foi absolutamente excepcional, em relação à época anterior, as taxas ficaram muito baixas para os prémios de risco na costa Leste dos Estados Unidos. Nesse ano, após quatro furacões, os nervos de toda a gente estavam tão….- as taxas subiram espetacularmente. Estão novamente mais baixas.

(….)

BLANKFEIN:

É o risco de quatro furacões diferente em qualquer daqueles momentos?

Presidente ANGELIDES: Sr. Blankfein, quero dizer o seguinte. Tendo pertencido ao comité da Autoridade para o Sismo da Califórnia, dispensamos actos de Deus. Estas foram ações de homens e mulheres [portanto controláveis].

(…) (ver aqui a continuação da inquirição)

Vejamos finalmente as principais conclusões da Comissão de Inquérito sobre a Crise Financeira, presidida por Phill Angelides:

“(…)

Concluímos que a crise financeira poderia ter sido evitada: a crise foi o resultado da ação e inação humana, não da mãe natureza ou de modelos de informáticos que ficaram incontroláveis. Os altos cargos do mundo da finança e os gestores públicos do nosso sistema financeiro ignoraram os alertas e fracassaram no questionamento, compreensão e gestão da evolução dos riscos num sistema essencial ao bem estar do público americano. Foi deles este grave erro, não um percalço. ……Parafraseando Shakespeare, a falha não está nos astros, mas em nós.

(…)

Concluímos que falhas generalizadas na regulação financeira e na supervisão mostraram ser devastadoras para a estabilidade dos mercados financeiros do país: os controladores não estavam nos seus postos, devido não pouco à crença generalizadamente aceite da natureza auto-corretora dos mercados e da capacidade das instituições financeiras para se fiscalizarem a si mesmas. Mais de 30 anos de desregulação e confiança na auto-regulação das instituições financeiras, defendidas pelo antigo presidente da Reserva Federal Alan Greenspan e outros, apoiadas por sucessivos Presidentes e pelo Congresso, e ativamente empurradas pela poderosa indústria financeira a toda a hora, removeram garantias de proteção essenciais que poderiam ter ajudado a evitar a catástrofe. Esta abordagem abriu lacunas na supervisão de áreas críticas com milhões de milhões de dólares em risco, tais como o sistema bancário sombra, da venda livre sobre o balcão do mercado de derivados. Além disso, permitiu que as empresas financeiras escolhessem os seus controladores preferidos no que se tornou uma corrida ao supervisor mais fraco. Não aceitamos a ideia de que os reguladores não tinham o poder para protegerem o sistema financeiro. Tinham um amplo poder e competência em muitas áreas e optaram por não o usar. (…)

Concluímos que falhas dramáticas na governação empresarial e na gestão do risco em muitas instituições financeiras importantes do ponto de vista sistémico foram uma causa chave da crise: Havia a ideia de que o instinto de auto-preservação das mais importantes firmas financeiras as protegeria da assunção de riscos letais sem a necessidade de uma firme mão reguladora que, argumentavam as firmas, sufocaria a inovação. Demasiadas destas instituições agiram irresponsavelmente, assumindo demasiado risco, com muito pouco capital, e com demasiada dependência em financiamento de curto prazo. Em muitos aspetos isto refletiu uma alteração fundamental nestas instituições, em particular dos grandes bancos de investimento e das empresas holding, que centraram as suas atividades crescentemente em atividades de risco que produziam chorudos lucros. Assumiram uma enorme exposição na aquisição e apoio a financiadores de alto risco e na criação, empacotamento, reempacotamento e venda de milhões de milhões de dólares de títulos hipotecários, nomeadamente produtos financeiros sintéticos. Tal como Ícaro, nunca temeram voar cada vez mais e mais perto do sol. (…)

Concluímos que uma combinação de excesso de contração de empréstimos, investimentos de risco, e falta de transparência colocou o sistema financeiro na rota da crise: Claramente, esta vulnerabilidade estava relacionada com as falhas de gestão corporativa e de regulação, mas é suficientemente significativa por si só para merecer a nossa atenção. (…)

Concluímos que o governo estava mal preparado para enfrentar a crise, e a sua resposta inconsistente acresceu à incerteza e ao pânico nos mercados financeiros: (…)

Concluímos que havia um colapso sistémico na prestação de contas e na ética: (…)

(…)

(ver aqui relatório final e conclusões da National Commission on the Causes of the Financial and Economic Crisis in the United States)

(continua)

Nota

[5] Blankfein responde, “we are a principal”. Aqui traduzimos principal por grande investidor, mesmo que só visto pelas posições tomadas no mercado por conta própria.

(*) Texto que na Introdução está referenciado com o título de O capitalismo financeirizado: da antiguidade grega à modernidade da City e de Wall Street.

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