A GALIZA COMO TAREFA – caça – Ernesto V. Souza

Para o Paulo Rico, que compartilha fantasias e realidades.

 

No Limiar à edição da miscelánea “O Libro da Caza : recollido do pobo“, Xosé Maria Álvarez Blazquez citava, para destacar a outrora fartura de caça na Galiza a d. Froylán de Troche y Zúñiga, autor do raro livro: “El cazador gallego con escopeta y perro” (1837):

quien  nos informa que unha certa mañán levantou perto dun regueiro nas faldras do Courel, dous corzos, unha lebre, un porco bravo, un lobo, catro ou cinco becadas, un raposo e un “nublado” de mais de sasenta perdices, engadindo o feliz cazador que “non nos sairon coellos porque naquel país non os hai”. (O Libro da Caza : recollido do pobo, Vigo, Castrelos, 1969. O Moucho 14.- p.7)

A caça, antano ofício e necessidade, depois entretenimento e marca de grupo tem uma longa tradição e ocupa uma parte importante na história cultural da humanidade. Lendas, tradições, metáforas, cantigas, ditos, contos, festividades do calendário, ferramentas e até costumes vêm marcadas pela caça.

Hoje em dia apenas hobby de uma parte da população que em épocas e espaços definidos e acoutados sai ao campo e às nossas florestas a encher os dias de feriado de agitação, gritos ancestrais e assustadoras detonações.

O adianto das armas e a míngua da alimária, define com a exibição de roupas e a camaradagem basicamente masculina, um entretenimento que consiste em madrugadas, viagens, planificação, caminhadas, espreitas, agitações, momentos adrenalínicos, alguns disparos, não raros sustos, poucas peças, e posteriores celebrações com culinária, contos e exagero.

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Mas não se apurem os leitores, que não vou falar na caça com espingarda e cão. Apenas da caça do livro.

O autor, há muitos anos que caça livros. Raramente se dedica à grande caça, que exige equipamentos, recursos e dinheiros importantes. Limita-se a apagar a sua paixão enferminha de bibliófilo com a caça menor.

A caminhada, a espreita, a trilha nas áreas de proximidade ou o percorrer a bom passo, estando atento, notáveis distâncias compensam a satisfação de encontrar as presas procuradas ou as que saem ao caminho.

Cedo na manhã, ou à tarde. Nos dias de feriado ou nos momentos de vagar e fazer tempo, o autor percorre algum dos sebos e postos de rua arredor. Espreita com vagar de anos e fiado na memória e a intuição, algumas peças que topa, outras que procura, ou achou noutros livros referenciados. Sopesa e deixa passar com tristura algum volume que pelo seu custe ultrapassa o bolso e as capacidades. Ou deixa estar outros que não são do seu interesse ou que não têm, por deterioro, falta ou conservação mais valor que o da cópia de leitura.

Os livros pelos que mais devece, são aqueles dos que mais sabe e que menos se pode permitir, pela sua escassez no mercado quanto pelos absurdos prezos de venda. Portanto conforma-se com acasos mais possíveis.

Livros a peso, nas caixas esquecidas, livros abandonados nas prateleiras das livrarias locais, livros que livreiros com alma de bibliófilo antiquário, porém desconsideram pela sua temática ou origem, livros comprados longe dos centros e epicentros originários em função das leis básicas da oferta e a demanda. Livros galegos publicados no exílio e livros em castelhano da Galiza. O autor desfruta dos pequenos aconchegos desordenados, ou percorre outras vezes os vastos territórios da internet, que ampliam a caça às livrarias do mundo inteiro. Mas algum sempre merece a pena.

As preferências do caçador são limitadas. Livros galegos, livros espanhóis dos anos 20-30, livros portugueses contemporâneos, clássicos em português, castelhano, catalão, francês, inglês, prosa, verso, ensaio… cada vez mais vai abandonando a modernidade desses livros que nem suportam agua nem o tempo e procura livros bem impressos por meios mecánicos em limpas tipografias, ligeiros, agradáveis ao olho e às mãos, em papel de certa qualidade, bem cosidos e com belas capas ou ajeitadas encadernações.

Mas o leitor predomina sobre o colecionista, e afinal, o caçador pensa com estas fantasias que o evadem de uma realidade mais e mais sombria, que um dia se aposentará e dedicará os seus últimos anos à encadernação manual da sua biblioteca.

 

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