A ITÁLIA NA ENCRUZILHADA – POR ANNA ROSA SCRITTORI – tradução de MANUEL SIMÕES

 

A situação

A campanha eleitoral com vista às eleições políticas de 4 de Março está a decorrer num clima de grave incerteza e de violentos confrontos entre as forças em campo. Em vez de se concentrar nos desafios que o futuro  nos reserva – trabalho e inovação tecnológica, nova pobreza, educação e desemprego, saúde e ambiente -, a discussão entre os vários partidos inquinou-se recentemente com os gravíssimos episódios de intolerância racial por parte de grupos neofascistas como Casa Pound, Forza Nuova, etc., que se apresentam às eleições com listas próprias. Como é conhecido, em 3 de Fevereiro, em Macerata, tranquila cidade universitária das Marche, um neonazista inscrito na “Lega” de Salvini, com a intenção de vingar a morte de uma jovem por parte de alguns traficantes nigerianos (entretanto presos), veio para a rua e começou a disparar à doida contra os negros que encontrava, ferindo gravemente seis.

Enquanto a esquerda, habitualmente dividida, escolheu evitar confrontos de rua em Macerata e reunir-se numa grande manifestação antifascista em Roma, no dia 24 de Fevereiro, a “Lega” e os partidos de direita procuraram tirar vantagem eleitoral do que aconteceu em Macerata, definindo o episódio como “simples” gesto de um louco, causado não tanto por um perigoso comportamento xenófobo e racista que põe em perigo a própria democracia, mas por uma “criminalidade difundida” dos imigrantes irregulares que vivem nas nossas cidades. É verdade que a imigração, fenómeno novo em Itália, criou um certo desconforto social sobretudo na periferia de muitas cidades italianas onde inicialmente os imigrantes foram amontoados em grandes edifícios, mas a solução de tal problema, epocal, não reside no fomento do ódio e do medo do “outro” mas numa gestão política dos fluxos migratórios: recentemente, de facto, conseguiram-se bons resultados de integração colocando pequenos grupos de imigrantes nos vários concelhos que, por sua vez, os empregam em pequenos trabalhos de recuperação urbana e, sobretudo, financiando a cooperação internacional para favorecer o desenvolvimento sócio-económico de vários Estados africanos, impedindo assim o êxodo dos jovens para os litorais da Europa.

As forças em campo

O defeito principal da nova lei eleitoral, dita “Rosatellum” (do nome do redactor, Ettore Rosato), reside no facto de as suas normas concederem pouco espaço à escolha dos eleitores e, sobretudo, não garantirem uma condição estável de governabilidade em Itália. Prevê, de facto, a “Rosatellum”, um sistema fundamentalmente proporcional com uma margem mínima para o maioritário; por exemplo, os deputados serão eleitos por 36% em colégios uninominais com sistema maioritário, enquanto os restantes 64% serão eleitos em colégios plurinominais com sistema proporcional em listas bloqueadas; para o Senado o sistema é idêntico; o eleitor, com um simples voto, escolherá quer a parte maioritária quer a proporcional em listas bloquedas pelas secretarias dos partidos, sem possibilidade de voto diferenciado. Além disso, o limiar de ingresso para as listas singulares é de 3% enquanto que, para as coligações, é de 10%, o que significa que se um partido aferente a uma coligação não alcançar 3% dos votos, estes passarão para o partido maior.

As formações políticas que disputam o consenso dos eleitores são essencialmente três. O PD de Renzi, aliado a “Più Europa” (Mais Europa) de Emma Bonino, ex-socialistas e centristas, deverá competir com “Liberi e Uguali” (LEU), formação de centro-esquerda nascida da cisão do PD, depois que Giuliano Pisapia se recusou federar a esquerda numa aceitável coligação de governo. Com hábil manobra política, pelo contrário, Silvio Berlusconi, considerado o “pai da pátria” até pelas chancelarias europeias, conseguiu reunir em torno de “Forza Italia” os partidos de extrema-direita (soberanistas e liguistas) e algumas formações centristas. Apesar de alguns problemas internos, o “Movimento 5 Estrelas” (M5S), guiado agora por Luigi di Maio – Grillo pôs-se temporariamente de parte – está a rever o próprio e intransigente isolamento populista, procurando uma legitimação na Europa e entre os outros grupos políticos.

Não obstante as mirabolantes promessas feitas por cada um dos contendentes no sentido de obter o consenso dos cidadãos, até agora nenhuma das três principais forças políticas parece capaz de assegurar um governo estável em Itália. Segundo as últimas sondagens, o PD obteria 22-24% dos consensos, enquanto o “Movimento 5 Estrelas” é o primeiro partido com 27-28%. A coligação de centro-direita, com 35-37% dos votos, poderia obter um número de deputados próximo dos 316 necessários para conseguir a maioria no parlamento. Todavia, visto que Berlusconi não é elegível pelos conhecidos problemas com a Justiça, no interior do centro-direita existe uma fortíssima competição entre os vários membros da coligação para conseguir a supremacia e propor o programa de governo.

Parece, pois, inevitável que, no dia seguinte às eleições, se produzam novas e inéditas alianças para governar a Itália: entre Renzi e Berlusconi (liberto da sombra de Salvini), como desejam as chancelarias europeias? Entre “Movimento 5 Estrelas” e “Liga”? Entre “M5S” e “LEU”? Provavelmente formar-se-á o chamado governo de largas alianças, construído com as forças políticas dispostas a participar num executivo de “saúde pública” guiado pelo actual primeiro-ministro, Paolo Gentiloni. Se a situação não mudar nestes próximos dias, a alternativa seria um novo recurso às urnas.

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