Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 15. Um touro dentro de um bazar chinês – PARTE II

A alavancagem é uma coisa curiosa.  Ela permite que se façam  coisas que de outra forma não se  conseguiria fazer. A desalavancagem é o oposto de diversão porque neste  caso deve-se  fazer coisas que se  prefere evitar.

Um touro dentro de um bazar chinês – PARTE II

(John Mauldin, 27 de Janeiro de 2019)

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As perturbações no Emprego

A alavancagem é uma coisa curiosa.  Ela permite que se façam  coisas que de outra forma não se  conseguiria fazer. A desalavancagem é o oposto de diversão porque neste  caso deve-se  fazer coisas que se  prefere evitar. Este é um problema particular para o governo chinês, que deve manter uma grande população alimentada, alojada e satisfeita. Assim, se entende o impulso para melhorar as condições ou para mover 150 milhões de pessoas da pobreza da China rural para as cidades.

Pequim tem muitos truques na manga, mas o mercado de trabalho da China tem a sua própria dinâmica.

Dos meus amigos da Gavekal Dragonomics, vejamos o que escreveu  Ernan Cui:

O mercado de trabalho da China está a provar   ser uma das primeiras vítimas do conflito comercial entre EUA e China. Os despedimentos na indústria transformadora aceleraram-se durante o segundo semestre de 2018 à medida que os direitos aduaneiros dos EUA entraram em funcionamento e as perdas de postos de trabalho igualaram agora o ritmo observado durante a desaceleração económica de 2015-6.

Mas a situação é indiscutivelmente pior desta vez, já que os empregadores do setor de serviços que anteriormente absorviam muitos trabalhadores despedidos  estão agora a ser pressionados  por regulamentações  mais rigorosas. As autoridades governamentais estão a tentar  ajustar e suavizar as políticas para ajudar no emprego, mas as perspetivas quanto ao  rendimento das famílias  e aos gastos do consumidor na China em 2019 estão claramente a degradar-se.

A despesa dos  consumidores já tinha diminuído em 2018, mas a maior parte da deterioração veio de um declínio nas vendas de automóveis. Isso foi em grande parte o resultado do fim de vários anos de políticas favoráveis que tinham dinamizado  a   compra  de veículos; os gastos com serviços e outros bens de consumo têm-se realmente mantido com um bom comportamento. Mas a China parece estar a caminhar  para uma desaceleração mais ampla na despesa dos   consumidores,  pelo menos no primeiro semestre de 2019. Os componentes de emprego dos inquéritos  PMI, tanto para os setores industrial e não manufatureiro, começaram a deteriorar-se acentuadamente em setembro. Estes são os principais indicadores decentes do crescimento do rendimento das famílias  (ver gráfico), portanto, está quase garantida uma desaceleração adicional no rendimento e no consumo nos próximos dois trimestres.

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Agora, devemos notar que os dados económicos chineses, mesmo  nas melhores das circunstâncias,  são questionáveis. A última coisa que Pequim quer é fornecer ao público dados rigorosos que provem quão desesperada é a sua procura de emprego, ou quão improvável é o crescimento do seu rendimento. Felizmente, temos fontes alternativas como a Gavekal, a China Beige Book e outras com presença no terreno e acesso a dados não governamentais.

A Gavekal na sua vasta  pesquisa também encontrou um ponto de dados incrível. O gráfico abaixo mostra um índice de pesquisas chinesas na internet para a palavra “despedimento”. Observe onde esta pesquisa  está agora comparada a 2008 e com outras desacelerações económicas recentes.

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Isto não significa que os empregadores chineses estejam a fazer despedimentos. Isso significa que as pessoas estão a procurar informações sobre o assunto, e eu acho que é justo chamar isso de um sinal de preocupação. O que é que está a provocar essa preocupação? Será que os trabalhadores chineses vêem algo que aos analistas ocidentais lhes está a escapar?

A intensidade de crédito

A fraqueza económica é relativa. Como qualquer outra coisa, descer de um nível ao qual se está já   habituado é difícil, mesmo se você passa a estar numa posição que mesmo assim não é tá má como isso, em termos absolutos.

Assumindo (por uma questão de discussão) que os números oficiais estão certos, o crescimento do PIB da China tem sido de cerca de 4%, na pior das hipóteses,  desde a década de 1980, e geralmente tem sido muito maior. Os EUA têm tido muita dificuldade em  alcançar qualquer coisa próxima disso. Portanto, um declínio do crescimento de 6,9% visto em 2017 para, digamos, 6%, é um grande problema para os chineses. E é isso que o governo aparentemente espera. A Reuters informou em 11 de janeiro que em março o governo anunciará uma meta de crescimento para 2019 na faixa de 6-6,5%… e a China sempre atinge a meta. Engraçado como isso funciona.

Aqui nos EUA celebraríamos se tivéssemos um crescimento de 4%. (Penso que até ao final de 2019 poderemos estar a desejar um crescimento de até 2%.) Na China, eles vão carregar no proverbial botão de pânico em qualquer coisa a sul do valor de  6%. Olhe, verá que o governo responda com ainda mais dívida e gastos em infraestrutura para tentar estimular a economia e manter o crescimento na faixa dos 6%.

O problema é que, tal como um remédio ao qual o corpo se adapta, a dívida não está já a ter o mesmo tipo de efeito. Um estudo do FMI no ano passado mediu a “intensidade do crédito” da China ao longo do tempo.

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Lamento que a foto seja complicada, mas também é assim no original. Aqui está como eles a explicam.

“No entanto, nos últimos cinco anos, o crédito nominal interno ao setor não financeiro mais do que dobrou, e a relação crédito do setor não financeiro interno  em relação ao PIB aumentou para cerca de 235% do PIB no final de 2016. Durante esse período, a eficiência da expansão do crédito tem se deteriorado cada vez mais, apontando para uma crescente má alocação de recursos. Em 2007-08, cerca de RMB 6½ milhões de milhões de novos créditos foram necessários para aumentar o PIB nominal em cerca de RMB 5 milhões de milhões ao  ano. Em 2015-16, foram necessários mais de 20 mil milhões de RMB em novos créditos para o mesmo crescimento do PIB nominal.”

Assim, em menos de uma década, o montante de dívida necessário para produzir um determinado impacto no PIB mais do que triplicou. Citei dados de Lacy Hunt em que se mostra  uma tendência semelhante nos EUA, mas aqui ainda se está longe de atingir esta dimensão.

Isso diz-nos algo importante: na próxima retração, desaceleração ou o que quer que lhe queiram  chamar, Pequim pode não ser capaz de contrair  empréstimos para sair do buraco. Ou se isso acontecer, as quantidades podem ser astronomicamente altas.

Mas na ausência de estímulo à dívida, que mais podem eles fazer? Como se observa, Xi Jinping tem muitas ferramentas. Algumas são mais agradáveis do que outras. Eu seriamente duvido que ele tenha alguma outra maneira de restaurar o crescimento para o que todos querem que não seja fazer ajustamentos   massivos (ou seja, mais dívida). E será doloroso não só para os chineses, mas também para os americanos.

A apressar o processo

Assim sendo, este não é o melhor momento para uma guerra comercial entre os EUA e a China. No entanto, encontramo-nos numa delas. Permitam-me que volte a fazer o aviso que se impõe, uma vez que recebo sempre cartas a dizer, essencialmente, “China, isso é  mau! É preciso fazer alguma coisa! “ Sim, a China não tem jogado de forma justa de várias maneiras. Eu entendo isso. Temos questões e problemas que precisam de  ser resolvidos. Os esforços anteriores não funcionaram. Eu também entendo isso. Temos preocupações de segurança nacional em relação à China, totalmente alheias aos nossos litígios comerciais. Concedido em todos os aspetos.

Por conseguinte, não se depreende daqui que a resposta correta seja a aplicação de direitos aduaneiros sobre as importações chinesas. Temos de resolver estas questões, mas sem dispararmos tiros sobre os nossos próprios pés. As empresas americanas e chinesas passaram as últimas duas décadas a integrar cadeias globais de abastecimento e a desenvolver mercados entre si. Cada um de nós beneficia dessa integração todos os dias.

Poderíamos nós inverter a integração e tornarmo-nos menos interdependentes? Sim, claro. Isso já está a acontecer, simplesmente devido à tecnologia que está a levar a que a produção fique mais próxima  dos consumidores. Esse é um processo natural que vai continuar. Apressar esse processo, embora provavelmente possível, teria um custo.

Na semana passada mencionei as empresas de microchips dos EUA que em alguns casos têm metade  das  suas vendas para a China. Algumas estão à distâncias da aplicação de uma tarifa para ficarem  estarem fora do negócio. Foi-se, kaputt.  Stock zero, todos os funcionários desempregados, todos os seus fornecedores de pequenas empresas, obrigacionistas e credores bancários partiram para lutar pelos restos no tribunal de falências.

Este é um dos meus maiores receios a curto prazo: que as táticas de linha dura da administração Trump empurrem a China para a recessão, que para eles é um crescimento inferior a 4%. O próprio presidente parece gostar da perspetiva. Ele falou orgulhosamente da forma como os mercados chineses caíram devido às suas políticas. Talvez ele ache que as ameaças farão Xi voltar atrás. Acho que não voltará. Estamos a seguir  uma política de alto risco que terá consequências negativas massivas se falhar.

Eu dei como título a este texto  “Bull in the China Shop” ( um touro num bazar chinês) porque é isso que precisamos de  evitar. Correr por aí a partir coisas  pode ser satisfatório no momento, mas a limpeza dos estragos não será, garantidamente, nada divertida


Artigo original aqui

 O décimo sexto e último texto desta série será publicado, amanhã, 16/02/2019, 22h)


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