Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos. Texto introdutório 4 – Exclusivo: A China voltou atrás em quase todos os aspetos do acordo comercial com os EUA. Por David Lawder, Jeff Mason, Michael Martina

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto introdutório 4. Exclusivo: A China voltou atrás em quase todos os aspetos do acordo comercial com os EUA

Por David Lawder, Jeff Mason, Michael Martina

Publicado por Reuters texto 14 parte II em 8 de maio de 2019 (texto original aqui)

 

WASHINGTON/PEQUIM (Reuters) – O telegrama diplomático de Pequim chegou a Washington no final da noite de sexta-feira, com modificações sistemáticas de um projeto de acordo comercial de quase 150 páginas que faria explodir em cacos meses de negociações entre as duas maiores economias do mundo, de acordo com três fontes do governo dos EUA e três fontes do setor privado bem informadas sobre as negociações.

O documento foi repleto de reviravoltas por parte da China que minavam as principais exigências dos EUA, disseram as fontes à Reuters.

Em cada um dos sete capítulos do projeto de acordo comercial, a China havia eliminado o seu empenho em mudar as leis para resolver as principais queixas que levaram os Estados Unidos a lançar uma guerra comercial: Roubo de propriedade intelectual e segredos comerciais dos EUA; transferências forçadas de tecnologia; política de concorrência; acesso a serviços financeiros; e manipulação de moeda.

O presidente dos EUA, Donald Trump, respondeu num tweet no domingo prometendo aumentar as tarifas sobre bens chineses de US$ 200 mil milhões com taxa de 10% a 25% na sexta-feira – programado para ser aplicado no meio de uma visita programada do vice-primeiro-ministro da China Liu He a Washington para continuar as negociações comerciais.

Os Estados Unidos disseram na quarta-feira que as tarifas mais elevadas entrariam em vigor na sexta-feira, de acordo com um aviso publicado no Federal Register.

Trump disse na quarta-feira que a China está enganada se espera negociar o comércio entre os dois países mais tarde, com uma administração presidencial democrata.

“A razão para o recuo da China e a tentativa de renegociação do Acordo Comercial é a sincera esperança que eles serão capazes de ‘negociar’ com Joe Biden ou um dos Democratas muito fracos”, tweeted Trump. Trump também disse que ficaria satisfeito em manter as tarifas sobre as importações chinesas em vigor.

A retirada da linguagem jurídica vinculante do anteprojeto golpeou diretamente a mais alta prioridade do representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer – que vê as mudanças nas leis chinesas como essenciais para verificar a conformidade após anos daquilo que as autoridades dos EUA apelidaram de promessas de reforma vazias.

Lighthizer tem pressionado duramente para que se crie um regime de aplicação mais parecido com o usado para sanções económicas punitivas – como as impostas à Coreia do Norte ou ao Irão – do que com um típico acordo comercial.

“Isso mina a arquitetura central do acordo”, disse uma fonte com sede em Washington com profundo conhecimento das negociações.

Processo de negociação

Os porta-vozes da Casa Branca, do Representante do Comércio dos EUA e do Departamento do Tesouro dos EUA não responderam imediatamente aos pedidos de comentários.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Geng Shuang, disse num encontro na quarta-feira que resolver desacordos sobre o comércio era um “processo de negociação” e que a China não estava a “evitar os problemas”.

Geng referiu questões específicas sobre as negociações comerciais ao Ministro do Comércio, que não respondeu imediatamente às perguntas enviadas por fax pela Reuters.

Lighthizer e o secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin, ficaram surpreendidos com a amplitude das alterações introduzidas no projeto. Os dois representantes da Administração americana declaram aos jornalistas na segunda-feira que o retrocesso chinês tinha provocado a ordem de aplicação de tarifas de Trump, mas não forneceu detalhes sobre a profundidade e amplitude das revisões.

Liu na semana passada disse a Lighthizer e Mnuchin que eles precisavam de confiar na China para cumprir as suas promessas através de mudanças administrativas e regulatórias, disseram estas duas fontes. Tanto Mnuchin como Lighthizer consideraram isso inaceitável, dado o historial da China no não cumprimento das promessas de reforma.

Uma fonte do setor privado informada sobre as conversações disse que a última ronda de negociações havia corrido muito mal porque “a China ficou gananciosa”.

“A China renegou uma dúzia de coisas, se não mais… As conversações foram tão más que a verdadeira surpresa é que isto tenha levado até domingo para que Trump explodisse”, disse a fonte.

“Depois de 20 anos de ter feito o seu caminho com os EUA, a China parece estar a fazer um cálculo errado com esta administração.”

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Foto: O vice-ministro chinês Liu He, à direita, olha para o Secretário do Tesouro dos EUA Steven Mnuchin, ao centro, a trocar de lugar com o seu alto representante do comércio Robert Lighthizer durante uma sessão fotográfica antes de irem para o seu encontro no Diaoyutai State Guesthouse em Pequim, quarta-feira, 1 de maio de 2019. Andy Wong/Pool via Reuters

Mais negociações esta semana

A rápida deterioração das negociações agitou esta semana os mercados acionistas, obrigacionistas e de matérias primas globais. Até domingo, os mercados tinham estabelecido preços na expectativa de que os altos funcionários dos dois países estivessem perto de chegar a um acordo.

Investidores e analistas questionaram se o tweet de Trump era uma manobra de negociação para forçar a China a fazer mais concessões. As fontes disseram à Reuters que a extensão dos retrocessos no texto revisto eram sérios e que a resposta de Trump não era meramente uma estratégia de negociação.

Na quarta-feira de manhã, os índices do mercado acionista dos E.U. estiveram na maioria mais fracos novamente, apontando para um terceiro dia consecutivo de perdas em Wall Street. O S&P 500 caiu mais de 2 por cento até agora esta semana. Os rendimentos dos títulos de referência do Tesouro dos Estados Unidos caíram para o nível mais baixo em mais de um mês.

Os negociadores chineses afirmaram que não poderiam tocar nas leis, disse uma das fontes governamentais, considerando as mudanças de “importantes”.

Mudar qualquer lei na China requer um conjunto único de processos que não podem ser percorridos rapidamente, disse um funcionário chinês familiarizado com as negociações. O alto-funcionário contestou a afirmação de que a China estava a retroceder nas suas promessas, acrescentando que as exigências dos EUA estavam a tornar-se mais “duras” e a caminhar para um acordo mais “apertado” à medida que as negociações se arrastam.

Liu deverá chegar a Washington na quinta-feira para dois dias de conversações que, apenas na semana passada, foram amplamente vistas como cruciais – uma possível última ronda antes de um acordo comercial histórico. Agora, as autoridades americanas têm pouca esperança de que Liu venha a apresentar qualquer oferta que possa recolocar as negociações no caminho certo, disseram duas das fontes.

Para evitar a escalada, dizem algumas das fontes, Liu teria de abandonar as alterações de texto propostas pela China e concordar em fazer novas leis. A China também teria que ir mais longe em relação à posição dos EUA noutros pontos problemáticos, como a exigência de restrições aos subsídios industriais chineses e um processo simplificado de aprovação de culturas geneticamente modificadas nos EUA.

O governo dos EUA disse que a última escalada tarifária entrará em vigor às 12:01 da manhã de sexta-feira (0401 GMT), com aumentos sobre os produtos chineses tais como modems e routeurs de internet, placas de circuito impressas, aspiradores de pó e móveis.

A reversão chinesa pode dar aos falcões da Administração Trump relativamente à China, incluindo Lighthizer, uma abertura para tomar uma posição ainda mais dura.

Mnuchin, que tem sido mais aberto a um acordo com a melhoria do acesso ao mercado e, por vezes, colidiu com Lighthizer, apareceu em sintonia com Lighthizer ao descrever as alterações aos repórteres na segunda-feira, enquanto ainda deixa em aberto a possibilidade de novas tarifas poderem ser evitadas com um acordo.

Os tweets de Trump não deixaram espaço para recuar e Lighthizer deixou claro que, apesar das contínuas conversas, “na sexta-feira, haverá tarifas em vigor”.

1 Comment

  1. Os ianques, muito próximos do seu estertor enquanto primeira potência mundial, deixaram de ter poder para exigir concessões aos chineses sobretudo quando é publico e evidente terem sofrido, há dias, uma derrota humilhante na Venezuela. Os tais tigres de papel que o Trump julga não existirem.CLV

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