A propósito de um quadro de Rembrandt sobre filosofia, política e beleza. Por Júlio Marques Mota

Quadro de Rembrandt 3 Varios Caminhos

JULIO_MOTA

 

 

 

Meus caros amigos e amigas

Quando um filósofo, Aristóteles, e um poeta, Homero, se encontram com um pintor, Rembrandt, quando este com eles fixa na tela o significado desse encontro e da relação entre eles, o mesmo é dizer, quando a filosofia e a poesia se entrecruzam com a pintura ao mais alto nível, daí só pode sair arte e da mais pura. Por outro lado quanto a esta última, quando esta é  vista e transmitida por alguém de grande cultura e rara sensibilidade, só pode sair um texto de magia. Este é, pois, um texto de magia intelectual e por isso o tomo como um texto de Natal e Ano Novo, que é um tempo de magias, de magias desejadas, de magias imaginadas .

Levei tempo a traduzi-lo, a revê-lo mas como não sou perito na língua de Shakespeare tive medo de como tradutor estar a ser um traidor quanto à beleza que deste texto emana e, por isso mesmo, pedi a alguém que me revisse a minha tradução. Eis, pois, o texto final que aqui vos deixo.

Estamos já em época de Natal, época de dedicatórias especiais e, neste caso, aproveito para considerar a publicação deste texto como uma espécie de presente de Natal e de expressão do desejo de um Ano Novo próspero. Faço pois votos de que este seja um Natal de concórdia à escala das nações e à escala mais pequena, a de todas as nossas casas , que seja um Natal e Ano Novo de menos precariedade e de melhores perspetivas de vida. A estes votos, e a escala individual, acrescento um outro, de acordo com o texto que aqui vos mando, e este é o desejo de que todos nós encontremos sempre e em todas as ocasiões difíceis, e não apenas raramente, o caminho para escapar ao dilema abaixo apresentado :

“Parece ser a tragédia da condição humana, que a busca da justiça e do poder destrua o prazer de se ser humano.

Eu mesmo raramente encontrei uma forma de escapar ao dilema, mas encontrei um caminho.

Um caminho que está escondido à vista de todos.”

E Bom Natal e Feliz Ano Novo

Coimbra, 18 de dezembro de 2019

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Um bom amigo meu respondeu-me assim ao ler o texto que vos deixo:

Meu Caro Júlio

Acabo de ler o belíssimo texto de Friedman que nos ofereceste. Só hoje tive vagar para o ler meditando, como merecia. Num ponto discordo do autor, no que toca à poesia, que supõe ser a anarquia e a sensualidade do espírito. Não há verdadeira filosofia sem a poesia. Aristóteles sabia-o. O que um filósofo melhor sabe é onde termina o saber…Aristóteles é o inventor do conceito disso, a contingência. Aí se situa a poesia…que abre caminho ao filósofo e ao cientista. Curiosamente, Friedman termina na poesia (talvez sem dar-se conta) na procura do caminho invisível. (Caim matou Abel, porque apenas se arrogou em governante, sem poesia nem filosofia…).

Um grande abraço. Obrigado. BOM NATAL e que o NOVO ANO decorra com boa filosofia e melhor poesia, para melhor governança.

JM

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A ver o quadro de Rembrandt “Aristóteles a contemplar o busto de Homero”.

george friedman gPF Por George Friedman

Editado porfriedman logo  em 21 de novembro de 2019

Republicado por Gonzallo Rafo (ver aqui), 21 de novembro de 2019

 

No fim-de-semana passado estive em Nova Iorque, com um raro momento de beleza e ternura.

Eu escolhi visitar uma velha paixão minha, uma ligação que me ensinou muito sobre a minha vida e sobre o que isso me custaria.

Essa velha paixão era uma pintura de Rembrandt, a peça central de uma exposição de mestres holandeses no Metropolitan Museum of Art.

Este quadro é chamado por vários nomes, mas para mim, o seu nome será sempre “Aristóteles a contemplar o busto de Homero”.

É uma pintura sobre filosofia, política e beleza, e sobre o desejo daquilo que ninguém nunca pode ter: todas as três coisas.

Rembrandt Aristóteles Homero

Aristóteles está no centro, dominando a pintura.

Veste-se sumptuosamente com roupas de um luxo extraordinário, com um chapéu ambíguo, pouco visível, no topo da cabeça.

Mas o verdadeiro centro da pintura é uma magnífica corrente de ouro que envolve o seu corpo.

É sensual na sua beleza, mas a beleza não pode esconder a sua força.

Aquilo que o rodeia ele controla, e isso rodeia Aristóteles.

A razão pela qual ele está a usar a corrente é, à primeira vista, um mistério; ele é, afinal, um filósofo, um erudito que estudou sob a orientação de Platão.

Tais homens não têm os meios nem o desejo de tais ornamentos.

Então, se o leitor olhar cuidadosamente para a pintura, verá então um pequeno medalhão preso à corrente, e no medalhão está uma imagem de Alexandre o Grande, o homem que conquistou o mundo conhecido até aos pés dos Himalaias e que se colocou ele próprio na eternidade, com cidades com o seu nome espalhadas pelos seus impérios.

Ele usou essas cidades como a base para a fundação do seu império, ligando-as em comércio e em armas.

E no seu curto período de vida, o grego dos contrafortes dos Balcãs redesenhou o mundo.

O mistério começa a resolver-se com esse medalhão, pois Aristóteles era o professor de Alexandre e os professores carregam pelo menos com uma parte ou, às vezes, com tudo aquilo em que os seus alunos se tornam.

Aristóteles estava claramente orgulhoso do seu aluno; caso contrário, porque é que estaria ele vestido de seda e ouro e levaria a imagem do seu aluno tão perto do seu coração?

A sua atitude é de orgulho no quadro de Rembrandt; um homem que ensinou Alexandre como ser grande deve ser grande também.

O ensino de Aristóteles não era da arte da guerra, mas sim da filosofia.

A filosofia ensina sobre as obrigações morais que os homens têm.

Ensina-lhes sobre a justiça, e ensina-lhes quando a justiça requer bondade e quando requer crueldade.

A filosofia ensina sobre a cidade, a polis – ou as nossas nações modernas – e ensina como elas são construídas, como devem ser governadas e como devem evitar a derrota e a escravidão.

Por fim, a filosofia ensina sobre um lugar, sobre a justiça e a injustiça, e ensina ao guerreiro que deve escolher o lugar, e escolher o que é justo.

Para mim, Aristóteles assume-se como um soldado bem condecorado.

A sua mão sobre a anca, a sua postura direita, ele aparece para nós como Alexandre poderia aparecer, como um guerreiro que arriscou muito, desde a sua vida à sua alma, e que emerge com ambas intactas.

Quando Napoleão visitou o grande escritor alemão Goethe, diz-se que Bonaparte exclamou: “O senhor é um homem”.

Napoleão esperava encontrar mais um fraco erudito, um que suponho terá infestado a corte dos Bourbon, proferindo banalidades.

Que um grande escritor, e também um verdadeiro filósofo, mostrasse ser tanto um pensador como um homem de pleno direito tenha deixado  completamente espantado Napoleão, talvez o maior guerreiro desde Alexandre, é situação que não me surpreende.

Há uma relação na minha cabeça entre o erudito e a fraqueza, uma vontade de imaginar a justiça, mas não de lutar e de morrer por ela.

Mas Rembrandt entendeu Aristóteles, o filósofo.

A corrente é a corrente da profissão.

É a corrente que um conselheiro importante para um governante pode carregar.

E no final, a filosofia torna-se um conselheiro para o governante.

Um homem que se dedica a questões da justiça e da guerra e a compreender verdadeiramente a sua necessidade e o paradoxo que existe nelas, está inevitavelmente a aconselhar o governante, quer o governante o entenda ou não.

Ele molda o tempo em que vive, travando uma guerra contra o superficial e o egoísmo, e é geralmente perdedor.

Aristóteles foi ganhador.

Ele tinha aperfeiçoado um instrumento de justiça e de guerra, ao contrário de muitos outros filósofos que o mundo já viu, e Alexandre compreendeu-o – segundo Rembrandt, pelo menos – que tinha sido por ele aperfeiçoado.

O leitor pode ver o orgulho com que ele usa a cadeia de ouro. Mas o leitor também pode ver a tristeza.

À direita de Aristóteles, envolto na obscuridade, técnica que Rembrandt dominava, está o busto de Homero, o poeta cego da era heróica da Grécia, sem malícia por parte de ninguém, desviado para a escuridão.

A mão de Aristóteles repousa sobre a cabeça de Homero, suave e quase ternamente. Os seus olhos não estão virados para a frente, como os de um soldado, nem de modo suspeito a olhar em todas as direções, como o faria um político.

A mão de Aristóteles repousa no busto como a de um amante, mas os olhos não estão concentrados. Eles veem Homero, mas veem algo mais, algo que não está lá, mas que desperta a atenção de Aristóteles.

Ele tem uma mão na corrente, outra em Homero, e os seus olhos contêm uma profunda tristeza.

Esqueça que a corrente é de ouro, esqueça que é uma recompensa pela sua grandeza.

É ainda uma corrente que o liga a Alexandre, um laço forjado porque era um filósofo que ensinou um conquistador a conquistar.

Isso é um triunfo – o mais alto triunfo que a filosofia pode alcançar – mas será suficiente para satisfazer a alma da filosofia?

Homero era poeta, e os poetas ouvem e cantam canções.

Ele sabia que a ouvir as músicas das sirenes valia a pena morrer por elas.

Ele escreveu sobre a batalha por Troia como se morrer fosse um pequeno preço a pagar por ter estado lá.

A canção do poeta é a canção de beleza e do desespero e o poeta não faz nenhuma tentativa para justificar qualquer uma das coisas.

Isso faz da poesia o inimigo da filosofia.

A filosofia deve explicar tudo.

A sua necessidade, a sua compulsão, é não deixar nada como o filósofo a encontrou, mas examiná-la, espremendo-a o mais possível  e analisando-a por todos os ângulos até que possua a sua alma.

A poesia celebra a simples realidade de ser.

Não pesa o bem e o mal, mas dá graças aos deuses por ambos existirem.

O filósofo orgulha-se do que sabe e orgulha-se da marca que deixou na história.

O poeta é um sensualista.

Ele quer ensinar o sentimento revelando-o em linguagem voltada para a música.

Com isso, o poeta ensina o que é a verdadeira alegria e o que é a verdadeira tristeza.

O filósofo vive pelo rigor, suprimindo sentimentos em nome da verdade e da necessidade.

O poeta vive sensualmente, na mente, na alma e no corpo, e contenta-se em celebrar o que existe, seja vitória ou derrota.

De certa forma, o poeta é um anarquista, sujeito às suas tropas apenas quando escolhe, apaixonado pelo que vê e de quem o escuta.

O amante pode ser torcido e depravado, mas isso simplesmente torna o seu amante mais importante na canção.

Aristóteles fica preso entre o poder do Estado, o rigor da filosofia e a volúpia do poeta.

Aristóteles escolheu ser o adversário do poeta, e alcançou tudo o que qualquer homem razoável poderia sonhar.

Mas o preço que ele pagou por ambos foi a gestão rigorosa de todos os seus sentimentos, uma análise constante de porque é que o mundo é como é e porque é que os governantes governam como governam.

Homero nunca se importou com qualquer uma destas duas coisas.

Ele aceitou o mundo como ele era, e queria captar a traição, a bravura, a banalidade e o encantamento.

Ele nunca explicou porque é que a música das sereias era tão sedutora.

Ele simplesmente contentou-se em falar de mulheres que geram impulsos que levariam os homens a caminhar conscientemente para a sua própria morte.

Aristóteles teria dissecado tudo isso.

Homero poderia muito bem ter morrido simplesmente morrendo a ouvir essa canção.

A tensão está entre sentir a vida, compreender a vida e dominar a vida.

Aristóteles finalmente escolheu as duas últimas.

Homero escolheu a primeira.

Rembrandt retrata Aristóteles, talvez no momento em que ele percebeu o que ganhou e o que perdeu, ansiando pela vida do poeta.

Há um sentimento em todos nós que somos humanos, quando a tensão entre estar em algum lugar e apreciá-lo pelo que ele é, compete com a mente vagando para outras coisas.

Homero era a sereia, pedindo-nos que parássemos de pensar e nos entregássemos ao seu canto.

E Aristóteles era o filósofo e conselheiro do grande que percebeu que nunca o tinha feito e que agora era tarde demais para fazer mais do que imaginar essa pureza.

Rembrandt deve ter entendido essa agonia, ou ele não poderia ter pintado o quadro.

A filosofia, a arte política e a poesia estão longe de ser os únicos momentos, mas são momentos extremos

O quadro é um monumento às nossas vidas, ao preço que pagamos pelo Éden, onde aprendemos o bem e o mal, e com o qual Caim poderia aprender a matar Abel.

Parece ser a tragédia da condição humana, que a busca da justiça e do poder destrua  o prazer de  se ser humano

Eu mesmo raramente encontrei uma forma de escapar ao dilema, mas encontrei um caminho.

Um caminho que está escondido à vista de todos.

 

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