FRATERNIZAR – De 2019 para 2020 – E QUANDO MUDAMOS DE SER E DE DEUS? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

 

 

Mudar de ano é inevitável. Mudar de Ser e de Deus é opcional. E é por demais evidente que apenas mudamos de ano, não mudamos de Ser nem de Deus. Mudar de ano é coisa de Calendário, criação dos institucionais do Poder, hoje o Grande Mercado global. Os próprios votos de ‘Bom Ano’ que ele nos estimula a desejar uns aos outros não garantem coisa nenhuma. O único que sai sempre a ganhar é o Grande Mercado global, materializado em múltiplos mercados espalhados como cogumelos pelas grandes e pequenas cidades dos Estados do mundo. E quem sai sempre a perder são os seres humanos e os povos. Basta ver que, ano após ano, continuamos cada vez mais escravos por conta de outrem, com horas de entrada e de saída nas empresas-prisão. Em troca de um magro salário que, nestas festas de Calendário, compulsivamente corremos a gastar nos mercados do Grande Mercado. Até que a Morte, nossa irmã gémea, nos resgate deste viver alienado e sem sentido. Mais Coisas-que-perecem, do que Pessoas-que-vivem-e-fazem-outros-viver com qualidade e em abundância.

Mudar de Ser e de Deus é opcional e tem o que se lhe diga. Nascemos de mulher, mas somos logo apanhados pelo Poder que tem nos chamados Livros Sagrados e respectivo deus o seu fundamento ideológico e até teológico. Ora, todo o Poder é macho. É o princípio masculino em acção na História. Mata, rouba, destrói, sempre que o seu domínio absoluto estiver em perigo. Não quer saber dos seres humanos e dos povos. Muito menos da Natureza, nossa casa comum. Move-o um sopro de morte e de destruição. O mesmo sopro que atravessa todos os livros sagrados e seus agentes de turno. E todas as inúmeras obras de arte que ele promove e patrocina. Deslumbram-nos, mas não passam de holofotes que nos encandeiam e cegam. Acabamos a idolatrá-las, em detrimento do bem dos seres humanos e dos povos. Gastamos rios de dinheiro para as conservar e promover mais e mais, enquanto deixamos os seres humanos e os povos morrer à fome, à sede, na pior das solidões e no pior dos abandonos.

Mudar de Ser e de Deus é ousar manter-nos, do nascer ao morrer, filhas, filhos de mulher. Sermos fiéis ao Princípio feminino, o único que conjuga e pratica os verbos Cuidar, Amar, Partilhar. E se apresenta animado de um Sopro outro que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai. Mas que vem, como fonte, de dentro para fora de nós. Nada sabe de Poder, nem de matar, roubar, destruir. Sabe apenas de religar fragilidades, de cuidar, de promover a vida. Vida de qualidade e em abundância, num excesso semelhante ao que acontece com a fecundação de um novo ser humano, no útero de uma mulher. São milhões e milhões de espermatozóides e apenas um fecunda o óvulo da mulher que quer ser mãe. Porque o excesso é uma das características do Princípio feminino, o da Vida.

É a mera hipótese Deus que os nossos ancestrais formularam, quando, no início, se viram fragilizados e ‘perdidos’ num universo que lhes aparecia como estranho e povoado de deuses e de demónios, por isso, gerador de Medo, que está na origem do Princípio masculino, o do Poder. E na origem dos Livros sagrados. Percebemos hoje que tudo isso é errado. Mas foi sobre esse erro que se ergueram as chamadas grandes civilizações que não passam, afinal, de grandes construções edificadas sobre a areia. E a prova é que vivemos cercados de água e de fogo, de guerras e de doenças por todos os lados. Sem mais meios para remendar tantos e tão enormes buracos. Tudo está a ir ao fundo.

Ou mudamos de Ser e de Deus, ou perecemos. Só que para essa mudança acontecer, temos de renunciar à hipótese Deus e aos Livros sagrados que ela gerou. E corrermos depois a religar-nos uns aos outros e à Natureza. Para Cuidarmos de nós, uns dos outros e dela. Sempre em sintonia com o Sopro outro, exclusivo do Princípio feminino.

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NOTA

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