2009-2019, Uma Década Infernal – 9. A Morte da Boa Internet Foi um Trabalho Interno. Por Jason Linkins

Imagem da serie The decade From Hell

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

9. A Morte da Boa Internet Foi um Trabalho Interno

Jason Linkins Por Jason Linkins

Publicado por The New Republic em 31 de dezembro de 2019 (ver aqui)

 

Bem-vindos à Década Infernal, o nosso olhar sobre um período arbitrário de 10 anos que começou com uma grande efusão de esperança e terminou numa cavalgada para o  desespero.

9 A Morte da Boa Internet Foi um Trabalho Interno 1

 

Uma década de potencial desperdiçado pode ser colocada aos pés daqueles em quem se confiava para criar um mundo online democrático.

Lembro-me do momento exato em que a Internet se me tornou bastante desagradável. Era 1 de julho de 2013: o dia em que o Google Reader foi abatido pelos seus mestres empresariais. A morte de um Reader RSS [1] pode não parecer a maior tragédia que se abateu sobre a internet na última década – não foi – mas teve um impacto profundo na minha vida profissional e, portanto, intelectual.

O leitor, que entrou online no Outono de 2005, era uma pequena maravilha – uma pequena ideia que fez uma enorme diferença. Era um leitor de fontes personalizado de notícias e blogs de toda a web, tão específico ou amplo quanto se desejasse; ligado ao poderoso motor de busca do Google, também permitia aos utilizadores reunir instantaneamente as últimas informações sobre qualquer tópico debaixo do sol. Ou seja, o Reader enquadrou-me a internet e tornou-a legível. O Reader manteve-me mergulhado em novas perspetivas, o que me ajudou a obter uma melhor relação sinal/ruído do faroeste do material online e, como jornalista, melhorou a minha capacidade de conectar fios do discurso público. Não é uma coincidência que os meus anos de Reader tenham sido aqueles em que eu comecei realmente a florescer no meu trabalho.

Aqui está a melhor parte: O Reader não me pediu nada em troca. Sim, foi criado por um gigante da tecnologia que mais tarde desprezaria o seu slogan “Don’t be evil”, mas era utilitário e produtivo em vez de extrativo; não custava nada aos utilizadores, nem literal nem figurativamente. E foi provavelmente por isso que o Reader não sobreviveu – um destino partilhado com muitos dos sites cujos feeds RSS ele compilou.

Tem sido uma descida rápida desde então. As coisas que construímos estão em declínio, e os empregos que criámos estão a ser perdidos. A Boa Internet desapareceu.

Subordinámos o nosso pensamento crítico à caça de tendências e à alimentação de conteúdos que são verdadeiros fogos de artifício.

Dois anos após a morte do Reader, The Dissolve, um adorável blog de crítica cinematográfica movido por paixão e devoção, fechou. Um ano depois disso, Gawker, um sólido edifício da era dourada da internet, apagou-se, esmagado por um bilionário furioso. A ideia revolucionária que deu origem a esse blog, e a inúmeros outros, já não era operável. No lugar do blogue veio uma série de insaciáveis plataformas de media sociais, cada uma das quais parecia sugar energia, não gerá-la. Nichos caíram no meio da Regra dos Algoritmos. Subordinámos o nosso pensamento crítico à caça de tendências e à alimentação de conteúdos que são verdadeiros fogos de artifício.

A Boa Internet acreditava na promessa da comunidade – que se o leitor pudesse construir uma, tudo era possível. O leitor não precisava de guardiões, e podia enfrentar os poderosos sem medo. Mas como Nick Denton observou no último post de Gawker, “os leitores não têm o poder… Quando se tenta fazer um negócio a partir dessa liberdade, o sistema irá lutar contra si . Como a nossa experiência demonstrou, essa liberdade era ilusória. O sistema ainda está lá. Ele recuou, mas a estrutura de poder permanece.”

Isso é, de facto, parte da história. Mas é também a história de como aqueles de nós que ajudaram a moldar a Boa Internet desempenharam um papel igualmente forte para a deitarem abaixo .

Numa entrevista com Chris Hayes, em maio de 2018, Tim Wu, professor da Faculdade de Direito da Columbia, especialista em tecnologia que cunhou a ideia da “neutralidade da rede”, resumiu as boas ideias da Internet que estavam a florescer no início da década. Como Wu observou, havia três princípios que impulsionaram a revolução da web: a ideia de que “fronteiras e leis deixariam de ser importantes ” nos espaços on-line, a revolucionária “possibilidade de um tipo diferente de intimidade com outras pessoas” e a noção de que o que foi forjado pelo esforço “seria uma verdadeira democracia” com “ninguém no comando” – uma “governança auto-organizadora que cuidaria de tudo”.

Aqueles que estão na vanguarda do futuro da blogosfera estão totalmente empenhados com estas “ideias belas e brilhantes”, como Wu lhes chamou, e preparam-se para construir o trabalho de que tanto gostamos e para tal nos conectar a uma ampla rede de pessoas que pensam como nós. Havia um enxame de leitores lá fora que pareciam ansiosos para fazerem parte de um sistema de comunicação e de serem informados de uma nova maneira, e nós estávamos determinados a dominar a forma de como falar com eles – tal como falar de Internet. Passei de blogar no meu próprio site para me juntar a uma equipe no posto avançado de Gothamist, em Washington, D.C. De lá, fiz uma visita à Wonkette – um dos blogs políticos mais conhecidos da América – e mais tarde ajudei a criar o escritório do Huffington Post em D.C.

Para mim e para os meus colegas, este foi um período selvagem de experimentação, trazendo todos os dias a oportunidade de descobrir alguma nova forma de proporcionar lucro e prazer. Aprendemos a importância de forjar confiança, e construímos essa confiança proporcionando ao nosso público não só o nosso próprio trabalho criativo, mas também ligações com o trabalho dos outros. Era importante que qualquer pessoa que chegasse ao nosso canto da internet acelerasse o seu caminho para algo igualmente interessante. Dessa forma, até mesmo a discordância pode ser um ato de generosidade.

Aqueles que eventualmente se tornaram os nossos mestres notaram o que estávamos a fazer e entraram nas nossas vidas com os pés de mansinho.

Aqueles que eventualmente se tornaram os nossos mestres notaram o que estávamos a fazer e entraram nas nossas vidas com os pés de mansinho. Quando eles começaram a baralhar os atalhos e a utilizar truques algorítmicos, não os tratámos com dureza. A otimização dos motores de busca transformou os nossos títulos, as nossas competências, em coisas que pareciam ter sido traduzidas apressadamente para inglês a partir de alguma língua morta, mas nós alinhámos com isso – foi um grande truque que tornou tudo mais fácil. (Não é de admirar que, algum tempo depois, o próximo mandato do Algoritmo de Deus tenha transformado as nossas notícias  em promessas de “falta de curiosidade”). Quando as redes sociais surgiram, dando-nos uma “nova página de rosto” para a internet, pensamos: “Porque não?” Estes grandes operadores de motores de busca e plataformas de partilha só queriam facilitar as nossas vidas, afinal de contas.

Existe agora uma plataforma massiva e intrusiva, possuidora de um poder extrativo tão imenso e de um monopólio da informação tão impune que se pode legitimamente dizer que tem um efeito de distorção na nossa democracia. De todos os acordos feitos pelos criadores de conteúdo que moldaram a sua experiência na Internet na última década, o que foi feito com o Facebook é o mais Faustiano. Como acontece em muitos arranjos, a indústria de conteúdos alinhou com o Facebook na promessa de uma vida mais simplificada – o trabalho chato e complicado de compreensão e os rendimentos seriam entregues aos nossos melhores. A transferência dessas tarefas teve um efeito deletério: confundimos o dever essencial de alcançar os leitores e de garantir o nosso futuro como sendo simples tarefas que qualquer um poderia realizar, quando, na realidade, eram tarefas essenciais para o nosso trabalho. Esses eram os processos pelos quais coletávamos informações vitais sobre os nossos próprios negócios, o material de origem necessário para fazer julgamentos editoriais críticos e escolhas criativas.

O Facebook desfez todo o trabalho que tínhamos passado anos a aperfeiçoar e a confiança que tínhamos conquistado.

O que conseguimos na troca foi uma plataforma poderosa, mas aquela plataforma desfez todo o trabalho que tínhamos passado anos a aperfeiçoar e a confiança que tínhamos conquistado. O Facebook não se importa com as nossas inovações na gestão de conteúdos ou com as nossas decisões estéticas. O Facebook não se importa com o espírito animador que guiou a indústria dos media durante os seus anos de formação – que procura construir uma nova e democrática língua franca com um público sedento por novas ideias, ou simplesmente para se sentir mais à vontade no mundo. O Facebook simplesmente impõe, esmagando todas as distinções e diferenças que foram sendo aperfeiçoadas ao longo de anos de experimentação.

Com o tempo, o Facebook descobriu a maneira barata e suja de chegar ao mundo: afinar as amígdalas dos seus utilizadores através da constante provocação, gerar uma vaga de emoções extremas (raiva, medo, êxtase e tristeza), e recompensar aqueles capazes de correr essa corrente elétrica bárbara através da sua rede. E acontece que aqueles que provaram ser mais capazes disso vêm de um universo de charlatães: falsificadores de notícias, propagandistas e golpistas. Desprendidos de qualquer senso de normas, esses maus atores floresceram. Eles não o teriam feito se não tivéssemos emprestado a estas plataformas o nosso prestígio – não tivéssemos tratado a confiança que ganhamos como o bem de menos valor de que podíamos dispor.

Começamos como céticos do poder, determinados a construir algo democrático. Mas esse ceticismo desvaneceu-se e foi substituído por uma espécie de obediência. É difícil desafiar o establishment  quando se lhe cedeu tanto do ganha-pão de cada um de nós. Se aqueles que outrora afluíram às nossas criações com entusiasmo agora nos veem como elites insuportáveis e incontroláveis, dificilmente poderemos censurá-los. Nós falhamos em entregar o mundo que prometemos fazer e não fizémos. O fluxo de informação é controlado mais uma vez por alguns guardiões, e as nossas vidas on-line – tudo o que criamos e como o consumimos – têm sido mercantilizadas. Os poderosos estão a puxar-nos para os dados dos utilizadores. Nós, os crentes da Boa Internet, deveríamos ser o baluarte contra este inferno da Internet e, em vez disso, abrimos-lhe as portas de par em par.

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Nota

[1] N.T. Um leitor de RSS [formato de distribuição de informações em tempo real pela internet], também chamado de leitor de fontes, é um programa complementar do navegador projetado para reunir e exibir fontes RSS de acordo com parâmetros definíveis pelo usuário. Um leitor de RSS pode reduzir o tempo e o esforço necessários para verificar publicações online para atualizações. Ele cria, com efeito, uma assinatura de notícias personalizada para o utilizador da Internet. Vd. https://whatis.techtarget.com/definition/RSS-reader e https://pt.wikipedia.org/wiki/RSS

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O autor: Jason Linkins é editor sénior da The New Republic. Anteriormente, ele trabalhou como editor sénior na ThinkProgress e como redator de longa data no The Huffington Post. O seu trabalho já apareceu no The Baffler, The Awl, Maclean’s, e DCist.

 

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